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Conceitos / Teoria e história do socialismo / Materialismo histórico

Socialismo científico

Em poucas palavras

Engels chamou de socialismo científico a teoria que, ao contrário dos socialistas utópicos, buscou na história da luta de classes e na economia capitalista a base real do socialismo. Para ele, duas descobertas de Marx, a concepção materialista da história e a mais-valia, fizeram do socialismo uma ciência. Lênin apontou como fontes a filosofia alemã, a economia inglesa e o socialismo francês.

Eixo e tema
Teoria e história do socialismo · Materialismo histórico
Obra principal
Do socialismo utópico ao socialismo científico, de Friedrich Engels

Explicação

Os socialistas utópicos

No Manifesto do Partido Comunista, de 1848, Marx e Engels tratam dos sistemas de Saint-Simon, Fourier e Owen, que surgiram quando a luta entre proletariado e burguesia ainda estava pouco desenvolvida. Como não encontravam as condições materiais da libertação do proletariado, esses autores procuravam uma ciência social e leis sociais para criá-las. Marx e Engels reconhecem que eles foram revolucionários em muitos aspectos, mas observam que os seus discípulos formaram seitas que sonhavam realizar as utopias em falanstérios isolados e pequenas colônias, com o apoio da filantropia burguesa. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 3, seção 3, §§ 3, 5 e 12)

Em Do socialismo utópico ao socialismo científico, de 1880, Engels explica que a teorias cruas corresponderam condições cruas da produção capitalista e das classes. Os utópicos tentavam tirar da própria cabeça a solução dos problemas sociais e impor à sociedade, de fora, um sistema social mais perfeito, pela propaganda e pelo exemplo de experiências modelo. Para eles, o socialismo era a expressão da verdade e da justiça absolutas, que bastaria ser descoberta para conquistar o mundo. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte I, §§ 12 e 36)

Da utopia à ciência

Engels resume a mudança numa frase, a de que, para fazer do socialismo uma ciência, era preciso primeiro colocá-lo sobre uma base real. Essa base, segundo ele, veio de um novo exame da história, que mostrou que toda a história, fora os estágios primitivos, foi a história de lutas de classes, e que a estrutura econômica de cada sociedade é a base que explica as instituições jurídicas e políticas e as ideias religiosas e filosóficas de cada época. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte I, § 37, e parte II, parágrafo 'The new facts made imperative…')

Para Engels, o socialismo se tornou ciência com duas descobertas de Marx, a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista pela mais-valia, isto é, o valor que o capitalista extrai da força de trabalho além do que pagou por ela. A partir delas, escreve Engels, a tarefa passou a ser estudar todos os detalhes e relações do sistema. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte II, parágrafo 'It was shown that…', e parte II, parágrafo 'These two great discoveries…')

Em As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, de 1913, Lênin escreve que o marxismo é o sucessor legítimo da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês. Segundo ele, o primeiro socialismo foi utópico, porque criticava o capitalismo e sonhava com um regime melhor, mas não sabia explicar a escravidão assalariada, descobrir as leis do seu desenvolvimento nem encontrar a força social capaz de criar a nova sociedade. As revoluções que derrubaram o feudalismo na Europa mostraram, para Lênin, que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento. (Lênin, As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, §§ 3 e 21 a 23)

Lênin também afasta a ideia de que científico queira dizer neutro. Para ele, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social imparcial, e a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada. A tarefa que ele tira dessa análise é encontrar na própria sociedade, educar e organizar para a luta as forças capazes de varrer o velho e criar o novo. (Lênin, As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, §§ 1 e 26)

A teoria e o movimento operário

Em Que fazer?, de 1902, Lênin lembra que a doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por intelectuais vindos das classes proprietárias. Os próprios fundadores do socialismo científico, Marx e Engels, pertenciam pela sua situação social à intelectualidade burguesa, e por isso, para Lênin, essa teoria precisa ser levada ao movimento operário. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea a, § 2)

Um exemplo brasileiro

Astrojildo Pereira escreve que o anarquismo, sobretudo na forma anarcossindicalista, predominou no movimento operário brasileiro de 1906 a 1920. O Partido Comunista do Brasil foi fundado em 25 de março de 1922, segundo a data registrada por Octávio Brandão. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 5; Brandão, Agrarismo e industrialismo, p. 120)

Brandão, num artigo de 1957, conta que desde 1922 o partido fez pela primeira vez no Brasil a propaganda das ideias de Marx, Engels e Lênin sobre a luta de classes, a missão histórica do proletariado e o papel do Estado, nos sindicatos e na porta das fábricas. Segundo ele, o partido publicou em 1923 e 1924 a primeira edição em português do Manifesto e travou uma luta contra o anarquismo, que perdeu as suas ligações com as massas e ficou reduzido a seitas. (Brandão, Uma etapa da história de lutas, pp. 190 e 191)

No Brasil

Socialismo científico no Brasil

Para Astrojildo Pereira, o anarquismo predominou no movimento operário brasileiro de 1906 a 1920. Segundo Octávio Brandão, o Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922, divulgou pela primeira vez no país as ideias de Marx, Engels e Lênin e publicou em 1923 e 1924 a primeira edição em português do Manifesto. (Octávio Brandão, Agrarismo e industrialismo, p. 120; Brandão, Uma etapa da história de lutas, pp. 190 e 191)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)

Fontes desta página

  1. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. José Barata-Moura. Lisboa: Editorial Avante!, 1997. Abrir ↗
  2. ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Trad. Edward Aveling. Moscou: Progress Publishers (Marx/Engels Selected Works, v. 3, pp. 95-151), 1970. Abrir ↗
  3. LÊNIN, Vladímir Ilitch. As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo. 1913. Abrir ↗
  4. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. 1902. Abrir ↗
  5. PEREIRA, Astrojildo. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil. 1952. Abrir ↗
  6. BRANDÃO, Octávio. Agrarismo e industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil, 1924. São Paulo: Anita Garibaldi, 2006. Abrir ↗
  7. BRANDÃO, Octávio. Uma etapa da história de lutas. São Paulo: Anita Garibaldi (anexo de Agrarismo e industrialismo, 2. ed., a partir da p. 189), 2006. Abrir ↗
  8. Octávio Brandão. Agrarismo e industrialismo (PDF da 2. ed., Anita Garibaldi, 2006). marxists.org. Abrir ↗
  9. Astrojildo Pereira. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil (Problemas, n. 39, mar.-abr. 1952). marxists.org. Abrir ↗
  10. Friedrich Engels. Socialism: Utopian and Scientific, part I, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Friedrich Engels. Socialism: Utopian and Scientific (índice, fonte e tradutor da edição inglesa), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Friedrich Engels. Socialism: Utopian and Scientific, part II, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Vladímir Ilitch Lênin. As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo (1913, com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. III. Literatura socialista e comunista, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Vladímir Ilitch Lênin. Que fazer?, cap. II. A espontaneidade das massas e a consciência da social-democracia, no MIA. marxists.org. Abrir ↗