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Estudos / História do Brasil / Nova República / Fernando Henrique Cardoso

Retrato oficial de Fernando Henrique Cardoso
Foto: Agência Brasil, 1999. CC BY 3.0 br. Wikimedia Commons ↗

Nova RepúblicaPSDBViés: neoliberal

Fernando Henrique Cardoso

Governou de 01/01/1995 a 01/01/1999 e de 01/01/1999 a 01/01/2003

Sociólogo e ministro da Fazenda no Plano Real, foi eleito em 1994 e reeleito em 1998, sempre no primeiro turno. No governo dele, emendas à Constituição abriram o petróleo e as telecomunicações, a Vale e a Telebrás foram privatizadas, e vieram a reeleição, a Lei de Responsabilidade Fiscal e acordos com o FMI. Para Armando Boito, a política do período priorizou os grandes bancos e o capital financeiro internacional.

Partido
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB)
Como chegou
eleito no primeiro turno em 3 de outubro de 1994, com 54,3% dos votos válidos, pela coligação PSDB, PFL e PTB; reeleito no primeiro turno em 4 de outubro de 1998, com 53,06%, depois da emenda da reeleição
Como saiu
terminou o segundo mandato em 1º de janeiro de 2003 e passou o cargo a Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2002
Nascimento
Rio de Janeiro (RJ), 1931
Antes da presidência
sociólogo; professor da USP aposentado pelo AI-5 (1969), fundador do Cebrap, senador por São Paulo (assumiu em 1983 e foi reeleito em 1986), fundador do PSDB (1988), ministro das Relações Exteriores (1992-1993) e da Fazenda (1993-1994)

O governo em datas

Fernando Henrique Cardoso, 1995–2003

  1. 01/01/1995Fernando Henrique toma posse.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  2. 15/08/1995Emendas nº 6 e nº 8 mudam a ordem econômica e as telecomunicações.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 8, de 15 de agosto de 1995
  3. 09/11/1995Emenda nº 9 autoriza a contratação de empresas privadas no petróleo.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 9, de 9 de novembro de 1995
  4. 04/12/1995Lei nº 9.140 reconhece como mortos os desaparecidos políticos.Congresso Nacional, Lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995
  5. 04/06/1997Emenda nº 16 permite a reeleição.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 16, de 4 de junho de 1997
  6. 04/10/1998Fernando Henrique é reeleito no primeiro turno.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  7. 15/12/1998Emenda nº 20 muda a previdência social.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 20, de 15 de dezembro de 1998
  8. 04/05/2000Lei de Responsabilidade Fiscal.Congresso Nacional, Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000

O que o governo fez

Principais medidas

Para entender o governo

Do Cebrap ao PSDB

Fernando Henrique Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de junho de 1931, e era sociólogo. Depois do golpe de 1964, ele se exilou no Chile e trabalhou na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da ONU; de volta ao Brasil, foi aposentado da USP pelo AI-5, em 1969, e ajudou a fundar o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Com o chileno Enzo Faletto, escreveu o livro Dependência e desenvolvimento na América Latina. Suplente de senador pelo MDB, ele assumiu a vaga em 1983, fundou o PSDB em 1988 e foi chanceler e ministro da Fazenda de Itamar Franco. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55)

Duas vitórias no primeiro turno

Candidato pela coligação do PSDB com o PFL e o PTB, Fernando Henrique foi eleito no primeiro turno de 1994, com 54,3% dos votos válidos. A Emenda Constitucional nº 16, de junho de 1997, permitiu que o presidente, os governadores e os prefeitos fossem reeleitos para um único período seguinte. Com o PPB somado à mesma coligação, ele se reelegeu no primeiro turno, em 4 de outubro de 1998, com 53,06% dos votos. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 55-56; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 16, de 4 de junho de 1997, art. 1º)

