Pular para o conteúdo

Conceitos / Formação do Brasil / Capitalismo dependente

Superexploração da força de trabalho

Em poucas palavras

Superexploração é o pagamento da força de trabalho abaixo do seu valor, pela intensificação do trabalho, pelo prolongamento da jornada ou pelo corte do consumo necessário do trabalhador. Para Ruy Mauro Marini, ela é o fundamento da dependência latino-americana. Mathias Luce mostra que, em 2012, o salário mínimo necessário do Dieese valia mais de quatro vezes o mínimo legal.

Eixo e tema
Formação do Brasil · Capitalismo dependente
Obra principal
Dialética da dependência, de Ruy Mauro Marini

Explicação

O valor da força de trabalho

Para Marx, o valor da força de trabalho, isto é, da capacidade de trabalhar que o operário vende ao patrão, é o valor dos meios de vida necessários para que ele se mantenha e crie os filhos. O limite mínimo desse valor é o valor dos meios de vida fisicamente indispensáveis, e, se o preço da força de trabalho cai abaixo dele, cai abaixo do seu valor, porque o trabalhador só consegue se conservar de forma atrofiada. (Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 2, 11, 12 e 17)

Marx avisou que, nas partes de O capital sobre a mais-valia, supunha um salário pelo menos igual ao valor da força de trabalho. Mesmo assim, escreveu que a redução violenta do salário abaixo desse valor tem um papel prático importante demais para ser deixada de lado, porque transforma, dentro de certos limites, o fundo de consumo necessário do operário num fundo de acumulação do capital. (Marx, O capital, Livro I, cap. 22, seção 4, § 3)

Os três mecanismos de Marini

Ruy Mauro Marini partiu dessa passagem para explicar a economia dependente. Ele apontou três mecanismos pelos quais ela extrai mais trabalho excedente, ou seja, mais trabalho que o operário faz depois de produzir o equivalente ao próprio sustento, que são a intensificação do trabalho, o prolongamento da jornada e a redução do consumo do operário além do seu limite normal. Em todos eles, segundo Marini, nega-se ao trabalhador o necessário para repor o desgaste da sua força de trabalho, e por isso o trabalho é pago abaixo do seu valor, o que ele chamou de superexploração do trabalho. (Marini, Dialética da dependência, pp. 26 a 30)

Marini afirma que esses mecanismos formam um modo de produção apoiado na maior exploração do trabalhador, e não no desenvolvimento da sua capacidade produtiva. Isso combinava, para ele, com a agricultura e a mineração de exportação, em que mais trabalho aumenta a riqueza produzida quase sem capital adicional. (Marini, Dialética da dependência, p. 29)

No pós-escrito do ensaio, Marini esclareceu que a superexploração não é sobrevivência de formas primitivas de acumulação e cresce junto com a produtividade do trabalho. Para ele, as condições criadas pela superexploração dificultam a passagem da mais-valia absoluta, obtida com a jornada longa, para a relativa, obtida com o aumento da produtividade, e se ligam à expansão do exército industrial de reserva, a massa de desempregados que pressiona os salários. Daí a sua conclusão de que o fundamento da dependência é a superexploração. (Marini, Dialética da dependência, pp. 76, 78 e 79)

Superexploração no Brasil

Marini usou o Brasil como exemplo. Ele lembra que a abolição de 1888 veio acompanhada de medidas para prender o trabalhador à terra, como o barracão, o comércio dos bens de consumo monopolizado pelo latifundiário dentro da fazenda. Na resposta de 1978 a Fernando Henrique Cardoso e José Serra, ele mostrou que o salário mínimo caiu de um índice de 139 em 1959 para 89 em 1977, com 1965 igual a 100, e que pelo Censo de 1970 recebiam menos de um salário mínimo 40% dos trabalhadores e 83% dos do setor primário. Para Marini, a ditadura, apoiada no exército de reserva, na contenção salarial e na repressão, fixou o salário real abaixo do valor da força de trabalho. (Marini, Dialética da dependência, pp. 33 e 34; Marini, As razões do neodesenvolvimentismo, pp. 59 a 61)

Mathias Seibel Luce aplicou o conceito ao Brasil do século XXI. Ele usa como medida do valor da força de trabalho o salário mínimo necessário que o Dieese, Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, calcula para cobrir os gastos de uma família com moradia, alimentação, saúde, transporte e outras necessidades, e registra que, em outubro de 2012, esse valor estava em torno de R$ 2.617, mais de quatro vezes o mínimo legal de R$ 622. Luce também mostra que, entre 2003 e 2009, em média 40% dos trabalhadores brasileiros cumpriram jornadas semanais acima de 44 horas, e lê isso como apropriação pelo capital de anos futuros da vida do trabalhador. (Luce, Brasil, pp. 170, 173, 176 e 177)

