Explicação
O moderno Príncipe
Nos Cadernos do cárcere, Antonio Gramsci partiu de O Príncipe, de Maquiavel, para pensar a política moderna. Ele escreveu que o moderno Príncipe não pode ser uma pessoa real, porque só pode ser um organismo em que já começou a se formar uma vontade coletiva, que ele define como consciência ativa da necessidade histórica. Esse organismo, segundo Gramsci, é o partido político, a primeira célula em que se juntam os germes de uma vontade coletiva que tendem à universalidade e à totalidade. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 1, seção 1, §§ 1, 6 e 7)
Para Gramsci, o moderno Príncipe tem duas tarefas centrais. A primeira é organizar e expressar uma vontade coletiva nacional e popular, e a segunda é promover uma reforma intelectual e moral, isto é, uma nova concepção do mundo. Em outra nota, ele escreve que o protagonista do novo Príncipe é o partido político que pretende fundar um novo tipo de Estado. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 1, seção 1, §§ 10 e 11; Q 13, § 21, seção 7, § 1)
Os três elementos de um partido
Gramsci afirma que um partido só existe quando se juntam três elementos. O primeiro é um elemento difuso de pessoas comuns, que oferecem disciplina e fidelidade; o segundo é o elemento principal de coesão, que centraliza as forças no plano nacional e as torna eficazes; o terceiro é um elemento médio, que liga os dois primeiros por um contato físico, moral e intelectual. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 14, § 70, seção 7, §§ 8 a 11)
Gramsci observa que é mais fácil formar um exército do que formar os seus capitães, porque um grupo de dirigentes unido por fins comuns logo forma um exército onde antes não havia nada. Por isso, para ele, um partido não pode ser destruído por meios normais enquanto existir o elemento principal, e esse elemento deve preparar os seus sucessores para o caso de derrota. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 14, § 70, seção 7, §§ 10, 12 e 13)
A organização de revolucionários
Em Que fazer?, de 1902, Lênin argumentou que a consciência socialista só podia ser levada aos operários de fora, porque, com as próprias forças, a classe operária só chega à consciência sindical. Ele distinguiu a organização dos operários para a luta econômica, que deve ser sindical, a mais ampla possível e a menos clandestina possível, da organização de revolucionários, formada por pessoas que fazem da atividade revolucionária a sua profissão. Lênin avisou que falava da Rússia autocrática, onde associações e greves eram proibidas. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea a, § 2; cap. IV, alínea c, §§ 2 e 3)
Lênin rejeitou a ideia de que, nessa organização, poucos pensariam por todos. Para ele, concentrar as funções clandestinas num pequeno número de revolucionários profissionais multiplicaria a colaboração das massas e faria surgir do seu seio cada vez mais revolucionários. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. IV, alínea c, § 19)
Em 1978, Florestan Fernandes escreveu que Que fazer? introduziu no marxismo uma nova dimensão política. Para ele, Lênin mostrou que sem organização não se mede a força de um movimento revolucionário e sem movimento não se testa a teoria revolucionária. (Fernandes, Apresentação ao livro Que fazer?, de Lênin, §§ 2 e 10)
A crítica de Rosa e a resposta de Lênin
Em 1904, Rosa Luxemburgo criticou o centralismo defendido por Lênin, que para ela separava o núcleo revolucionário organizado do meio operário que o cerca. Para Rosa, o partido social-democrata é o próprio proletariado organizado, e o seu centralismo deve ser a vontade concentrada dos setores mais conscientes da classe. Lênin respondeu que o seu livro defendia os princípios elementares de qualquer organização partidária possível. (Luxemburgo, Problemas organizacionais da socialdemocracia russa, §§ 15 e 16; Lênin, Um passo em frente, dois passos atrás, § 1)
Gramsci escreveu em 1921 que as massas não existem politicamente se não estiverem enquadradas em partidos políticos. Ele via no Partido Comunista da Itália a organização independente do proletariado industrial. (Gramsci, O Partido e as massas, §§ 2 e 6)
Um exemplo brasileiro
Em fevereiro de 1980, o manifesto de lançamento do Partido dos Trabalhadores foi apresentado em São Paulo. O partido foi fundado por Lula, por intelectuais, sindicalistas e dirigentes de movimentos sociais. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 59)
Em 1991, Florestan Fernandes escreveu que o PT, com raízes sindicais profundas, já não era o braço político do movimento sindical. Para ele, uma greve sem espaço político se esgota em si mesma, e a presença do partido dá a ela outra dimensão, como luta de classes e contrapeso à hegemonia das classes dominantes. (Fernandes, O PT em movimento, § 11)