Emendas e privatizações

Em 1995, a Emenda nº 6 revogou o artigo da Constituição que definia a empresa brasileira de capital nacional, a Emenda nº 8 abriu os serviços de telecomunicações à exploração por autorização, concessão ou permissão, e a Emenda nº 9 autorizou a União a contratar empresas estatais ou privadas para as atividades do monopólio do petróleo. A Lei nº 9.478, de 1997, criou a Agência Nacional do Petróleo e permitiu que essas atividades fossem exercidas por empresas, mediante concessão ou autorização. Em 1998, a Emenda nº 19 mudou as regras da administração pública e dos servidores, e a Emenda nº 20 mudou o sistema de previdência social. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 6, de 15 de agosto de 1995, art. 3º; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 8, de 15 de agosto de 1995, art. 1º; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 9, de 9 de novembro de 1995, art. 1º; Congresso Nacional, Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997, arts. 4º e 5º; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 19, de 4 de junho de 1998, ementa; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 20, de 15 de dezembro de 1998, ementa)

A Lei nº 9.491, de 1997, refez o Programa Nacional de Desestatização. A distribuição e a geração regional de energia elétrica foram privatizadas, o controle da Companhia Vale do Rio Doce passou, em maio de 1997, a um consórcio de bancos nacionais e estrangeiros e fundos de pensão, e a Telebrás e as empresas telefônicas estaduais foram vendidas na segunda metade de 1998. O Arquivo Nacional registra que a oposição questionava o valor atribuído às empresas e, no caso da Vale, o valor estratégico do setor. (Congresso Nacional, Lei nº 9.491, de 9 de setembro de 1997, art. 1º; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55)

Juros, crises e FMI

Segundo o Arquivo Nacional, os juros altos usados para defender o real reduziram o crescimento, e o desemprego chegou a 5,6% em 1997 e a 7,6% em 1998, pelos dados do IBGE. As crises do México, em dezembro de 1994, e da Rússia, em 1998, provocaram grande saída de divisas, e em 1998 o país assinou com o Fundo Monetário Internacional (FMI) um acordo que exigia um superávit fiscal elevado, isto é, receitas bem maiores que as despesas do governo. Em janeiro de 1999, o real foi desvalorizado, e o Banco Central deixou o dólar flutuar livremente. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 56-57)

A Lei de Responsabilidade Fiscal, de maio de 2000, fixou normas de finanças públicas para a gestão fiscal, com metas de resultado entre receitas e despesas e limites para os gastos com pessoal. Entre junho de 2001 e março de 2002, uma crise de energia levou ao racionamento de eletricidade, e em agosto de 2002 o país fechou um novo acordo de 30 bilhões de dólares com o FMI. O ano de 2002 terminou com inflação de dois dígitos e desemprego de 9,4%. (Congresso Nacional, Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000, art. 1º; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 57)

Terra, desaparecidos e desigualdade

A Lei nº 9.140, de dezembro de 1995, reconheceu como mortas as pessoas desaparecidas por participação, ou acusação de participação, em atividades políticas entre 1961 e 1979. No campo, as ocupações de terra do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se multiplicaram, e o Arquivo Nacional registra a morte de 19 integrantes do movimento em Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996, que descreve como confronto com a polícia. O mesmo registro cita programas como a Bolsa Escola e o Programa Saúde da Família e o relatório de 1999 das Nações Unidas que pôs o Brasil no topo da concentração de renda entre 174 países. (Congresso Nacional, Lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995, art. 1º; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 56-57)

Como os marxistas leram o governo

Armando Boito explica a política desse período com três círculos de interesses. O maior, o da desregulamentação do trabalho e do corte de direitos sociais, uniu toda a burguesia; o do meio, o das privatizações, favoreceu o grande capital monopolista e o capital estrangeiro, que arremataram empresas lucrativas a preço vil, pagando em boa parte com títulos públicos desvalorizados, as chamadas moedas podres, e com empréstimos do BNDES. O menor, o da abertura comercial e financeira e dos juros altos, atendeu plenamente só aos grandes bancos e ao capital financeiro internacional, e nos mandatos de Fernando Henrique a lucratividade dos bancos foi sempre maior que a da indústria. (Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, pp. 18-21)

