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Conceitos / Economia política / Distribuição da riqueza

Renda da terra

Em poucas palavras

A renda da terra é a parte da mais-valia que o dono da terra recebe só por ser dono, graças ao monopólio sobre uma porção do planeta. Marx mostrou que o preço da terra é essa renda capitalizada e que até a pior terra paga renda, porque a propriedade barra o capital. Para Ariovaldo Umbelino de Oliveira, no Brasil o capitalista e o proprietário costumam ser a mesma pessoa.

Eixo e tema
Economia política · Distribuição da riqueza
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista, de Karl Marx

Explicação

O que é a renda da terra

No livro III de O capital, Marx parte de uma agricultura em que quem trabalha a terra é assalariado de um capitalista, o arrendatário. O arrendatário paga ao dono da terra, em prazos fixados em contrato, uma soma de dinheiro pelo direito de investir o seu capital naquele solo, e essa soma se chama renda da terra. Para Marx, a renda é a forma econômica em que a propriedade da terra se realiza, isto é, o modo como o título de dono rende dinheiro. (Marx, O capital, livro III, cap. 37, §§ 7 e 51)

A propriedade da terra, explica Marx, se baseia no monopólio que certas pessoas têm sobre porções do planeta, como esferas exclusivas da sua vontade. Toda renda da terra é mais-valia, ou seja, valor criado pelo trabalho não pago de quem produz. O dono não participa da produção, mas o monopólio lhe permite cobrar um tributo sobre ela, e esse poder cresce à medida que a produção de mercadorias se desenvolve. (Marx, O capital, livro III, cap. 37, §§ 5, 21, 53 e 61)

Renda diferencial e renda absoluta

Para explicar a primeira forma de renda, Marx usa o exemplo de fábricas movidas por uma queda d'água, que produzem mais barato do que as movidas a vapor e por isso ganham um sobrelucro, isto é, um lucro acima da média. Quando a queda d'água pertence a um dono de terra, esse sobrelucro vira renda e passa para ele. Marx conclui que a propriedade da terra não cria essa parte do valor e apenas permite ao proprietário tirá-la do bolso do fabricante e pô-la no seu. (Marx, O capital, livro III, cap. 38, §§ 2, 3, 15 e 19)

Na agricultura, a renda diferencial nasce das diferenças entre as terras, porque só a paga a terra cujo produto custa menos do que o preço que regula o mercado. Marx mostra que existe também uma renda absoluta, que até a pior terra cultivada paga, porque a propriedade privada funciona como uma barreira que não deixa o capital entrar em terra nova sem pagar um tributo. Lênin escreveu, em 1907, que negar a renda absoluta é negar toda importância econômica à propriedade privada da terra no capitalismo. (Marx, O capital, livro III, cap. 45, §§ 1, 26 e 27; Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, § 13)

O preço da terra

Marx observa que a terra não é produto do trabalho e por isso não tem valor, embora tenha preço. Esse preço é a renda capitalizada, isto é, a soma de dinheiro que, aplicada a juros, renderia o mesmo que a renda anual da terra. Por isso o preço da terra pode subir sem que a renda suba, bastando que a taxa de juros caia. (Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 16; livro III, cap. 46, § 10)

Para Marx, quem defende a renda dizendo que o comprador pagou pela terra usa o mesmo argumento que justificaria a escravidão, já que o senhor também pagou pelo escravo. Ele registra ainda que, nas cidades que crescem depressa, o objeto da especulação imobiliária é a renda do terreno, mais do que a casa construída. (Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 19; livro III, cap. 46, § 2)

A renda da terra no Brasil

O geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira observa que, quando o capitalista e o proprietário da terra são a mesma pessoa, ele embolsa ao mesmo tempo o lucro médio e a renda. Para Oliveira, essa fusão não elimina a contradição entre a terra e o capital, apenas a esconde. Quem compra terra compra o direito de se apropriar de uma parte da mais-valia de toda a sociedade, e a terra rende sem produzir nada por causa do monopólio de uma classe sobre ela. (Oliveira, Agricultura e indústria no Brasil, p. 6)

