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Conceitos / Teoria e história do socialismo / Materialismo histórico

Consciência de classe

Em poucas palavras

Para Marx, os trabalhadores já formam uma classe diante do capital, mas só se constituem em classe para si na luta, quando os seus interesses viram interesses de classe. Lênin sustentou que a luta só econômica produz uma consciência sindical e que a consciência socialista vem da teoria levada ao movimento. Lukács chamou de consciência de classe o que a classe pensaria se compreendesse a sua situação.

Eixo e tema
Teoria e história do socialismo · Materialismo histórico
Obra principal
Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, de Vladímir Ilitch Lênin

Explicação

Classe diante do capital e classe para si

Na Miséria da filosofia, escrita em francês em 1847, Marx conta que as condições econômicas transformaram a massa do país em trabalhadores e que a dominação do capital criou para essa massa uma situação comum e interesses comuns. Por isso, diz ele, essa massa já é uma classe diante do capital, mas ainda não é uma classe para si mesma. Na luta, a massa se reúne e se constitui em classe para si, os interesses que defende passam a ser interesses de classe, e a luta de classe contra classe se torna uma luta política. (Marx, Miséria da filosofia, cap. II, § 5, parágrafo 'Les conditions économiques avaient d'abord…')

A tradução da obra que está no Arquivo Marxista, de Miguel Macedo (Flama, 1946), usa a expressão "em si mesma" nos dois pontos em que o original diz "pour elle-même", que quer dizer "para si mesma". Na leitura dessa edição, onde está "em si" deve-se entender "para si", que é a expressão com que Marx separa a classe diante do capital da classe que luta pelos próprios interesses. (Marx, Miséria da filosofia, cap. II, § 5, 27º parágrafo)

No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels põem como primeiro objetivo dos comunistas a formação do proletariado em classe, seguida da derrubada da dominação burguesa e da conquista do poder político. Eles também observam que a organização dos proletários em classe, e com ela em partido político, é desfeita a todo momento pela concorrência entre os próprios operários, mas renasce cada vez mais forte. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 40, e cap. 2, § 7)

No 18 de brumário de Luís Bonaparte, Marx mostra o caso contrário. Os pequenos camponeses franceses viviam em condições parecidas e por isso formavam uma classe, mas, isolados uns dos outros, não tinham ligação nacional nem organização política, e por isso não podiam representar a si mesmos e precisavam ser representados. (Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, cap. VII, § 15)

Da luta econômica à consciência política

Em Que fazer?, de 1902, Lênin compara os motins operários russos das décadas de 1860 e 1870 com as greves organizadas dos anos 1890. Para ele, o elemento espontâneo é a forma embrionária do consciente, e as greves dos anos 1890 já eram embriões da luta de classes, mas continuavam sendo luta trade-unionista, isto é, luta sindical por melhores condições dentro do regime. Os operários ainda não tinham a consciência da oposição entre os seus interesses e todo o regime político e social. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea a, § 1)

Lênin conclui que, só com as suas próprias forças, a classe operária chega à consciência trade-unionista, que é a convicção de que é preciso se juntar em sindicatos, lutar contra os patrões e cobrar do governo as leis de que os operários precisam. A consciência socialista, que ele chamava de social-democrata, teria de ser levada ao movimento de fora da luta econômica, porque a doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por intelectuais. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea a, § 2)

Engels liga a consciência de classe à organização política. Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, ele escreve que, enquanto não está madura para se emancipar, a maioria da classe oprimida considera a ordem existente a única possível e vota como cauda da classe capitalista. À medida que amadurece, a classe se constitui em partido independente e elege os seus próprios representantes. (Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 31)

Lukács e a consciência adjudicada

No ensaio Consciência de classe, de 1920, publicado em História e consciência de classe, György Lukács separa a consciência de classe daquilo que cada trabalhador pensa num dado momento. Para ele, a consciência de classe é a reação racional adequada à situação típica de uma classe no processo de produção, aquilo que as pessoas pensariam se fossem capazes de perceber essa situação e os interesses que dela decorrem. Lukács afasta a ideia de que essa consciência seja a soma ou a média dos pensamentos dos indivíduos e afirma que é ela que determina, em última instância, a ação historicamente decisiva da classe. (Lukács, História e consciência de classe, ensaio Consciência de classe, cap. 1, § 10)

