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Conceitos / Teoria e história do socialismo / Materialismo histórico

Classes sociais

Em poucas palavras

Para Lênin, classes são grandes grupos de pessoas que se distinguem pelo lugar na produção, pela relação com os meios de produção e pelo modo de obter a sua parte da riqueza. Uma classe pode se apropriar do trabalho da outra. Marx e Engels mostraram que os indivíduos só formam uma classe por inteiro quando travam uma luta comum contra outra classe.

Eixo e tema
Teoria e história do socialismo · Materialismo histórico
Obra principal
Uma grande iniciativa, de Vladímir Ilitch Lênin

Explicação

A definição de Lênin

Em Uma grande iniciativa, de 1919, Lênin definiu as classes como grandes grupos de pessoas que se diferenciam pelo lugar que ocupam num sistema de produção social historicamente determinado. Esses grupos se distinguem pela relação com os meios de produção, quase sempre fixada nas leis, pelo papel na organização social do trabalho e, por consequência, pelo modo de obter a sua parte da riqueza social e pelo tamanho dessa parte. Para Lênin, as classes são grupos em que um pode se apropriar do trabalho do outro, graças ao lugar diferente que ocupa num regime determinado de economia social. (Lênin, Uma grande iniciativa, § 58)

Marx deixou inacabado o capítulo sobre as classes no livro III de O capital. Ali ele diz que os donos apenas da força de trabalho, os donos do capital e os donos da terra, que vivem respectivamente de salário, lucro e renda da terra, formam as três grandes classes da sociedade capitalista, e reconhece que camadas médias e intermediárias apagam as linhas de separação até na Inglaterra. Ao perguntar o que forma uma classe, Marx observa que a fonte comum de renda não basta, porque então médicos e funcionários públicos também seriam classes, e o manuscrito para nesse ponto. (Marx, O capital, cap. 52, §§ 1 a 6)

A classe se forma na luta

Em A ideologia alemã, Marx e Engels afirmam que os indivíduos isolados só formam uma classe na medida em que têm de travar uma luta comum contra outra classe. Fora disso, dizem os autores, eles se enfrentam como concorrentes. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte IV, seção 6, § 5)

Na Miséria da filosofia, de 1847, Marx descreve como a dominação do capital criou para a massa dos trabalhadores uma situação comum e interesses comuns, e por isso essa massa já é uma classe diante do capital. Na luta, a massa se reúne, se constitui em classe, e os interesses que defende se tornam interesses de classe. Marx conclui que a luta de classe contra classe é uma luta política. (Marx, Miséria da filosofia, cap. II, § 5, 27º e 28º parágrafos)

No 18 de brumário de Luís Bonaparte, de 1852, Marx analisa os pequenos camponeses franceses, que viviam em condições parecidas, mas isolados uns dos outros pelo seu modo de produção. Segundo ele, esses milhões de famílias formam uma classe porque as suas condições econômicas separam o seu modo de vida, os seus interesses e a sua cultura dos das outras classes. Mas, na medida em que os seus interesses não criam entre eles comunidade, ligação nacional nem organização política, eles não formam uma classe e por isso não podem representar a si mesmos e precisam ser representados. (Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, cap. VII, § 15)

Classe como relação

Marcelo Badaró Mattos lembra que o historiador Edward Thompson definiu a classe como processo e relação, e não como uma categoria parada. Na leitura de Mattos, para Thompson a classe passa a existir quando pessoas, a partir de experiências comuns, sentem e dizem que têm interesses em comum e opostos aos de outras pessoas. A experiência de classe é determinada, em grande parte, pelas relações de produção em que as pessoas nascem ou entram sem querer. (Mattos, La formación de la clase obrera en Inglaterra, pp. 17 e 18)

A classe trabalhadora hoje

Ricardo Antunes e Giovanni Alves chamam de classe-que-vive-do-trabalho o conjunto dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e não possuem meios de produção. Ficam de fora, segundo eles, os gestores que exercem o controle e o mando do capital, os pequenos empresários donos dos seus meios de produção e quem vive de juros e de especulação. (Antunes e Alves, As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital, pp. 336, 342 e 343)

Armando Boito, num estudo de 2002 sobre o Brasil, sustenta que a política econômica expressa interesses de classes e de frações de classe e, ao mesmo tempo, modifica a composição e o poder dessas classes. Para ele, a alta classe média, formada por assalariados abastados e profissionais liberais, aderiu ao neoliberalismo porque se opunha à universalização dos direitos sociais. (Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, pp. 13, 26 e 27)