Oliveira mostra também que, na pequena propriedade camponesa, o capital se apropria da renda da terra sem expropriar o camponês, e que os bancos drenam parte dessa renda pelos juros dos empréstimos. A economista Leda Paulani, que retoma a teoria de Marx, chama os donos de terra de rentistas, porque capturam parte do valor gerado no seu território sem produzi-lo. Para Paulani, o contrato de concessão do petróleo, adotado no governo Fernando Henrique pela Lei nº 9.478, de 1997, privatizou as rendas do subsolo, em vez de deixá-las sob o controle do Estado. (Oliveira, Agricultura e indústria no Brasil, p. 9; Paulani, Acumulação e rentismo, pp. 524 e 527)

O Estatuto da Terra, de 1964, regula o arrendamento rural, o contrato em que o dono cede o uso da terra a quem a cultiva. A lei proíbe que o pagamento do arrendamento passe de 15% do valor cadastral do imóvel, com exceção do arrendamento parcial de glebas de exploração intensiva, em que o limite é de 30%. (Presidência da República, Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, arts. 92 e 95, XII)

A nacionalização da terra

Em 1872, Marx escreveu que a propriedade do solo se tornou o grande problema de cuja solução depende o futuro da classe operária. Para ele, dividir a terra nacionalizada em pequenos lotes geraria concorrência entre os produtores e um aumento progressivo da renda, e por isso a terra só pode ser possuída pela própria nação. Lênin relata que, na Rússia de 1905 a 1907, a massa camponesa se pronunciou pela nacionalização da terra, isto é, pela abolição da propriedade privada e pela entrega de todas as terras ao Estado. (Marx, A nacionalização da terra, §§ 1, 13 e 16; Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, § 10)

No Brasil

Renda da terra no Brasil

O Estatuto da Terra limita o pagamento do arrendamento rural, que é a renda paga ao dono pelo uso da terra, a 15% do valor cadastral do imóvel, ou a 30% no arrendamento parcial de glebas de exploração intensiva. (Presidência da República, Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, art. 95, XII; Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 7)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
  • MARX, Karl. A nacionalização da terra. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos), 1982. Onde ler: §§ 1, 13 e 16.

    Ler grátis: A nacionalização da terra ↗

  • PAULANI, Leda Maria. Acumulação e rentismo: resgatando a teoria da renda de Marx para pensar o capitalismo contemporâneo. São Paulo: Revista de Economia Política, v. 36, n. 3 (144), pp. 514-535, 2016. Onde ler: pp. 524 e 527.

    Ler grátis: Acumulação e rentismo: resgatando a teoria da renda de Marx para pensar o capitalismo contemporâneo ↗

  • OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Agricultura e indústria no Brasil. Uberlândia: Campo-Território: revista de geografia agrária (UFU), v. 5, n. 10, pp. 5-64 (republicação do Boletim Paulista de Geografia, n. 58, set. 1981), 2010. Onde ler: pp. 6 e 9.

    Ler grátis: Agricultura e indústria no Brasil ↗

  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907. 1907. Onde ler: §§ 10 e 13.

    “Em primeiro lugar, o iniciador da «municipalização» na Rússia, P. Maslov, «emendou» a teoria de Marx, rechaçou a teoria da renda absoluta, renovou um tanto as doutrinas burguesas semiputrefatas sobre a lei da fertilidade decrescente, a relação entre esta lei e a teoria da renda, etc. Negar a renda absoluta é negar toda importância econômica à propriedade privada da terra nas condições do capitalismo; em consequência, esta negação levou de modo inevitável a tergiversar nas ideias marxistas sobre a nacionalização.”

