Explicação
O roubo do solo
Marx escreveu no livro I de O capital que a produção capitalista, ao amontoar a população em grandes cidades, perturba a troca material entre o ser humano e a terra. Essa troca é o retorno ao solo dos elementos que as pessoas consomem como alimento e vestuário, e Marx a chama de condição natural eterna da fertilidade duradoura do solo. Com isso, para ele, o capitalismo destrói ao mesmo tempo a saúde física do operário da cidade e a vida espiritual do trabalhador do campo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 10, § 2)
Na mesma passagem, Marx afirma que todo progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de roubar o trabalhador e, ao mesmo tempo, na arte de roubar o solo. Cada aumento da fertilidade por um prazo curto é, segundo ele, um progresso na ruína das fontes duradouras dessa fertilidade, e o processo é mais rápido nos países que, como os Estados Unidos, partem da grande indústria. Marx conclui que a produção capitalista só desenvolve a técnica minando as fontes de toda a riqueza, a terra e o trabalhador. (Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 10, § 2)
No livro III, Marx escreveu que a grande propriedade da terra reduz a população do campo e amontoa nas cidades uma população industrial cada vez maior, criando uma ruptura irreparável no intercâmbio social prescrito pelas leis naturais da vida. O resultado, segundo ele, é o desperdício da vitalidade do solo, que o comércio leva para muito além das fronteiras de um país. Gracieda dos Santos Araújo chama essa ruptura de falha metabólica e escreve que o conceito permitiu a Marx criticar a degradação ambiental e a crise da agricultura. (Marx, O capital, livro III, cap. 47, § 51; Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 114)
A América Latina como fornecedora de alimentos
Ruy Mauro Marini escreveu que o desenvolvimento industrial exige uma grande disponibilidade de bens agrícolas e que a Europa do século XIX não teria crescido assim sem os meios de subsistência agropecuários fornecidos em grande parte pelos países latino-americanos. A essa oferta de alimentos, segundo ele, logo se somou a de matérias-primas para a indústria, função que se revelou a mais duradoura para a América Latina. (Marini, Dialética da dependência, pp. 11 a 13)
Em 1946, Luiz Carlos Prestes disse na Assembleia Constituinte que o latifúndio e a agricultura ligada ao comércio de exportação, orientada pelos grandes bancos estrangeiros, empurravam a lavoura cada vez mais para o interior. Para ele, esse avanço destruía as matas, as fontes e os cursos d'água, e o país exportava a riqueza nacional por ninharias. (Prestes, A reforma agrária, §§ 80 e 82 da página do MIA; Luiz Carlos Prestes, O problema da terra e a Constituição de 1946, ficha)
A modernização conservadora
Guilherme Delgado chama de modernização conservadora a transformação da agricultura brasileira entre 1965 e 1980, quando ela se integrou à indústria e ao mercado externo com forte apoio financeiro do Estado. Para ele, essa modernização nasceu com a derrota do movimento pela reforma agrária. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, pp. 164 e 165)
Segundo Delgado, a partir de 1965 o Sistema Nacional de Crédito Rural financiou com grandes subsídios os pacotes da chamada Revolução Verde, com fertilizantes, defensivos, sementes melhoradas, tratores e colhedeiras. O latifúndio, escreve ele, ganhou inúmeras linhas de apoio, e o caráter desigual da agricultura brasileira, do ponto de vista técnico, social e regional, foi preservado e até aprofundado. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, pp. 164 e 165)
Delgado mostra que, nos anos 1990, ganharam espaço os defensores do agronegócio, ou agribusiness, uma integração da economia rural ao mercado externo comandada por grandes corporações internacionais do comércio e da indústria de produtos primários voltados para o mercado externo, as chamadas commodities. Para ele, essa integração era muito mais negócio do que agricultura, porque não tinha vínculo com o território nacional nem com os grupos rurais tradicionais. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, p. 166; Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115)
Agronegócio e natureza
Gracieda dos Santos Araújo cita Miguel Teubal, para quem o agronegócio é um modelo com predomínio do capital financeiro, especializado em commodities para o mercado externo e concentrado em grandes unidades de exploração. Ela cita também Bernardo Mançano Fernandes e Mônica Molina, para quem o agronegócio é o novo nome do modelo da agropecuária capitalista, nascido do sistema de plantation, a grande propriedade que produz para exportar. Para Araújo, no Brasil o nome agronegócio serviu para tirar da grande propriedade a imagem do trabalho escravo, da concentração extrema da terra e do atraso. (Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115)
Araújo escreve que os trabalhadores do campo, dependentes das tecnologias trazidas pelas corporações internacionais, ficam expostos à contaminação do solo e da água e à desertificação das áreas produtivas, causadas pelo uso abusivo de agrotóxicos e da mecanização. (Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115)