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Conceitos / Economia política / Gasto público e austeridade

Pleno emprego

Em poucas palavras

Pleno emprego é a situação em que quase todos os que querem trabalhar encontram trabalho. Kalecki mostrou que o gasto público pode alcançá-lo, mas que os patrões o combatem porque o desemprego disciplina os trabalhadores. Para Marx, o exército de reserva de desempregados é uma condição de existência do capitalismo.

Eixo e tema
Economia política · Gasto público e austeridade
Obra principal
Aspectos políticos do pleno emprego, de Michał Kalecki

Explicação

O que Kalecki chamou de doutrina do pleno emprego

Em 1943, o economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, publicou o artigo Aspectos políticos do pleno emprego. Ele parte da tese, aceita então pela maioria dos economistas, de que mesmo no capitalismo o pleno emprego, situação em que quase todos os que querem trabalhar encontram trabalho, pode ser garantido por um programa de gastos do governo. Se o governo investe em escolas, hospitais e estradas ou subsidia o consumo de massa, e financia esses gastos com empréstimos, a demanda efetiva, isto é, a procura com dinheiro para pagar, cresce até o pleno emprego. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 1 e 2)

Kalecki responde também ao temor de inflação. Enquanto houver trabalhadores, fábricas e matérias-primas disponíveis, o aumento da procura é atendido pelo aumento da produção, e os preços só sobem se a procura continuar crescendo depois de atingido o pleno emprego. Por isso, conclui ele, um governo que busca o pleno emprego e não passa desse ponto não precisa ter medo da inflação. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 5)

Por que os patrões resistem

Para Kalecki, a oposição dos grandes empresários ao pleno emprego tem base política, embora os argumentos apresentados sejam econômicos. Ele divide essa oposição em três razões, a aversão à interferência do governo no emprego, a aversão ao destino dos gastos, que são o investimento público e o subsídio ao consumo, e a aversão às mudanças sociais e políticas que o pleno emprego duradouro traz. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 8 e 10)

Kalecki explica a terceira razão. Sob pleno emprego permanente, as demissões perderiam o papel de medida disciplinar, a posição social do chefe seria minada e a autoconfiança e a consciência de classe dos trabalhadores cresceriam. Kalecki reconhece que os lucros seriam maiores, mas afirma que a disciplina nas fábricas e a estabilidade política valem mais para os líderes empresariais do que os lucros, e que o instinto de classe lhes diz que o desemprego é parte do sistema capitalista normal. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16)

Kalecki observa que o fascismo alemão removeu essas objeções, porque o Estado passou ao controle direto da parceria entre o grande capital e o fascismo e a disciplina foi mantida com a supressão dos sindicatos. Para ele, o sistema fascista começa com a superação do desemprego, se desenvolve numa economia de armamento e termina inevitavelmente em guerra. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 17, 18, 19 e 21)

Marx e o exército de reserva

No livro I de O capital, Marx explica o que acontece com os salários quando a acumulação absorve muitos trabalhadores. Quando a acumulação faz os salários subirem, o estímulo ao ganho se enfraquece, a acumulação diminui e o preço do trabalho cai de novo até o nível que convém à valorização do capital. Para Marx, a grandeza da acumulação é a variável independente, e a grandeza do salário é a dependente. (Marx, O capital, livro I, cap. 23, seção 1, § 15)

Para Marx, a população operária excedente é um produto necessário da acumulação e se torna uma condição de existência do modo de produção capitalista, porque forma um exército industrial de reserva, isto é, uma massa de desempregados e subempregados sempre disponível para o capital. Nos períodos de estagnação e de prosperidade média, essa reserva pressiona os trabalhadores ocupados, e nos períodos de produção acelerada freia as suas exigências. A economista Clara Mattei mostra que, na Grã-Bretanha depois de 1918, o desemprego alto serviu para suprimir a ameaça que as reivindicações dos trabalhadores representavam para o capitalismo. (Marx, O capital, livro I, cap. 23, seção 3, §§ 4 e 20; Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 20)