Um exemplo brasileiro

No segundo trimestre de 2026, a PNAD Contínua do IBGE contou 103,1 milhões de pessoas ocupadas no Brasil. Delas, 53,0 milhões eram empregados do setor privado, sendo 13,6 milhões sem carteira assinada, 5,4 milhões eram trabalhadores domésticos e 13,0 milhões eram empregados do setor público. Havia ainda 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria, 4,3 milhões de empregadores e 1,2 milhão de trabalhadores familiares auxiliares. (IBGE, PNAD Contínua, tabela 4097 do SIDRA, tabela 4097, 2º trimestre de 2026)

No Brasil

Classes sociais no Brasil

No 2º trimestre de 2026, o IBGE contou 103,1 milhões de ocupados, entre eles 53,0 milhões de empregados do setor privado, 26,1 milhões por conta própria e 4,3 milhões de empregadores. Lênin distingue as classes pela relação com os meios de produção. (IBGE, PNAD Contínua, tabela 4097 do SIDRA, tabela 4097, 2º trimestre de 2026; Lênin, Uma grande iniciativa, § 58)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. Uma grande iniciativa. 1919. Onde ler: § 58.

    “Chama-se classes a grandes grupos de pessoas que se diferenciam entre si pelo seu lugar num sistema de produção social historicamente determinado, pela sua relação (as mais das vezes fixada e formulada nas leis) com os meios de produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e, consequentemente, pelo modo de obtenção e pelas dimensões da parte da riqueza social de que dispõem.”

    § 58

    Ler grátis: Uma grande iniciativa ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (15)
  • Interpretação · Ricardo Antunes e Giovanni AlvesA classe trabalhadora hoje compreende a totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e são despossuídos dos meios de produção, a classe-que-vive-do-trabalho.Antunes e Alves, As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital, p. 336
  • Interpretação · Ricardo Antunes e Giovanni AlvesEstão excluídos da classe-que-vive-do-trabalho os gestores do capital, pelo papel que exercem no controle, na gestão e no mando do capital, os pequenos empresários e a pequena burguesia proprietária dos meios da sua produção, e aqueles que vivem de juros e da especulação.Antunes e Alves, As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital, pp. 342 e 343
  • Interpretação · Armando Boito Jr.A alta classe média, que corresponde a um setor abastado dos trabalhadores assalariados e dos profissionais liberais, aderiu ao neoliberalismo porque é contra a universalização dos direitos sociais.Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, pp. 26 e 27
  • Interpretação · Armando Boito Jr.A política econômica e social expressa interesses de classe e de frações de classe numa dada correlação de forças e interfere, numa ação de retorno, sobre a composição, o poder e os interesses das classes sociais.Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, p. 13
  • Interpretação · Karl MarxNa medida em que milhões de famílias camponesas vivem em condições econômicas que separam o seu modo de vida, os seus interesses e a sua cultura dos das outras classes, elas constituem uma classe; na medida em que entre elas existe apenas uma ligação local e a similitude de interesses não cria comunidade, ligação nacional nem organização política, não constituem uma classe, não podem representar-se e têm de ser representadas.Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, cap. VII, § 15
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsOs indivíduos isolados só formam uma classe na medida em que têm de travar uma luta comum contra outra classe; de resto, contrapõem-se hostilmente uns aos outros, em concorrência.Marx e Engels, A ideologia alemã, parte IV, seção 6, § 5
  • Interpretação · Karl MarxMesmo na Inglaterra, onde a sociedade moderna está mais desenvolvida na sua estrutura econômica, a estratificação das classes não aparece na forma pura, e camadas médias e intermediárias apagam as linhas de demarcação.Marx, O capital, cap. 52, § 2
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninClasses são grandes grupos de pessoas que se diferenciam pelo seu lugar num sistema de produção social historicamente determinado, pela sua relação, as mais das vezes fixada nas leis, com os meios de produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e, consequentemente, pelo modo de obtenção e pelas dimensões da parte da riqueza social de que dispõem; as classes são grupos de pessoas, um dos quais pode apropriar-se do trabalho do outro graças ao lugar diferente que ocupa num regime determinado de economia social.Lênin, Uma grande iniciativa, § 58
  • Interpretação · Marcelo Badaró MattosThompson sistematizou, no prefácio de A formação da classe operária inglesa, a definição de classe como processo e relação, e não como categoria estática; para ele, a classe passa a existir quando algumas pessoas, como resultado de experiências comuns, sentem e articulam a identidade dos seus interesses, comuns entre elas e opostos aos de outras, e a experiência de classe é determinada em grande parte pelas relações de produção em que as pessoas nascem ou entram involuntariamente.Mattos, La formación de la clase obrera en Inglaterra, pp. 17 e 18
  • Interpretação · Karl MarxA dominação do capital criou para a massa dos trabalhadores uma situação comum e interesses comuns, e essa massa já é uma classe diante do capital; na luta, ela se reúne e se constitui em classe, os interesses que defende tornam-se interesses de classe, e a luta de classe contra classe é uma luta política.Marx, Miséria da filosofia, cap. II, § 5, 27º e 28º parágrafos
  • Interpretação · Karl MarxÀ pergunta sobre o que constitui uma classe, a primeira resposta é a identidade das rendas e das suas fontes, mas por esse critério médicos e funcionários também formariam duas classes, assim como a fragmentação infinita de interesses que a divisão do trabalho cria, e nesse ponto o manuscrito se interrompe.Marx, O capital, cap. 52, §§ 3 a 6
  • FatoNo segundo trimestre de 2026, eram empregados no setor privado, exceto domésticos, 52.987 mil pessoas, das quais 39.419 mil com carteira assinada e 13.568 mil sem carteira; trabalhadores domésticos eram 5.410 mil, e empregados no setor público, 13.018 mil.IBGE, PNAD Contínua, tabela 4097 do SIDRA, tabela 4097, 2º trimestre de 2026
  • FatoNo segundo trimestre de 2026, havia 26.093 mil trabalhadores por conta própria, 4.309 mil empregadores e 1.240 mil trabalhadores familiares auxiliares.IBGE, PNAD Contínua, tabela 4097 do SIDRA, tabela 4097, 2º trimestre de 2026
  • FatoNo segundo trimestre de 2026, havia no Brasil 103.057 mil pessoas de 14 anos ou mais ocupadas na semana de referência.IBGE, PNAD Contínua, tabela 4097 do SIDRA, tabela 4097, 2º trimestre de 2026, total
  • Interpretação · Karl MarxOs donos apenas da força de trabalho, os donos do capital e os donos da terra, cujas fontes de renda são o salário, o lucro e a renda da terra, isto é, os assalariados, os capitalistas e os proprietários de terra, constituem as três grandes classes da sociedade moderna baseada no modo de produção capitalista.Marx, O capital, cap. 52, § 1