Lukács propõe estudar a distância entre essa consciência adjudicada, isto é, atribuída à classe pela sua posição na produção, e os pensamentos que os homens realmente têm da sua situação. Segundo ele, essa distância muda de uma classe para outra, conforme a relação de cada uma com o conjunto da economia e da sociedade. (Lukács, História e consciência de classe, ensaio Consciência de classe, cap. 1, § 11)

Um exemplo brasileiro

Astrojildo Pereira, no artigo de 1952 sobre as lutas que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, registra a greve geral de julho de 1917 em São Paulo e a onda de greves de massa de 1917 a 1920, por aumento de salário e melhores condições de trabalho. Para ele, eram lutas mais ou menos espontâneas e isoladas umas das outras, em que as reivindicações valiam como um fim em si mesmo. Faltava ao movimento uma direção política, que, segundo Astrojildo, só um partido independente da classe poderia dar. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, §§ 51 e 55)

Astrojildo conta que, sobretudo na segunda metade de 1921, as discussões nos sindicatos sobre a incapacidade do anarquismo para dirigir o movimento levaram à organização dos primeiros grupos comunistas. Na leitura dele, o surgimento do partido revelou que as lutas anteriores tinham produzido um rápido amadurecimento político da classe operária brasileira. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, §§ 55 e 56)

No Brasil

Consciência de classe no Brasil

Astrojildo Pereira registra a greve geral de julho de 1917 em São Paulo e a onda de greves até 1920, que ele chama de lutas mais ou menos espontâneas. Para ele, a autocrítica feita nos sindicatos em 1921 levou aos primeiros grupos comunistas e mostrou o amadurecimento político da classe operária. (Astrojildo Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 51; Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, §§ 55 e 56)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. 1902. Onde ler: cap. II, alínea a, §§ 1 e 2.

    “A história de todos os países testemunha que a classe operária, exclusivamente com as suas próprias forças, só é capaz de desenvolver uma consciência trade-unionista, quer dizer, a convicção de que é necessário agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patrões, exigir do governo estas ou aquelas leis necessárias aos operários, etc.”

    cap. II, alínea a, § 2

    Ler grátis: Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento ↗Ficha da obra: Que fazer?

