Explicação
Repúblicas semicoloniais
Em 1929, José Carlos Mariátegui escreveu em Lima uma tese para a Primeira Conferência Comunista Latino-Americana, reunida em Buenos Aires em junho daquele ano. Para ele, a condição econômica das repúblicas latino-americanas era semicolonial, isto é, de países politicamente independentes com a economia subordinada ao imperialismo, e esse caráter tendia a se acentuar à medida que o capitalismo e a penetração imperialista cresciam. As burguesias nacionais, dizia Mariátegui, viam na cooperação com o imperialismo a melhor fonte de lucros e se sentiam donas do poder político o bastante para não se preocupar seriamente com a soberania nacional. (Mariátegui, Ponto de vista anti-imperialista, §§ 1 e 5 e nota 1 dos editores)
Lênin já tinha descrito, em 1916, as formas de dependência de países que têm independência política formal mas vivem presos nas malhas da dependência financeira e diplomática. O modelo que ele deu foi a Argentina, que Schulze-Gaevernitz, num livro sobre o imperialismo britânico, chamou de quase colônia comercial inglesa por causa da sua dependência financeira em relação a Londres. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, §§ 25 e 26)
Por que a burguesia não lidera a luta
Mariátegui escreveu que, enquanto a política imperialista conseguisse manejar os sentimentos e as formalidades da soberania nacional, sem precisar de intervenção armada e de ocupação militar, ela contaria com a colaboração das burguesias. A situação era outra na América Central, onde a intervenção armada dos Estados Unidos provocava uma reação patriótica capaz de levar parte da burguesia e da pequena burguesia ao anti-imperialismo. (Mariátegui, Ponto de vista anti-imperialista, §§ 5 e 11)
Para Mariátegui, nem a burguesia nem a pequena burguesia no poder podem fazer uma política anti-imperialista. Ele citou o México, onde a pequena burguesia acabou fazendo um pacto com o imperialismo ianque, e disse que qualquer governo burguês do Peru faria, em matéria de empréstimos e concessões, o mesmo que o governo de Leguía, que ele chamava de pan-americanista e monroísta, isto é, seguidor da doutrina Monroe dos Estados Unidos. Os investimentos do capital estrangeiro no Peru, segundo ele, cresciam junto com a exploração das riquezas naturais e com as vias de comunicação do país. (Mariátegui, Ponto de vista anti-imperialista, § 9)
Nove anos antes, Lênin tinha dito ao II Congresso da Internacional Comunista que a burguesia dos países oprimidos muitas vezes apoia os movimentos nacionais e, ao mesmo tempo, luta junto com a burguesia imperialista contra os movimentos revolucionários. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, § 5)
O debate com a APRA
Mariátegui escreveu contra os dirigentes da APRA, movimento conduzido por Haya de la Torre, que queriam transformá-la num Kuomintang latino-americano, isto é, numa frente de classes como a da China, onde, para Mariátegui, a burguesia tinha traído a luta anti-imperialista. Os apristas se diziam de esquerda ou socialistas porque eram anti-imperialistas, mas, para Mariátegui, o anti-imperialismo sozinho não é um programa político capaz de conquistar o poder e não apaga o antagonismo entre as classes. Por isso, a tarefa era mostrar às massas que só a revolução socialista poria uma barreira definitiva ao avanço do imperialismo. Ele terminou a tese dizendo que os comunistas eram anti-imperialistas porque eram marxistas e revolucionários. (Mariátegui, Ponto de vista anti-imperialista, §§ 2 a 4, 7, 8, 10, 11 e 14)
O Brasil na América Latina
Ruy Mauro Marini registrou que o investimento direto norte-americano na indústria manufatureira latino-americana passou de 6,7% do total desse investimento em 1929 para 19,1% em 1950 e 32,3% em 1967, e que Argentina, México e Brasil recebiam mais de dois terços dele. Para Marini, o Brasil, dependente e subordinado, entrou na etapa de exportação de capital e de exploração de matérias-primas e fontes de energia no exterior, como parte do que ele chamou de subimperialismo. (Marini, A acumulação capitalista mundial e o subimperialismo, pp. 44, 59 e 62)
Virgínia Fontes reuniu dados sobre a expansão de empresas brasileiras na região. Na Argentina, a Petrobras comprou a Pecom e virou o segundo grupo do setor de petróleo e gás, e a Camargo Corrêa comprou a maior fábrica de cimento do país. Na Bolívia, segundo dados de Luce que ela cita, a Petrobras era desde 1996 a maior empresa em atividade, com 45,9% das reservas provadas e prováveis de gás e 39,5% das de petróleo, até a nacionalização dos hidrocarbonetos pelo governo Morales, em 2006. (Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, pp. 340 e 342)
Armando Boito Jr. e Tatiana Berringer escrevem que o governo Lula deu prioridade à América do Sul, fortaleceu o Mercosul e a integração regional como contrapeso aos Estados Unidos e à Europa e financiou, pelo BNDES, a internacionalização de empresas brasileiras na região. Segundo eles, o Estado brasileiro respeitou a nacionalização do gás pela Bolívia, que atingiu os negócios da Petrobras, e renegociou o tratado de Itaipu a pedido do Paraguai. (Boito Jr. e Berringer, Brasil, pp. 35 e 36)