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Conceitos / Formação do Brasil / Capitalismo dependente

Agronegócio e meio ambiente

Em poucas palavras

Para Marx, a agricultura capitalista progride roubando ao mesmo tempo o trabalhador e o solo, e por isso mina as fontes de toda a riqueza. No Brasil, a modernização do campo depois de 1964 trouxe máquinas, adubos e defensivos com crédito público e sem reforma agrária, o que Guilherme Delgado chama de modernização conservadora. Nos anos 1990, ela deu lugar ao agronegócio voltado às commodities de exportação.

Eixo e tema
Formação do Brasil · Capitalismo dependente
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

O roubo do solo

Marx escreveu no livro I de O capital que a produção capitalista, ao amontoar a população em grandes cidades, perturba a troca material entre o ser humano e a terra. Essa troca é o retorno ao solo dos elementos que as pessoas consomem como alimento e vestuário, e Marx a chama de condição natural eterna da fertilidade duradoura do solo. Com isso, para ele, o capitalismo destrói ao mesmo tempo a saúde física do operário da cidade e a vida espiritual do trabalhador do campo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 10, § 2)

Na mesma passagem, Marx afirma que todo progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de roubar o trabalhador e, ao mesmo tempo, na arte de roubar o solo. Cada aumento da fertilidade por um prazo curto é, segundo ele, um progresso na ruína das fontes duradouras dessa fertilidade, e o processo é mais rápido nos países que, como os Estados Unidos, partem da grande indústria. Marx conclui que a produção capitalista só desenvolve a técnica minando as fontes de toda a riqueza, a terra e o trabalhador. (Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 10, § 2)

No livro III, Marx escreveu que a grande propriedade da terra reduz a população do campo e amontoa nas cidades uma população industrial cada vez maior, criando uma ruptura irreparável no intercâmbio social prescrito pelas leis naturais da vida. O resultado, segundo ele, é o desperdício da vitalidade do solo, que o comércio leva para muito além das fronteiras de um país. Gracieda dos Santos Araújo chama essa ruptura de falha metabólica e escreve que o conceito permitiu a Marx criticar a degradação ambiental e a crise da agricultura. (Marx, O capital, livro III, cap. 47, § 51; Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 114)

A América Latina como fornecedora de alimentos

Ruy Mauro Marini escreveu que o desenvolvimento industrial exige uma grande disponibilidade de bens agrícolas e que a Europa do século XIX não teria crescido assim sem os meios de subsistência agropecuários fornecidos em grande parte pelos países latino-americanos. A essa oferta de alimentos, segundo ele, logo se somou a de matérias-primas para a indústria, função que se revelou a mais duradoura para a América Latina. (Marini, Dialética da dependência, pp. 11 a 13)

Em 1946, Luiz Carlos Prestes disse na Assembleia Constituinte que o latifúndio e a agricultura ligada ao comércio de exportação, orientada pelos grandes bancos estrangeiros, empurravam a lavoura cada vez mais para o interior. Para ele, esse avanço destruía as matas, as fontes e os cursos d'água, e o país exportava a riqueza nacional por ninharias. (Prestes, A reforma agrária, §§ 80 e 82 da página do MIA; Luiz Carlos Prestes, O problema da terra e a Constituição de 1946, ficha)

A modernização conservadora

Guilherme Delgado chama de modernização conservadora a transformação da agricultura brasileira entre 1965 e 1980, quando ela se integrou à indústria e ao mercado externo com forte apoio financeiro do Estado. Para ele, essa modernização nasceu com a derrota do movimento pela reforma agrária. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, pp. 164 e 165)

Segundo Delgado, a partir de 1965 o Sistema Nacional de Crédito Rural financiou com grandes subsídios os pacotes da chamada Revolução Verde, com fertilizantes, defensivos, sementes melhoradas, tratores e colhedeiras. O latifúndio, escreve ele, ganhou inúmeras linhas de apoio, e o caráter desigual da agricultura brasileira, do ponto de vista técnico, social e regional, foi preservado e até aprofundado. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, pp. 164 e 165)

Delgado mostra que, nos anos 1990, ganharam espaço os defensores do agronegócio, ou agribusiness, uma integração da economia rural ao mercado externo comandada por grandes corporações internacionais do comércio e da indústria de produtos primários voltados para o mercado externo, as chamadas commodities. Para ele, essa integração era muito mais negócio do que agricultura, porque não tinha vínculo com o território nacional nem com os grupos rurais tradicionais. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, p. 166; Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115)