Diferenças e polêmicas

Na obra de Marx, a mais-valia existe mesmo quando o salário paga o valor da força de trabalho, que era a suposição das seções de O capital sobre o tema. Marini reserva a palavra superexploração para o pagamento abaixo desse valor e critica quem a confunde com a mais-valia absoluta. O exército industrial de reserva aparece nele como base sobre a qual a ditadura rebaixou os salários, e a sua expansão acompanha a superexploração. (Marx, O capital, Livro I, cap. 22, seção 4, § 3; Marini, As razões do neodesenvolvimentismo, pp. 52 e 59; Marini, Dialética da dependência, p. 78)

Claudio Katz, num artigo de setembro de 2017, propôs uma teoria da dependência sem o conceito de superexploração, segundo o resumo de Adrián Sotelo Valencia. Nas palavras de Sotelo, Katz explica os salários mais baixos da periferia pelas diferenças de produtividade e pela luta de classes, com valores da força de trabalho diferentes de um país para outro, e troca o conceito pela remuneração baixa. Sotelo responde que isso descarta a categoria que é o rudimento essencial da teoria marxista da dependência de Marini e defende a superexploração revista e renovada. (Sotelo Valencia, Crítica à crítica de Katz a Marini, pp. 1 e 2)

No Brasil

Superexploração da força de trabalho no Brasil

Em outubro de 2012, o salário mínimo necessário calculado pelo Dieese, em torno de R$ 2.617, valia mais de quatro vezes o salário mínimo de R$ 622; Mathias Luce lê essa distância como superexploração. (Mathias Seibel Luce, Brasil, p. 176; Luce, Brasil, pp. 173 e 176)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. 1973. Onde ler: pp. 26 a 34 e 76 a 79.

    “Importa señalar además que, en los tres mecanismos considerados, la característica esencial está dada por el hecho de que se le niega al trabajador las condiciones necesarias para reponer el desgaste de su fuerza de trabajo […]. En términos capitalistas, estos mecanismos (que además se pueden dar, y normalmente se dan, en forma combinada) significan que el trabajo se remunera por debajo de su valor, y corresponden, pues, a una superexplotación del trabajo.”