    § 13

    Ler grátis: O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907 ↗

De onde vem cada afirmação desta página (27)
  • Interpretação · Karl MarxHá uma renda absoluta, distinta da renda diferencial, porque a propriedade da terra é a barreira que não permite nenhum novo investimento de capital em terra ainda não cultivada ou não arrendada sem cobrar uma renda.Marx, O capital, livro III, cap. 45, §§ 26 e 27
  • Interpretação · Ariovaldo Umbelino de OliveiraNa propriedade familiar camponesa, a renda da terra fica sujeita ao capital sem que haja expropriação dos instrumentos de produção, e o sistema bancário drena parte dessa renda pelos juros dos empréstimos.Oliveira, Agricultura e indústria no Brasil, p. 9
  • Interpretação · Ariovaldo Umbelino de OliveiraQuando o capitalista compra a terra, compra o direito de se apropriar de uma parte da mais-valia social, e a terra rende sem produção alguma por causa do monopólio de uma classe sobre esse meio de produção.Oliveira, Agricultura e indústria no Brasil, p. 6
  • Interpretação · Ariovaldo Umbelino de OliveiraQuando o capitalista e o proprietário da terra estão unificados numa mesma pessoa, ele embolsa o lucro médio e a renda da terra, e essa situação não elimina a contradição entre terra e capital, apenas a mascara.Oliveira, Agricultura e indústria no Brasil, p. 6
  • Interpretação · Karl MarxA renda da terra capitalizada constitui o preço de compra da terra, categoria à primeira vista irracional, porque a terra não é produto do trabalho e por isso não tem valor.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 16
  • Interpretação · Karl MarxCom o desenvolvimento da produção de mercadorias, cresce o poder da propriedade da terra de se apropriar de uma parte crescente de valores criados sem a sua participação.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 61
  • Interpretação · Karl MarxO arrendatário capitalista paga ao dono da terra, em prazos fixados em contrato, uma soma de dinheiro pelo direito de investir o seu capital naquela esfera de produção, e essa soma se chama renda da terra.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 7
  • Interpretação · Karl MarxNa renda diferencial, só paga renda a terra cujo produto tem preço de produção individual abaixo do preço de produção que regula o mercado, de modo que surge um sobrelucro transformado em renda.Marx, O capital, livro III, cap. 45, § 1
  • Interpretação · Karl MarxJustificar a renda da terra pela sua compra e venda serviria também para justificar a escravidão, já que os rendimentos do trabalho do escravo representariam os juros do capital gasto na sua compra.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 19
  • Interpretação · Karl MarxNas cidades que crescem rapidamente, é a renda do terreno, e não a casa, o objeto real da especulação imobiliária.Marx, O capital, livro III, cap. 46, § 2
  • FatoO Estatuto da Terra prevê que a posse ou o uso temporário da terra se exerce por contrato de arrendamento rural ou de parceria entre o proprietário e quem nela exerce atividade agrícola ou pecuária.Presidência da República, Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, art. 92
  • FatoA remuneração do arrendamento rural não pode passar de 15% do valor cadastral do imóvel, incluídas as benfeitorias do contrato, salvo no arrendamento parcial de glebas de exploração intensiva de alta rentabilidade, em que pode chegar a 30%.Presidência da República, Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, art. 95, XII
  • Interpretação · Karl MarxO preço da terra pode subir sem que a renda suba, por uma simples queda da taxa de juros, que faz a renda ser vendida mais cara.Marx, O capital, livro III, cap. 46, § 10
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninNegar a renda absoluta é negar toda importância econômica à propriedade privada da terra nas condições do capitalismo; Maslov, que a negou, acabou deformando as ideias marxistas sobre a nacionalização.Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, § 13
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA necessidade econômica de romper com o regime da servidão se expressa na nacionalização da terra, isto é, na abolição da propriedade privada e na entrega de todas as terras ao Estado, defendida pela massa camponesa da Rússia nos congressos e nas Dumas de 1905 a 1907.Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, § 10
  • Interpretação · Karl MarxToda renda da terra é mais-valia, produto de trabalho excedente.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 53
  • Interpretação · Karl MarxA propriedade da terra baseia-se no monopólio de certas pessoas sobre porções determinadas do globo, como esferas exclusivas da sua vontade privada, com exclusão de todas as outras.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 5
  • Interpretação · Karl MarxNacionalizar a terra para deixá-la em pequenos lotes a indivíduos ou a sociedades de operários geraria concorrência entre eles e um aumento progressivo da renda.Marx, A nacionalização da terra, § 13
  • Interpretação · Karl MarxO movimento social conduzirá à decisão de que a terra só pode ser possuída pela própria nação.Marx, A nacionalização da terra, § 16
  • Interpretação · Karl MarxA propriedade do solo é a fonte original de toda a riqueza e tornou-se o grande problema de cuja solução depende o futuro da classe operária.Marx, A nacionalização da terra, § 1
  • Interpretação · Karl MarxA propriedade da terra não cria a parte do valor que se transforma em sobrelucro, apenas permite ao proprietário tirá-la do bolso do fabricante e pô-la no seu.Marx, O capital, livro III, cap. 38, § 19
  • Interpretação · Leda Maria PaulaniO contrato de concessão do petróleo, adotado pelo governo Fernando Henrique com a Lei nº 9.478, de 1997, privatiza as rendas produzidas no setor, em vez de mantê-las sob o controle do Estado.Paulani, Acumulação e rentismo, p. 527
  • Interpretação · Leda Maria PaulaniOs donos de terra capturam uma parte do valor gerado em seu território e se apropriam dele sob a forma de renda, e por isso são rentistas.Paulani, Acumulação e rentismo, p. 524
  • Interpretação · Karl MarxNo exemplo de Marx, fábricas movidas por quedas d'água têm preço de custo menor do que as movidas a vapor e, vendendo pelo mesmo preço de produção que regula o mercado, obtêm um sobrelucro.Marx, O capital, livro III, cap. 38, §§ 2 e 3
  • Interpretação · Karl MarxQuando as quedas d'água pertencem a proprietários de terra, o sobrelucro que vem do uso dessa força natural monopolizável se transforma em renda da terra.Marx, O capital, livro III, cap. 38, § 15
  • Interpretação · Karl MarxEm todas as suas formas, a apropriação da renda é a forma econômica em que a propriedade da terra se realiza.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 51
  • Interpretação · Karl MarxO monopólio do chamado proprietário sobre uma porção do planeta permite-lhe cobrar um tributo de quem cultiva a terra, e esse pagamento determina o preço da terra, que é a renda capitalizada do arrendamento.Marx, O capital, livro III, cap. 37, § 21