Agronegócio e natureza

Gracieda dos Santos Araújo cita Miguel Teubal, para quem o agronegócio é um modelo com predomínio do capital financeiro, especializado em commodities para o mercado externo e concentrado em grandes unidades de exploração. Ela cita também Bernardo Mançano Fernandes e Mônica Molina, para quem o agronegócio é o novo nome do modelo da agropecuária capitalista, nascido do sistema de plantation, a grande propriedade que produz para exportar. Para Araújo, no Brasil o nome agronegócio serviu para tirar da grande propriedade a imagem do trabalho escravo, da concentração extrema da terra e do atraso. (Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115)

Araújo escreve que os trabalhadores do campo, dependentes das tecnologias trazidas pelas corporações internacionais, ficam expostos à contaminação do solo e da água e à desertificação das áreas produtivas, causadas pelo uso abusivo de agrotóxicos e da mecanização. (Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115)

No Brasil

Agronegócio e meio ambiente no Brasil

A partir de 1965, o Sistema Nacional de Crédito Rural financiou com subsídios a compra de fertilizantes, defensivos, sementes melhoradas e máquinas; Guilherme Delgado chama esse processo de modernização conservadora, nascida da derrota da reforma agrária. (Guilherme C. Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, pp. 164 e 165; Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, pp. 164 e 165)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 13, seção 10, § 2.

    “E todo o progresso da agricultura capitalista é não só um progresso na arte de roubar o operário como simultaneamente na arte de roubar o solo; cada progresso na subida da sua fertilidade por um dado prazo de tempo é, simultaneamente, um progresso na ruína das fontes duradoras desta fertilidade. […] A produção capitalista, portanto, apenas desenvolve a técnica e combinação do processo social de produção minando, simultaneamente, as fontes manantes de toda a riqueza: a terra e o operário.”

    Livro I, cap. 13, seção 10, § 2

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (17)
  • Interpretação · Gracieda dos Santos AraújoDependentes dos arranjos tecnológicos introduzidos pelas corporações internacionais, os trabalhadores do campo estão expostos à contaminação do solo e da água e à desertificação das áreas produtivas, geradas pelo uso abusivo de agrotóxicos e da mecanização.Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115
  • Interpretação · Gracieda dos Santos AraújoPor meio do conceito de falha metabólica, Marx critica a economia política burguesa, e o conceito lhe permitiu desenvolver a crítica da degradação ambiental e da crise da agricultura.Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 114
  • Interpretação · Gracieda dos Santos AraújoNo Brasil, o agronegócio surge como forma de tirar da propriedade latifundista a imagem negativa do trabalho escravo, do coronelismo, da extrema concentração da terra e do atraso político e econômico do campo.Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115
  • Interpretação · Guilherme C. DelgadoNos anos 1990, os protagonistas do agribusiness defendem uma integração externa da economia rural comandada pelas grandes corporações internacionais do comércio e da indústria de commodities, sem vínculo com a territorialidade nacional do setor rural e com os grupos rurais tradicionais, o que é muito mais uma integração business do que agro.Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, p. 166
  • Interpretação · Guilherme C. DelgadoO período de 1965 a 1980 foi a idade de ouro do desenvolvimento de uma agricultura capitalista integrada à economia industrial e urbana e ao setor externo, sob forte mediação financeira do setor público; a chamada modernização conservadora da agricultura nasceu com a derrota do movimento pela reforma agrária.Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, p. 164
  • Interpretação · Guilherme C. DelgadoO caráter heterogêneo da agricultura brasileira, do ponto de vista técnico, social e regional, foi preservado e até aprofundado na modernização, num pacto agrário modernizante e conservador que trouxe para o seu abrigo as oligarquias rurais; o latifúndio obteve inúmeras linhas de apoio e defesa na nova estrutura fiscal e financeira do setor rural.Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, p. 165
  • FatoA partir de 1965, com o Sistema Nacional de Crédito Rural, estimulou-se a adoção dos pacotes tecnológicos da Revolução Verde, com insumos industriais (fertilizantes, defensivos, corretivos do solo, sementes melhoradas e combustíveis) e máquinas (tratores, colhedeiras e implementos), mediados por volumosas subvenções financeiras.Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, pp. 164 e 165
  • Interpretação · Bernardo Mançano Fernandes e Mônica Molina, citados por Gracieda dos Santos AraújoAgronegócio é o novo nome do modelo de desenvolvimento econômico da agropecuária capitalista; o modelo não é novo e tem origem no sistema plantation, em que grandes propriedades produzem para exportação.Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniO desenvolvimento industrial supõe uma grande disponibilidade de bens agrícolas; o crescimento da classe operária industrial e da população urbana nos países industriais do século XIX não teria sido possível sem os meios de subsistência de origem agropecuária proporcionados em grande parte pelos países latino-americanos.Marini, Dialética da dependência, pp. 11 e 12
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniÀ capacidade de criar uma oferta mundial de alimentos se agregou a de contribuir para um mercado de matérias-primas industriais, função que se revelaria a mais duradoura para a América Latina.Marini, Dialética da dependência, pp. 12 e 13
  • Interpretação · Karl MarxA produção capitalista apenas desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção minando, simultaneamente, as fontes de toda a riqueza, a terra e o operário.Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 10, § 2
  • Interpretação · Karl MarxTodo o progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de roubar o operário e, simultaneamente, na arte de roubar o solo; cada progresso na subida da fertilidade por um dado prazo é um progresso na ruína das fontes duradouras dessa fertilidade, e o processo é tanto mais rápido quanto mais um país, como os Estados Unidos, parte da grande indústria.Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 10, § 2
  • Interpretação · Karl MarxA grande propriedade da terra reduz a população agrícola a um mínimo cada vez menor e lhe opõe uma população industrial crescente amontoada nas grandes cidades, criando condições que causam uma ruptura irreparável na coerência do intercâmbio social prescrito pelas leis naturais da vida; a vitalidade do solo é desperdiçada, e o comércio leva esse desperdício muito além das fronteiras de um Estado (Liebig).Marx, O capital, livro III, cap. 47, § 51
  • Interpretação · Karl MarxCom a preponderância da população urbana aglomerada em grandes centros, a produção capitalista perturba a troca material entre homem e terra, isto é, o retorno ao solo dos componentes deste consumidos pelo homem na forma de alimentos e de vestuário, a eterna condição natural de duradoura fertilidade do solo, e destrói a saúde física do operário urbano e a vida espiritual do operário rural.Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 10, § 2
  • FatoO discurso de Luiz Carlos Prestes de 17 de junho de 1946 foi pronunciado na 86ª sessão da Assembleia Nacional Constituinte; a página do MIA que o reproduz a partir do livro Problemas atuais da democracia (Vitória, 1947, pp. 363-414) o intitula O problema da terra e a Constituição de 1946.Luiz Carlos Prestes, O problema da terra e a Constituição de 1946, ficha da página do MIA
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesO latifúndio e a agricultura ligada ao comércio de exportação, orientado pelos grandes bancos estrangeiros, determinam o avanço sucessivo para o interior, trazendo o aniquilamento da riqueza nacional pela devastação das florestas e pela diminuição das fontes e dos cursos d'água; o país exporta a riqueza nacional por ninharias, como no caso do café e do algodão.Prestes, A reforma agrária, §§ 80 e 82 da página do MIA
  • Interpretação · Miguel Teubal, citado por Gracieda dos Santos AraújoO agronegócio é um modelo cujo funcionamento global, com predomínio do capital financeiro, se orienta para uma especialização crescente em commodities voltadas ao mercado externo e tende à concentração em grandes unidades de exploração.Araújo, O capitalismo e a apropriação da natureza, p. 115