    pp. 29 e 30

    Ler grátis: Dialética da dependência ↗Ficha da obra: Dialética da dependência

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (18)
  • Interpretação · Claudio Katz, segundo Adrián Sotelo ValenciaEm artigo de 12 de setembro de 2017, Claudio Katz propõe uma teoria da dependência sem o conceito de superexploração, que poderia ser substituído pela remuneração baixa do recurso força de trabalho, e explica as divergências de salários entre regiões pelas diferenças de produtividade e pelas lutas de classes, com valores da força de trabalho substancialmente diferentes.Sotelo Valencia, Crítica à crítica de Katz a Marini, pp. 1 e 2
  • FatoEm outubro de 2012, o salário mínimo necessário estava em torno de R$ 2.617, mais de quatro vezes o salário mínimo vigente de R$ 622.Luce, Brasil, p. 176
  • Interpretação · Mathias Seibel LuceEntre 2003 e 2009, em média 40% dos trabalhadores brasileiros cumpriram jornadas semanais acima de 44 horas; ultrapassar a jornada normal é superexploração por prolongamento da jornada, em que o capital se apropria de anos de vida futuros do trabalhador.Luce, Brasil, p. 177
  • Interpretação · Mathias Seibel LuceA superexploração pode se dar pela remuneração da força de trabalho abaixo do seu valor, pelo prolongamento da jornada, pelo aumento da intensidade do trabalho e pelo aumento do valor da força de trabalho sem o aumento correspondente da remuneração.Luce, Brasil, p. 172
  • Interpretação · Mathias Seibel LuceO salário mínimo necessário do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), calculado desde 1970 com séries retroativas a 1940, estima quanto deveria ser o salário mínimo para cobrir os gastos com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social e serve como parâmetro da remuneração da força de trabalho em condições próximas do seu valor.Luce, Brasil, pp. 170, 171 e 173
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniNos três mecanismos, nega-se ao trabalhador as condições necessárias para repor o desgaste da sua força de trabalho; em termos capitalistas, eles significam que o trabalho é remunerado abaixo do seu valor e correspondem a uma superexploração do trabalho.Marini, Dialética da dependência, pp. 29 e 30
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniNo Brasil, a abolição da escravidão, em 1888, veio acompanhada de medidas destinadas a atar o trabalhador à terra, como o artigo do código civil que vinculava à pessoa as dívidas contraídas e o sistema de barracão, monopólio do comércio de bens de consumo exercido pelo latifundiário dentro da fazenda.Marini, Dialética da dependência, pp. 33 e 34
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniCardoso e Serra repetem a confusão habitual entre superexploração e mais-valia absoluta.Marini, As razões do neodesenvolvimentismo, p. 52
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniApoiada no exército industrial de reserva e em mecanismos coercitivos, como a contenção salarial oficial e a repressão policial, a ditadura militar viabilizou a tendência do capitalismo brasileiro à fixação do salário real abaixo do valor da força de trabalho.Marini, As razões do neodesenvolvimentismo, p. 59
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniA superexploração não corresponde a uma sobrevivência de modos primitivos de acumulação de capital, mas é inerente a esta e cresce correlativamente ao desenvolvimento da força produtiva do trabalho.Marini, Dialética da dependência, p. 76
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniA economia dependente aumenta a extração de trabalho excedente por três mecanismos, a intensificação do trabalho, a prolongação da jornada de trabalho e a redução do consumo do operário além do seu limite normal, que é a expropriação de parte do trabalho necessário ao operário para repor a sua força de trabalho.Marini, Dialética da dependência, pp. 26 a 29
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniOs três mecanismos configuram um modo de produção fundado na maior exploração do trabalhador, e não no desenvolvimento da sua capacidade produtiva; na indústria extrativa e na agricultura, o aumento de trabalho pode incrementar a riqueza produzida sem capital adicional.Marini, Dialética da dependência, p. 29
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniAs condições criadas pela superexploração tendem a obstaculizar o trânsito da mais-valia absoluta para a relativa como forma dominante, e a gravitação da mais-valia extraordinária corresponde à expansão do exército industrial de reserva; o fundamento da dependência é a superexploração do trabalho.Marini, Dialética da dependência, pp. 78 e 79
  • FatoO salário mínimo brasileiro caiu de um índice de 139 em 1959 (1965 = 100) para 89 em 1977; pelo Censo Demográfico de 1970, 40% da população trabalhadora recebia menos de um salário mínimo, situação de 83% dos trabalhadores do setor primário, 23% dos da indústria e 36% dos de serviços.Marini, As razões do neodesenvolvimentismo, pp. 60 e 61
  • Interpretação · Karl MarxO limite último ou mínimo do valor da força de trabalho é formado pelo valor dos meios de vida fisicamente indispensáveis; se o preço da força de trabalho desce deste mínimo, desce abaixo do seu valor, pois assim ela só se pode conservar e desenvolver de forma enfezada.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 17
  • Interpretação · Karl MarxNas seções sobre a produção da mais-valia era pressuposto que o salário era pelo menos igual ao valor da força de trabalho; a redução violenta do salário abaixo deste valor desempenha, todavia, no movimento prático, um papel demasiado importante e transforma, dentro de certos limites, o fundo necessário de consumo do operário num fundo de acumulação de capital.Marx, O capital, Livro I, cap. 22, seção 4, § 3
  • Interpretação · Karl MarxForça de trabalho é o complexo das capacidades físicas e espirituais que existem na corporalidade de um ser humano e que ele põe em movimento quando produz valores de uso; o seu valor é o valor dos meios de vida necessários para a conservação do seu possuidor, e inclui os meios de vida dos filhos que o substituirão no mercado.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 2, 11 e 12
  • Interpretação · Adrián Sotelo ValenciaA proposta de Katz descarta a categoria que é o rudimento essencial da teoria marxista da dependência de Marini; melhor seria uma teoria da dependência com superexploração revisitada e renovada.Sotelo Valencia, Crítica à crítica de Katz a Marini, pp. 1 e 2

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. 1973. Abrir ↗
  3. MARINI, Ruy Mauro. As razões do neodesenvolvimentismo (resposta a F. H. Cardoso e J. Serra). 1978. Abrir ↗
  4. LUCE, Mathias Seibel. Brasil: nova classe média ou novas formas de superexploração da classe trabalhadora? 2013. Abrir ↗
  5. SOTELO VALENCIA, Adrián. Crítica à crítica de Katz a Marini: uma teoria da dependência sem superexploração? Abrir ↗
  6. Mathias Seibel Luce. Brasil: nova classe média ou novas formas de superexploração da classe trabalhadora? (Trabalho, Educação e Saúde, v. 11, n. 1, 2013; PDF da Redalyc). redalyc.org. Abrir ↗
  7. Adrián Sotelo Valencia. Crítica a la crítica de Katz a Marini: ¿una teoría de la dependencia sin superexplotación? (PDF do Rebelión). rebelion.org. Abrir ↗
  8. Ruy Mauro Marini. Dialéctica de la dependencia, com o pós-escrito En torno a Dialéctica de la dependencia (PDF do Archivo de Ruy Mauro Marini, UNAM). marini-escritos.unam.mx. Abrir ↗
  9. Ruy Mauro Marini. Las razones del neodesarrollismo (respuesta a F. H. Cardoso y J. Serra), 1978 (PDF do Archivo de Ruy Mauro Marini, UNAM). marini-escritos.unam.mx. Abrir ↗
  10. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 4, seção 3. Compra e venda da força de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 22, seção 4. Circunstâncias que, independentemente da divisão proporcional da mais-valia em capital e revenue, determinam o volume da acumulação (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