Explicação
Os socialistas utópicos
No Manifesto do Partido Comunista, de 1848, Marx e Engels tratam dos sistemas de Saint-Simon, Fourier e Owen, que surgiram quando a luta entre proletariado e burguesia ainda estava pouco desenvolvida. Como não encontravam as condições materiais da libertação do proletariado, esses autores procuravam uma ciência social e leis sociais para criá-las. Marx e Engels reconhecem que eles foram revolucionários em muitos aspectos, mas observam que os seus discípulos formaram seitas que sonhavam realizar as utopias em falanstérios isolados e pequenas colônias, com o apoio da filantropia burguesa. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 3, seção 3, §§ 3, 5 e 12)
Em Do socialismo utópico ao socialismo científico, de 1880, Engels explica que a teorias cruas corresponderam condições cruas da produção capitalista e das classes. Os utópicos tentavam tirar da própria cabeça a solução dos problemas sociais e impor à sociedade, de fora, um sistema social mais perfeito, pela propaganda e pelo exemplo de experiências modelo. Para eles, o socialismo era a expressão da verdade e da justiça absolutas, que bastaria ser descoberta para conquistar o mundo. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte I, §§ 12 e 36)
Da utopia à ciência
Engels resume a mudança numa frase, a de que, para fazer do socialismo uma ciência, era preciso primeiro colocá-lo sobre uma base real. Essa base, segundo ele, veio de um novo exame da história, que mostrou que toda a história, fora os estágios primitivos, foi a história de lutas de classes, e que a estrutura econômica de cada sociedade é a base que explica as instituições jurídicas e políticas e as ideias religiosas e filosóficas de cada época. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte I, § 37, e parte II, parágrafo 'The new facts made imperative…')
Para Engels, o socialismo se tornou ciência com duas descobertas de Marx, a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista pela mais-valia, isto é, o valor que o capitalista extrai da força de trabalho além do que pagou por ela. A partir delas, escreve Engels, a tarefa passou a ser estudar todos os detalhes e relações do sistema. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte II, parágrafo 'It was shown that…', e parte II, parágrafo 'These two great discoveries…')
Em As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, de 1913, Lênin escreve que o marxismo é o sucessor legítimo da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês. Segundo ele, o primeiro socialismo foi utópico, porque criticava o capitalismo e sonhava com um regime melhor, mas não sabia explicar a escravidão assalariada, descobrir as leis do seu desenvolvimento nem encontrar a força social capaz de criar a nova sociedade. As revoluções que derrubaram o feudalismo na Europa mostraram, para Lênin, que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento. (Lênin, As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, §§ 3 e 21 a 23)
Lênin também afasta a ideia de que científico queira dizer neutro. Para ele, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social imparcial, e a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada. A tarefa que ele tira dessa análise é encontrar na própria sociedade, educar e organizar para a luta as forças capazes de varrer o velho e criar o novo. (Lênin, As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, §§ 1 e 26)
A teoria e o movimento operário
Em Que fazer?, de 1902, Lênin lembra que a doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por intelectuais vindos das classes proprietárias. Os próprios fundadores do socialismo científico, Marx e Engels, pertenciam pela sua situação social à intelectualidade burguesa, e por isso, para Lênin, essa teoria precisa ser levada ao movimento operário. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea a, § 2)
Um exemplo brasileiro
Astrojildo Pereira escreve que o anarquismo, sobretudo na forma anarcossindicalista, predominou no movimento operário brasileiro de 1906 a 1920. O Partido Comunista do Brasil foi fundado em 25 de março de 1922, segundo a data registrada por Octávio Brandão. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 5; Brandão, Agrarismo e industrialismo, p. 120)
Brandão, num artigo de 1957, conta que desde 1922 o partido fez pela primeira vez no Brasil a propaganda das ideias de Marx, Engels e Lênin sobre a luta de classes, a missão histórica do proletariado e o papel do Estado, nos sindicatos e na porta das fábricas. Segundo ele, o partido publicou em 1923 e 1924 a primeira edição em português do Manifesto e travou uma luta contra o anarquismo, que perdeu as suas ligações com as massas e ficou reduzido a seitas. (Brandão, Uma etapa da história de lutas, pp. 190 e 191)