Fontes desta página

  1. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Uma grande iniciativa. 1919. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  3. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Trad. Álvaro Pina. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. I; capítulo I, Feuerbach), 1982. Abrir ↗
  4. MARX, Karl. Miséria da filosofia. Trad. Miguel Macedo. São Paulo: Editora Flama, 1946. Abrir ↗
  5. MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. 1852. Abrir ↗
  6. MATTOS, Marcelo Badaró. La formación de la clase obrera en Inglaterra: materialismo histórico e intervención política. Cidade do México: Trashumante: Revista Americana de Historia Social, n. 4, pp. 8-25, 2014. Abrir ↗
  7. ANTUNES, Ricardo; ALVES, Giovanni. As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital. Campinas: Educação & Sociedade, v. 25, n. 87, pp. 335-351, 2004. Abrir ↗
  8. BOITO JR., Armando. Neoliberalismo e relações de classe no Brasil. Campinas: Idéias (IFCH-Unicamp), v. 9, n. 1, pp. 13-48, 2002. Abrir ↗
  9. IBGE. PNAD Contínua, tabela 4097 do SIDRA: pessoas de 14 anos ou mais ocupadas, por posição na ocupação e categoria do emprego no trabalho principal (2º trimestre de 2026). apisidra.ibge.gov.br. Abrir ↗
  10. Ricardo Antunes e Giovanni Alves. As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital (Educação & Sociedade, v. 25, n. 87, 2004). scielo.br. Abrir ↗
  11. Armando Boito Jr.. Neoliberalismo e relações de classe no Brasil (Idéias, v. 9, n. 1, 2002). periodicos.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  12. Karl Marx. O 18 brumário de Louis Bonaparte, cap. VII, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Karl Marx e Friedrich Engels. A ideologia alemã, capítulo I, Feuerbach (parte IV, seções 1 a 9), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 52. Classes, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Vladímir Ilitch Lênin. Uma grande iniciativa (1919, com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Marcelo Badaró Mattos. La formación de la clase obrera en Inglaterra: materialismo histórico e intervención política (Trashumante, n. 4, 2014). redalyc.org. Abrir ↗
  17. Karl Marx. Miséria da filosofia, cap. II, § 5. As greves e as coalizões dos operários, no MIA. marxists.org. Abrir ↗