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (15)
  • Interpretação · Astrojildo PereiraO surgimento do Partido Comunista revelou que as lutas anteriores haviam produzido um rápido amadurecimento político da classe operária brasileira.Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 56
  • Interpretação · Astrojildo PereiraA constatação da incapacidade do anarquismo para dirigir o movimento, fruto de um processo espontâneo de autocrítica acentuado na segunda metade de 1921 nas discussões dos sindicatos, levou à organização dos primeiros grupos comunistas, passo inicial para a fundação do Partido Comunista.Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 55
  • Interpretação · Astrojildo PereiraAs greves de 1917 a 1920 foram lutas mais ou menos espontâneas, isoladas umas das outras, e as reivindicações por salário e condições de trabalho constituíam um fim em si mesmo, e não um ponto de partida para reivindicações de nível superior; faltava uma direção política, que só um partido independente da classe poderia dar.Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 55
  • FatoSegundo Astrojildo Pereira, em julho de 1917 houve greve geral em São Paulo, que paralisou a cidade por alguns dias, e de 1917 a 1920 houve uma onda de greves de massa em muitas cidades, por aumento de salários e melhoria das condições de trabalho.Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 51
  • Interpretação · Karl MarxNa medida em que milhões de famílias camponesas vivem em condições econômicas que separam o seu modo de vida, os seus interesses e a sua cultura dos das outras classes, elas formam uma classe; na medida em que a identidade de interesses não cria entre elas comunidade, ligação nacional nem organização política, não formam uma classe, não podem representar a si mesmas e têm de ser representadas.Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, cap. VII, § 15
  • Interpretação · Friedrich EngelsEnquanto a classe oprimida não está madura para promover a sua emancipação, a maioria dos seus membros considera a ordem social existente como a única possível e forma, politicamente, a cauda da classe capitalista; na medida em que amadurece para a autoemancipação, constitui-se como partido independente e elege os seus próprios representantes, e o sufrágio universal é o índice desse amadurecimento.Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 31
  • Interpretação · György LukácsRelacionando a consciência com a totalidade da sociedade, descobrem-se os pensamentos e sentimentos que os homens teriam numa situação vital determinada se fossem capazes de perceber perfeitamente essa situação e os interesses que dela decorrem; a consciência de classe é a reação racional adequada que deve ser adjudicada a uma situação típica no processo de produção, não é a soma nem a média do que pensam os indivíduos, e é ela que determina, em última instância, a ação historicamente decisiva da classe.Lukács, História e consciência de classe, ensaio Consciência de classe, cap. 1, § 10
  • Interpretação · György LukácsÉ preciso pesquisar a distância entre a consciência de classe e os pensamentos empíricos, psicologicamente descritíveis, que os homens fazem da sua situação, e se essa distância é diferente segundo as classes e as relações que elas mantêm com a totalidade econômica e social.Lukács, História e consciência de classe, ensaio Consciência de classe, cap. 1, § 11
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsO objetivo mais próximo dos comunistas é o mesmo de todos os outros partidos proletários, a formação do proletariado em classe, a derrubada da dominação da burguesia e a conquista do poder político pelo proletariado.Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 2, § 7
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsA organização dos proletários em classe, e com isso em partido político, é rompida a cada momento pela concorrência entre os próprios operários, mas renasce sempre mais forte, mais sólida e mais poderosa.Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 40
  • Interpretação · Karl MarxAs condições econômicas transformaram a massa do país em trabalhadores, e a dominação do capital criou para essa massa uma situação comum e interesses comuns; assim, essa massa já é uma classe diante do capital, mas ainda não para si mesma; na luta, ela se reúne e se constitui em classe para si mesma, os interesses que defende tornam-se interesses de classe, e a luta de classe contra classe é uma luta política.Marx, Miséria da filosofia, cap. II, § 5, parágrafo 'Les conditions économiques avaient d'abord…'
  • FatoMarx escreveu a Miséria da filosofia em francês, em 1847.Marx, Miséria da filosofia, cabeçalho da página do MIA
  • FatoNa tradução de Miguel Macedo (Flama, 1946), a passagem diz que a massa 'já é uma classe diante do capital, mas não o é ainda em si mesma' e que na luta 'se constitui em classe em si mesma', onde o original francês diz 'pas encore pour elle-même' e 'en classe pour elle-même'.Marx, Miséria da filosofia, cap. II, § 5, 27º parágrafo
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA consciência social-democrata só podia ser introduzida nos operários de fora; com as suas próprias forças, a classe operária só é capaz de desenvolver uma consciência trade-unionista, a convicção de que é necessário agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patrões e exigir do governo leis necessárias aos operários; a doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por intelectuais.Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea a, § 2
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO elemento espontâneo não é mais do que a forma embrionária do consciente; comparadas com os motins das décadas de 1860 e 1870, as greves russas dos anos 1890 eram embriões da luta de classes, mas em si mesmas eram luta trade-unionista, e os operários não tinham a consciência da oposição irreconciliável entre os seus interesses e todo o regime político e social existente.Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea a, § 1

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. Miséria da filosofia. 1847. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. Miséria da filosofia. Trad. Miguel Macedo. São Paulo: Editora Flama, 1946. Abrir ↗
  3. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. José Barata-Moura. Lisboa: Editorial Avante!, 1997. Abrir ↗
  4. MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. 1852. Abrir ↗
  5. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. 1902. Abrir ↗
  6. ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Trad. Leandro Konder. Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1964. Abrir ↗
  7. LUKÁCS, György. História e consciência de classe. 1923. Abrir ↗
  8. PEREIRA, Astrojildo. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil. 1952. Abrir ↗
  9. Astrojildo Pereira. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil (Problemas, n. 39, mar.-abr. 1952). marxists.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx. O 18 brumário de Louis Bonaparte, cap. VII, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Friedrich Engels. A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX. Barbárie e civilização, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. György Lukács. Consciência de classe, cap. 1, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. II. Proletários e comunistas, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. 1. Burgueses e proletários, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Karl Marx. Misère de la philosophie, cap. II, § 5. Les grèves et les coalitions des ouvriers (texto francês), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Karl Marx. Miséria da filosofia, cap. II, § 5. As greves e as coalizões dos operários, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  17. Vladímir Ilitch Lênin. Que fazer?, cap. II. A espontaneidade das massas e a consciência da social-democracia, no MIA. marxists.org. Abrir ↗