Em 2003, Boito escreveu que Fernando Henrique combinou a crítica aos privilégios do funcionalismo com políticas sociais compensatórias e focalizadas, como as bolsas, e apresentou a vitória sobre a inflação como obra pessoal, quando a moeda estável atendia a uma necessidade do capital financeiro. Para ele, a reforma da previdência desse governo piorou a aposentadoria dos trabalhadores do setor privado. (Boito Jr., A hegemonia neoliberal no governo Lula, pp. 25-26 e 33)

Octavio Ianni escreveu, em 2000, que a partir de 1994 o governo se empenhou em completar a instalação de um capitalismo transnacionalizado, seguindo as diretrizes do Consenso de Washington, que ele identificava com o neoliberalismo. Para Ianni, a reforma do Estado significava desregulação, privatização, abertura de mercados e venda de empresas nacionais a transnacionais, e o Estado se convertia em aparelho administrativo dos blocos de poder transnacionais. (Ianni, O declínio do Brasil-nação, pp. 52 e 55)

Jacob Gorender viu em Fernando Henrique o candidato preparado pela cúpula da classe dominante, que manteve a tese da burguesia dependente e associada ao imperialismo e só trocou o sinal da avaliação. Florestan Fernandes disse, em dezembro de 1994, que o mais preocupante no novo governo era a aceitação integral da influência do FMI, do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que ele via como braço da política econômica dos Estados Unidos. (Gorender, Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94, seção "A fabricação do eleito", 9º e 17º parágrafos; Fernandes, Entrevista ao programa Roda Viva, § 6)

Nesta leitura

O que dizem os historiadores marxistas

Leitura de classe do governo

Regime
democracia liberal restrita
Bloco no poder
grande capital monopolista e capital imperialista, com prioridade aos grandes bancos e ao capital financeiro internacional (Boito, 2002, pp. 19-21)
Relação com o imperialismo
alinhamento
Relação com os trabalhadores
conciliação, concessão

Lutas de classes no governo

Para estudar este governo

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (45)

Fontes desta página

  1. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  2. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 16, de 4 de junho de 1997 (reeleição). planalto.gov.br, 04/06/1997. Abrir ↗
  3. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 6, de 15 de agosto de 1995. planalto.gov.br, 15/08/1995. Abrir ↗
  4. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 8, de 15 de agosto de 1995 (telecomunicações). planalto.gov.br, 15/08/1995. Abrir ↗
  5. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 9, de 9 de novembro de 1995 (petróleo). planalto.gov.br, 09/11/1995. Abrir ↗
  6. Congresso Nacional. Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997 (política energética e Agência Nacional do Petróleo). planalto.gov.br, 06/08/1997. Abrir ↗
  7. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 19, de 4 de junho de 1998 (reforma administrativa). planalto.gov.br, 04/06/1998. Abrir ↗
  8. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 20, de 15 de dezembro de 1998 (reforma da previdência). planalto.gov.br, 15/12/1998. Abrir ↗
  9. Congresso Nacional. Lei nº 9.491, de 9 de setembro de 1997 (Programa Nacional de Desestatização). planalto.gov.br, 09/09/1997. Abrir ↗
  10. Congresso Nacional. Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal). planalto.gov.br, 04/05/2000. Abrir ↗
  11. Congresso Nacional. Lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995 (mortos e desaparecidos políticos). planalto.gov.br, 04/12/1995. Abrir ↗
  12. BOITO JR., Armando. Neoliberalismo e relações de classe no Brasil. Campinas: Idéias (IFCH-Unicamp), v. 9, n. 1, pp. 13-48, 2002. Abrir ↗
  13. BOITO JR., Armando. A hegemonia neoliberal no governo Lula. Crítica Marxista, n. 17, pp. 10-36, 2003. Abrir ↗
  14. IANNI, Octavio. O declínio do Brasil-nação. São Paulo: Estudos Avançados (IEA-USP), v. 14, n. 40, pp. 51-58, 2000. Abrir ↗
  15. GORENDER, Jacob. Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94. 1995. Abrir ↗
  16. FERNANDES, Florestan. Entrevista ao programa Roda Viva (dezembro de 1994). 1994. Abrir ↗
  17. SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗
  18. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