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Conceitos / Teoria e história do socialismo / Materialismo histórico

Materialismo histórico

Em poucas palavras

O materialismo histórico é o método de Marx e Engels que explica a história pela forma como as pessoas produzem a vida material. As relações de produção de cada época formam a base sobre a qual se erguem o Estado, o direito e as ideias. Engels advertiu que a economia determina a história só em última instância, sem anular o peso da política e das ideias.

Eixo e tema
Teoria e história do socialismo · Materialismo histórico
Obra principal
A ideologia alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels

Explicação

De onde parte o método

Em A ideologia alemã, escrita entre 1845 e 1846, Marx e Engels partem do fato de que as pessoas precisam conseguir viver antes de poder fazer história. Por isso, o primeiro ato histórico é a produção dos meios para comer, beber, morar e se vestir, uma tarefa que ainda hoje tem de ser repetida todo dia. Os dois autores observam que os seres humanos começam a se distinguir dos animais quando passam a produzir os seus meios de vida. (Marx e Engels, A ideologia alemã, ficha da edição; parte I, seção 2, § 3; parte II, seção 3, § 1)

Para eles, o modo de produção vai além da simples reprodução física das pessoas, porque já é uma forma determinada de elas exprimirem a sua vida. Aquilo que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais em que produzem. Por isso, o método parte das pessoas reais e do seu processo de vida, e não do que elas dizem ou imaginam de si mesmas, para explicar também as ideias, a moral e a religião. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte I, seção 2, § 5; parte I, seção 4, § 3)

O fio condutor de 1859

No prefácio de 1859 à Contribuição à crítica da economia política, Marx resumiu o resultado que serviu de fio condutor aos seus estudos. Na produção da vida, as pessoas entram em relações de produção que independem da sua vontade e que têm a sua expressão jurídica nas relações de propriedade. Essas relações correspondem a uma etapa das forças produtivas materiais, e o conjunto delas forma a estrutura econômica, a base sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política. (Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5)

Stálin, num texto de 1938, chamou de forças produtivas os instrumentos de produção e as pessoas que os manejam com a sua experiência e os seus hábitos de trabalho. Chamou de relações de produção as relações que as pessoas estabelecem entre si dentro da produção, que podem ser de colaboração entre gente livre de exploração ou de domínio e subordinação. (Stálin, Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico, seção 3 (O materialismo histórico), §§ 15 e 17)

Marx acrescenta que, numa certa etapa, as forças produtivas entram em contradição com as relações de produção existentes, que deixam de ajudar o desenvolvimento delas e passam a travá-lo. Começa então uma época de revolução social, em que a mudança da base econômica transforma, mais devagar ou mais depressa, toda a superestrutura. Nas grandes linhas, ele chama os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno de épocas progressivas da formação econômica da sociedade. (Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5)

O que a teoria explica

Lênin, num resumo de 1914 da obra de Marx, diz que o materialismo, aplicado à vida social, exige explicar a consciência social pelo ser social. Segundo ele, essa concepção corrigiu dois defeitos das teorias anteriores, que olhavam só os motivos ideológicos da ação histórica sem procurar a raiz deles na produção material e deixavam de lado a ação das massas. (Lênin, Karl Marx, seção A concepção materialista da história, 3º e 8º parágrafos)

Stálin escreveu que a história da sociedade é também a história das massas trabalhadoras que produzem os bens materiais. Para ele, a chave das leis da história está no modo de produção de cada período, isto é, na economia da sociedade, e a história conhece cinco tipos fundamentais de relações de produção, o comunismo primitivo, a escravidão, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo. (Stálin, Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico, seção 3 (O materialismo histórico), §§ 24, 26 e 38)

Última instância e determinismo

Em 1890, Engels respondeu numa carta a quem lia a teoria como determinismo econômico, a ideia de que a economia explica sozinha cada fato da história. Segundo ele, o momento determinante em última instância é a produção e a reprodução da vida real, e dizer que o fator econômico é o único determinante transforma essa tese numa frase vazia e absurda. As formas políticas da luta de classes, as constituições, o direito e as ideias também influem nas lutas históricas e, em muitos casos, decidem a forma que elas tomam. (Engels, Carta a Joseph Bloch, §§ 1 e 2)

Na mesma carta, Engels reconhece que ele e Marx tiveram parte da culpa por alguns jovens darem ao lado econômico mais peso do que ele tem. Os dois precisavam acentuar esse princípio contra adversários que o negavam, e nem sempre tinham espaço para tratar dos outros fatores que agem uns sobre os outros. (Engels, Carta a Joseph Bloch, § 5)

Um exemplo brasileiro

A Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão no Brasil. O historiador marxista Jacob Gorender sustenta que o capitalismo brasileiro se formou diretamente a partir do escravismo colonial, e não de um feudalismo, como na Europa. Para ele, o modo de produção capitalista despontou no país na segunda metade do século XIX, com núcleos industriais de operários assalariados, mas depois da Abolição prevaleceu um latifúndio pré-capitalista, e o capitalismo continuou subordinado por um tempo. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º; Gorender, O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica, §§ 54 e 58)

Nesta explicação

No Brasil

Materialismo histórico no Brasil

A Lei Áurea, de 1888, extinguiu a escravidão. Para Jacob Gorender, o capitalismo brasileiro nasceu diretamente do escravismo colonial, e não de um feudalismo, e ficou subordinado ao latifúndio pré-capitalista depois da Abolição. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º; Gorender, O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica, §§ 54 e 58)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Trad. Álvaro Pina. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. I; capítulo I, Feuerbach), 1982. Onde ler: parte I, seções 2 e 4; parte II, seção 3.

    “Não têm história, não têm desenvolvimento, são os homens que desenvolvem a sua produção material e o seu intercâmbio material que, ao mudarem esta sua realidade, mudam também o seu pensamento e os produtos do seu pensamento. Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência.”

    parte I, seção 4, § 3

    Ler grátis: A ideologia alemã ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (23)

Fontes desta página

  1. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Trad. Álvaro Pina. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. I; capítulo I, Feuerbach), 1982. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos; prefácio), 1982. Abrir ↗
  3. STÁLIN, Josef. Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico. 1938. Abrir ↗
  4. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  5. ENGELS, Friedrich. Carta a Joseph Bloch (21 e 22 de setembro de 1890). Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. III, pp. 547-549), 1982. Abrir ↗
  6. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea). planalto.gov.br, 13/05/1888. Abrir ↗
  7. GORENDER, Jacob. O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica. 1978. Abrir ↗
  8. Karl Marx. Para a crítica da economia política, prefácio (1859, com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Friedrich Engels. Carta a Joseph Bloch, 21 e 22 de setembro de 1890 (com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx e Friedrich Engels. A ideologia alemã, capítulo I, Feuerbach (parte I, seções 1 a 4, e parte II, seções 1 a 3), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Jacob Gorender. O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica (exposição de 19 de outubro de 1978), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx e Friedrich Engels. A ideologia alemã, capítulo I, Feuerbach (índice e ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Josef Stálin. Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico (1938; Edições Horizonte, 1945), no MIA. marxists.org. Abrir ↗