Explicação
A tese do Manifesto
O Manifesto do Partido Comunista, de 1848, abre o seu primeiro capítulo afirmando que a história de toda a sociedade até então é a história de lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burguês de corporação e oficial, isto é, opressores e oprimidos, estiveram sempre em oposição e travaram uma luta ora oculta, ora aberta. Segundo Marx e Engels, cada uma dessas lutas terminou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a ruína comum das classes em luta. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, §§ 1 e 2)
Os autores dizem que a sociedade burguesa moderna, nascida do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes e apenas pôs novas classes e novas formas de opressão no lugar das antigas. A época da burguesia, segundo eles, simplificou essas oposições, porque a sociedade se divide cada vez mais em dois grandes campos inimigos, a burguesia e o proletariado. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, §§ 4 e 5)
O Manifesto explica que os operários às vezes vencem, mas só por pouco tempo, e que o resultado real das suas lutas é a união cada vez maior entre eles. Os meios de comunicação da grande indústria ligam os operários de lugares diferentes e juntam as muitas lutas locais numa luta nacional, numa luta de classes, e toda luta de classes é uma luta política. A organização dos proletários em classe e em partido político é rompida a todo momento pela concorrência entre os próprios operários, mas renasce sempre mais forte. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, §§ 39 e 40)
O que Marx disse ter descoberto
Numa carta de 1852 a Joseph Weydemeyer, Marx reconhece que historiadores e economistas burgueses já tinham descrito a existência das classes e a luta entre elas. Segundo ele, o que fez de novo foi demonstrar que a existência das classes está ligada a fases determinadas do desenvolvimento histórico da produção e que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado. Essa ditadura, acrescenta, é só a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes. (Marx, Carta a Joseph Weydemeyer, trecho único)
Lênin, num resumo de 1914 da obra de Marx, escreve que o marxismo achou na teoria da luta de classes o fio condutor que revela leis no aparente caos da história, feita de choques entre povos, revoluções, reações, guerras e períodos de paz. Para ele, as aspirações contraditórias que movem esses choques nascem da diferença de situação e de condições de vida das classes que formam cada sociedade. (Lênin, Karl Marx, seção A luta de classes, 1º e 2º parágrafos)
Luta econômica e luta política
Em 1913, Lênin retomou a frase de Marx de que toda luta de classes é uma luta política. Ele criticou os chamados economistas, que viam luta de classes na briga por um aumento de cinco copeques por rublo, mas recusavam a luta de classes mais desenvolvida, pelos objetivos políticos. Segundo Lênin, o marxismo só reconhece a luta de classes como inteiramente desenvolvida quando ela abrange a política e disputa nela o mais essencial, a organização do poder de Estado. (Lênin, Sobre o conceito liberal e marxista da luta de classes, §§ 22 e 23)
O mesmo texto explica que o liberalismo, quando o movimento operário ganha força, deixa de negar a luta de classes e passa a reduzir o seu conceito. Os liberais aceitam a luta de classes também na política, com a condição de que ela não chegue à organização do poder de Estado, e Lênin atribui essa deformação aos interesses de classe da burguesia. (Lênin, Sobre o conceito liberal e marxista da luta de classes, § 24)
Lutas no plural
Domenico Losurdo, numa entrevista de 2015, lembrou que Marx fala de lutas de classes sempre no plural. Além da luta entre burguesia e proletariado, Losurdo destaca a opressão da mulher, que Engels e também Marx apontaram como a primeira forma de luta de classes, e a luta anticolonial, que hoje persiste como embate econômico entre países que buscam autonomia. Para ele, no Brasil como na China, as três formas estão ativas ao mesmo tempo, e cada situação exige uma análise concreta. (Losurdo, A luta de classes explica o mundo, §§ 7 e 13)
Um exemplo brasileiro
Clóvis Moura escreveu que, dentro do modo de produção escravista, o escravo não tinha como se tornar cidadão pleno a não ser pela violência, porque as alforrias eram irrelevantes para deslocar as classes no poder. Ele chamou de quilombagem o processo contínuo de protesto que minou o escravismo a partir do seu centro, a produção, desde a implantação da escravidão no Brasil até a sua derrota com a chegada do trabalho livre. (Moura, A quilombagem como expressão de protesto radical, §§ 9 e 46)
A Constituição de 1988, nas suas disposições transitórias, reconheceu aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando as suas terras a propriedade definitiva delas. O mesmo artigo mandou o Estado emitir os títulos respectivos. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, ADCT, art. 68)