Explicação
Viver de rendimentos
Em O imperialismo, fase superior do capitalismo, Lênin explica que o capitalismo separa a propriedade do capital da sua aplicação na produção. De um lado fica o rentier, palavra francesa para quem vive só dos rendimentos do capital-dinheiro, e do outro o empresário e todos os que dirigem a produção. Para Lênin, no imperialismo essa separação se torna muito maior, e o domínio do capital financeiro significa o predomínio do rentier e da oligarquia financeira. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 3, § 32)
Lênin descreve uma camada crescente de pessoas que vivem de cortar cupons, isto é, de receber os juros e os dividendos dos títulos que possuem, sem participar de empresa alguma. A exportação de capitais, uma das bases econômicas do imperialismo, aprofunda o divórcio entre esses rentiers e a produção e marca de parasitismo o país inteiro, que passa a viver da exploração do trabalho de alguns países e colônias. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 8, § 4)
O Estado rentista
Para Lênin, o mundo ficou dividido entre um punhado de Estados usurários, que vivem dos juros dos empréstimos feitos a outros, e a grande maioria de Estados devedores. Ele chama o Estado rentista de Estado do capitalismo parasitário e em decomposição, e diz que essa condição se reflete na política dos países e no movimento operário. O capital financeiro, concentrado em poucas mãos, lucra com a emissão de títulos e com os empréstimos aos Estados e impõe à sociedade inteira um tributo em favor dos monopolistas. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 8, §§ 7 e 9; cap. 3, § 20)
O capital que parece render sozinho
No livro III de O capital, Marx escreve que as relações do capital assumem a sua forma mais exterior e fetichista no capital que rende juros, isto é, a forma em que uma relação entre pessoas aparece como poder de uma coisa. Nele se vê só o movimento do dinheiro que gera mais dinheiro, sem o processo de produção que liga os dois extremos. Embora o juro seja apenas uma parte da mais-valia que o capitalista ativo arranca dos trabalhadores, ele aparece como o produto típico do capital, e o lucro da produção aparece como acessório. (Marx, O capital, livro III, cap. 24, §§ 1 e 3)
Marx já tinha descrito esse tipo de dominação em As lutas de classes em França, de 1850. Sob o rei Luís Filipe, quem governava a França era uma fração da burguesia formada por banqueiros, reis da Bolsa, donos de ferrovias e de minas e parte dos grandes proprietários de terra, a chamada aristocracia financeira. Para Marx, essa fração buscava enriquecer pela apropriação de riqueza alheia já existente, em vez de enriquecer pela produção. (Marx, As lutas de classes em França de 1848 a 1850, cap. 1, §§ 8 e 16)
O rentismo hoje
A economista Leda Paulani defende que o rentismo é hoje um dos traços mais marcantes da acumulação de capital. Ela lembra que, para Marx, assim como a propriedade da terra rende a renda fundiária, a propriedade do capital enquanto tal rende a renda chamada juro. Paulani conclui que vivemos num capitalismo dominado pela finança, em que a acumulação obedece mais aos imperativos da propriedade do que aos da produção. (Paulani, Acumulação e rentismo, pp. 514, 525, 526 e 533)
Paulani aponta que, além da disputa entre salários e lucros, há uma segunda disputa entre o juro e o lucro da empresa e uma terceira entre os lucros guardados para investir e os dividendos pagos aos acionistas. Os economistas Reinaldo Carcanholo e Paulo Nakatani acrescentam que o capital especulativo parasitário, embora seja riqueza fictícia, ganha força própria e se torna capaz de domínio econômico e até político. Para eles, a época do seu predomínio é marcada por crises financeiras repetidas e por uma polarização entre riqueza e miséria nunca vista. (Paulani, Acumulação e rentismo, p. 533; Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 302)
O rentismo no Brasil
O economista Evilasio Salvador mostra que, com a financeirização, cresce a transferência de recursos do orçamento público para o pagamento dos juros da dívida, que alimentam os rendimentos dos rentistas. Para ele, o fundo público, isto é, o dinheiro arrecadado e gasto pelo Estado, transfere recursos sob a forma de juros para o capital financeiro, em especial para as classes rentistas. (Salvador, Fundo público e políticas sociais na crise do capitalismo, pp. 606 e 622)
Os juros nominais pagos pelo setor público consolidado, que reúne a União, os estados, os municípios, o Banco Central e as estatais, menos a Petrobras e a Eletrobras, chegaram a 8,99% do PIB nos doze meses até setembro de 2026. Nos doze meses até dezembro de 2020, eles tinham sido de 4,11% do PIB. (Banco Central do Brasil, SGS, série 5760, setembro de 2026 e dezembro de 2020; Banco Central do Brasil, NFSP sem desvalorização cambial, nome e conceito da série)