Reforma ou superação

Para Marx, como se viu, a reserva de desempregados é uma condição de existência do modo de produção capitalista. Kalecki formula a questão como uma condição, e para ele o capitalismo que conseguisse se ajustar ao pleno emprego teria incorporado uma reforma fundamental, com novas instituições que refletiriam o aumento do poder da classe trabalhadora, e se não conseguisse se mostraria um sistema ultrapassado, que deve ser superado. Kalecki defendia que os progressistas rejeitassem o ciclo político dos gastos, porque ele não garante o pleno emprego duradouro, e que o gasto para manter o pleno emprego fosse usado também para subsidiar o consumo, com abonos às famílias e aposentadorias. (Marx, O capital, livro I, cap. 23, seção 3, § 4; Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 32 e 33)

O pleno emprego no Brasil

A Constituição de 1988 inclui a busca do pleno emprego entre os princípios da ordem econômica, e a Lei Complementar nº 179, de 2021, põe o fomento ao pleno emprego entre os objetivos secundários do Banco Central, abaixo da estabilidade de preços. Segundo o IBGE, a taxa de desocupação foi de 14,9% no terceiro trimestre de 2020 e de 5,4% no segundo trimestre de 2026, quando a taxa composta de subutilização da força de trabalho, uma medida mais ampla do IBGE, era de 12,9%. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 170, VIII; Congresso Nacional, Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, art. 1º; IBGE, PNAD Contínua, tabela 4099 do SIDRA, tabela 4099)

No Brasil

Pleno emprego no Brasil

A taxa de desocupação medida pelo IBGE caiu de 14,9% no terceiro trimestre de 2020 para 5,4% no segundo trimestre de 2026. (IBGE, PNAD Contínua, tabela 4099 do SIDRA, tabela 4099, 3º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2026; Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Onde ler: §§ 1, 2, 5, 8, 10, 16, 18, 19, 21, 32 e 33.

    “Mas “disciplina nas fábricas” e “estabilidade política” são mais apreciadas do que os lucros pelos líderes empresariais. Seu instinto de classe diz-lhes que o pleno emprego duradouro não é saudável do seu ponto de vista, e que o desemprego é parte integrante do sistema capitalista “normal”.”

    § 16

    Ler grátis: Aspectos políticos do pleno emprego ↗Ficha da obra: Aspectos políticos do pleno emprego