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907. 1907. Abrir ↗
  3. OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Agricultura e indústria no Brasil. Uberlândia: Campo-Território: revista de geografia agrária (UFU), v. 5, n. 10, pp. 5-64 (republicação do Boletim Paulista de Geografia, n. 58, set. 1981), 2010. Abrir ↗
  4. PAULANI, Leda Maria. Acumulação e rentismo: resgatando a teoria da renda de Marx para pensar o capitalismo contemporâneo. São Paulo: Revista de Economia Política, v. 36, n. 3 (144), pp. 514-535, 2016. Abrir ↗
  5. Presidência da República. Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 (Estatuto da Terra). planalto.gov.br, 30/11/1964. Abrir ↗
  6. MARX, Karl. A nacionalização da terra. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos), 1982. Abrir ↗
  7. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 45. Absolute Ground-Rent, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Ariovaldo Umbelino de Oliveira. Agricultura e indústria no Brasil (Campo-Território, v. 5, n. 10, 2010; publicado em 1981 no Boletim Paulista de Geografia). seer.ufu.br, 01/08/2010. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 37. Introductory Remarks (Part VI, Transformation of Surplus-Profit into Ground-Rent), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 46. Building Site Rent. Mining Rent. Price of Land, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Vladímir Ilitch Lênin. Do livro O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907 (trecho, com a ficha da Editorial Vitória), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx. A nacionalização da terra (1872, com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 38. Differential Rent: General Remarks, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Leda Maria Paulani. Acumulação e rentismo: resgatando a teoria da renda de Marx para pensar o capitalismo contemporâneo (Revista de Economia Política, 2016). scielo.br, 01/07/2016. Abrir ↗