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  3. ARAÚJO, Gracieda dos Santos. O capitalismo e a apropriação da natureza: usos, consequências e resistências. 2019. Abrir ↗
  4. MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. 1973. Abrir ↗
  5. PRESTES, Luiz Carlos. A reforma agrária (discurso na Assembleia Constituinte, 17 de junho de 1946). 1946. Abrir ↗
  6. Luiz Carlos Prestes. O problema da terra e a Constituição de 1946 (discurso na 86ª sessão da Assembleia Nacional Constituinte, 17 de junho de 1946; Problemas atuais da democracia, Vitória, 1947, pp. 363-414), no MIA. marxists.org, 17/06/1946. Abrir ↗
  7. DELGADO, Guilherme C.. Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra: um estudo da reflexão agrária. 2001. Abrir ↗
  8. Guilherme C. Delgado. Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra: um estudo da reflexão agrária (Estudos Avançados, v. 15, n. 43, 2001). revistas.usp.br. Abrir ↗
  9. Gracieda dos Santos Araújo. O capitalismo e a apropriação da natureza: usos, consequências e resistências (GEOUSP, v. 23, n. 1, 2019). revistas.usp.br. Abrir ↗
  10. Ruy Mauro Marini. Dialéctica de la dependencia, com o pós-escrito En torno a Dialéctica de la dependencia (PDF do Archivo de Ruy Mauro Marini, UNAM). marini-escritos.unam.mx. Abrir ↗
  11. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 13, seção 10. Grande indústria e agricultura (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 47. Genesis of Capitalist Ground-Rent, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Luiz Carlos Prestes. A reforma agrária (discurso de 17 de junho de 1946; Problemas, n. 1, agosto de 1947), no MIA. marxists.org, 17/06/1946. Abrir ↗