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (17)
  • FatoA Constituição de 1988 inclui a busca do pleno emprego entre os princípios da ordem econômica.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 170, VIII
  • Interpretação · Michał KaleckiSe o governo realiza investimentos públicos, como escolas, hospitais e rodovias, ou subsidia o consumo de massa, e financia essas despesas por empréstimo, a demanda efetiva pode aumentar até o pleno emprego.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 2
  • Interpretação · Michał KaleckiSob pleno emprego permanente, as demissões perderiam o papel de medida disciplinar, a posição social do chefe seria minada e a autoconfiança e a consciência de classe dos trabalhadores cresceriam; os lucros seriam maiores, mas a disciplina nas fábricas e a estabilidade política são mais apreciadas do que os lucros pelos líderes empresariais, cujo instinto de classe lhes diz que o desemprego é parte integrante do sistema capitalista normal.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16
  • Interpretação · Michał KaleckiSob o fascismo, a aversão aos gastos do governo é superada porque a máquina estatal está sob o controle direto da parceria entre grandes empresas e fascismo, e a disciplina nas fábricas é mantida por uma ordem que vai da supressão dos sindicatos aos campos de concentração; uma das funções do fascismo foi remover as objeções capitalistas ao pleno emprego.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 17, 18 e 19
  • Interpretação · Michał KaleckiO sistema fascista começa com a superação do desemprego, desenvolve-se numa economia de armamento e termina inevitavelmente em guerra.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 21
  • Interpretação · Michał KaleckiSe mão de obra, fábricas e matérias-primas estão em ampla oferta, o aumento da demanda é atendido pelo aumento da produção, e os preços só sobem se a demanda continuar crescendo depois de atingido o pleno emprego; por isso, a intervenção que busca o pleno emprego sem ir além dele não precisa temer a inflação.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 5
  • FatoA Lei Complementar nº 179, de 2021, fixa como objetivo fundamental do Banco Central a estabilidade de preços e, sem prejuízo dele, inclui entre os seus objetivos fomentar o pleno emprego.Congresso Nacional, Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, art. 1º, parágrafo único
  • Interpretação · Michał KaleckiA maioria dos economistas pensa que, mesmo num sistema capitalista, o pleno emprego pode ser assegurado por um programa de gastos governamentais, desde que haja um plano adequado para empregar toda a força de trabalho.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 1
  • Interpretação · Karl MarxQuando a acumulação afrouxa por causa da subida do preço do trabalho, porque o estímulo ao ganho se embota, desaparece a desproporção entre capital e força de trabalho explorável, e o preço do trabalho cai de novo a um nível que corresponde às necessidades de valorização do capital; a grandeza da acumulação é a variável independente, e a do salário, a dependente.Marx, O capital, livro I, cap. 23, seção 1, § 15
  • Interpretação · Karl MarxA sobrepopulação operária é produto necessário da acumulação e torna-se alavanca da acumulação capitalista e condição de existência do modo de produção capitalista, formando um exército industrial de reserva disponível.Marx, O capital, livro I, cap. 23, seção 3, § 4
  • Interpretação · Karl MarxDurante os períodos de estagnação e de prosperidade média, o exército industrial de reserva pressiona o exército operário ativo, e durante o período de sobreprodução e paroxismo refreia as suas exigências.Marx, O capital, livro I, cap. 23, seção 3, § 20
  • Interpretação · Clara E. MatteiO alto desemprego britânico do pós-guerra funcionou para suprimir a ameaça ao capitalismo representada pelas reivindicações dos trabalhadores.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 20
  • Interpretação · Michał KaleckiHá uma base política na oposição à doutrina do pleno emprego, embora os argumentos avançados sejam econômicos.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 8
  • Interpretação · Michał KaleckiUm progressista deve se opor ao regime do ciclo político dos negócios porque ele não garante o pleno emprego duradouro e porque vincula a intervenção do governo ao investimento público, sem abraçar o subsídio ao consumo por abonos às famílias, aposentadorias e redução da tributação indireta.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 32
  • Interpretação · Michał KaleckiO capitalismo de pleno emprego terá de desenvolver novas instituições sociais e políticas que reflitam o aumento do poder da classe trabalhadora; se puder se ajustar ao pleno emprego, terá incorporado uma reforma fundamental, e se não puder, se mostrará um sistema ultrapassado que deve ser superado.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 33
  • FatoA taxa de desocupação foi de 14,9% no terceiro trimestre de 2020 e de 5,4% no segundo trimestre de 2026, quando a taxa composta de subutilização da força de trabalho era de 12,9%.IBGE, PNAD Contínua, tabela 4099 do SIDRA, tabela 4099, trimestres selecionados
  • Interpretação · Michał KaleckiA oposição dos líderes industriais ao pleno emprego obtido pelos gastos do governo se divide em três categorias, a aversão à interferência do governo no emprego, a aversão à direção dos gastos, que são o investimento público e o subsídio ao consumo, e a aversão às mudanças sociais e políticas resultantes da manutenção do pleno emprego.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 10

Fontes desta página

  1. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  3. MATTEI, Clara E.. A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2023.
  4. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  5. Congresso Nacional. Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021 (autonomia do Banco Central). planalto.gov.br, 24/02/2021. Abrir ↗
  6. IBGE. PNAD Contínua, tabela 4099 do SIDRA: taxa de desocupação e taxa composta de subutilização (trimestres selecionados de 2012 a 2026). apisidra.ibge.gov.br. Abrir ↗
  7. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 23, seção 1. Procura crescente de força de trabalho com a acumulação (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 23, seção 3. Progressiva produção de uma sobrepopulação relativa ou de um exército industrial de reserva (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Clara E. Mattei. Austeridade, antes e agora (livreto da Boitempo, fev. 2026, com o texto de A ordem do capital, pp. 24-39). blogdaboitempo.com.br, 01/02/2026. Abrir ↗