Explicação
A nova dependência
Theotonio dos Santos escreveu que, depois da Segunda Guerra, a economia mundial se reorganizou sob a hegemonia dos Estados Unidos com base no que ele chama de revolução científico-técnica e na difusão mundial das tecnologias de produção em massa, sobretudo de bens duráveis. Os investimentos passaram a sair dos centros que criavam essa tecnologia para o exterior. Para saltar as barreiras alfandegárias, o capital internacional deixou de investir só na exportação de produtos primários e passou a montar fábricas voltadas para o mercado interno dos países dependentes. (Santos, A teoria da dependência, pp. 55 e 56)
Segundo Theotonio, esse capital veio substituir o capital nacional na industrialização, trazendo tecnologias, financiamento e padrões de concorrência de economias que já tinham produtos tecnologicamente maduros. Por isso, para ele, era inevitável que o capital internacional submetesse o nacional à sua dinâmica, num movimento comandado por um novo tipo de empresa, a multinacional. Ele chamou essa situação de nova dependência e diz ter sido o primeiro a analisar a expansão da multinacional na América Latina, num livro de 1967. (Santos, A teoria da dependência, pp. 24 e 54)
Máquinas usadas e etapas inferiores
Ruy Mauro Marini observou que, com a industrialização latino-americana, as importações passaram a ser de matérias-primas, produtos semielaborados e máquinas, e que a crise permanente das contas externas deu importância especial à entrada de capital estrangeiro na indústria. Para ele, como o progresso técnico encurtou pela metade o prazo de reposição das máquinas nos países centrais, eles precisaram exportar para a periferia equipamentos que ficavam obsoletos antes de serem totalmente pagos. (Marini, Dialética da dependência, pp. 51 a 53)
Marini viu nisso uma nova divisão internacional do trabalho, que transfere aos países dependentes as etapas inferiores da produção industrial, como a siderurgia, a ponto de o Brasil já exportar aço. Os centros imperialistas guardam as etapas mais avançadas, como os computadores e a eletrônica pesada, e o monopólio da tecnologia correspondente. Ele chamou de duplo engano a recomendação de que os países dependentes escolhessem técnicas que empregam mais gente, porque ela prega menos desenvolvimento técnico e confunde os efeitos sociais capitalistas da técnica com a própria técnica. (Marini, Dialética da dependência, pp. 53 e 55)
Jacob Gorender escreveu em 1997 que as multinacionais mantêm os seus centros mais importantes de pesquisa e desenvolvimento nos países de origem, onde estão os melhores quadros científicos e a melhor infraestrutura. Segundo ele, as decisões estratégicas, sobretudo as que envolvem grandes investimentos, linhas de pesquisa caras e inovações importantes, ficam com a matriz. (Gorender, Globalização, tecnologia e relações de trabalho, seção Retificação de conceitos sobre a globalização, § 13)
Patentes, royalties e capital estrangeiro no Brasil
Vânia Bambirra escreveu em 1997 que, na América Latina, a revolução científico-tecnológica foi conduzida pelo capital estrangeiro, dono do controle monopólico dos novos processos produtivos e das patentes dos produtos. Para ela, isso desnacionalizou importantes meios de produção e transformou a classe dominante em sócia menor do capitalismo dos países centrais. (Bambirra, Êxodo rural e êxodo urbano, § 10 da página do MIA)
A Lei nº 4.131, de 1962, proibiu remessas para o pagamento de royalties, a remuneração paga pelo uso de patentes de invenção e de marcas, entre a filial ou subsidiária instalada no Brasil e a matriz no exterior. A proibição valia também quando a maior parte do capital da empresa no Brasil pertencia a quem recebia os royalties no estrangeiro. (Congresso Nacional, Lei nº 4.131, de 3 de setembro de 1962, art. 14)
Pelos dados do Banco Central, o Brasil gastou US$ 12,8 bilhões em 2025 com serviços de propriedade intelectual, que incluem as taxas pelo uso de patentes, marcas, direitos autorais e franquias, e recebeu US$ 1,2 bilhão pelo mesmo motivo. Theotonio dos Santos escreveu que a transferência de riqueza dos países dependentes para os centrais se aprofunda com o pagamento de juros, royalties, serviços técnicos e remessas de lucros. (Banco Central do Brasil, Série SGS 22778, serviços de propriedade intelectual, mensal, despesa, soma de janeiro a dezembro; Banco Central do Brasil, Série SGS 22777, serviços de propriedade intelectual, mensal, receita, soma de janeiro a dezembro; Banco Central do Brasil, Serviços de propriedade intelectual, mensal, despesa, conceito e unidade; Santos, A teoria da dependência, p. 87)
Para Theotonio, enquanto os países centrais se especializavam na tecnologia de ponta, os dependentes de desenvolvimento médio ampliaram a exportação industrial sem entrar no grupo dos países industriais desenvolvidos. O abandono do esforço científico e tecnológico regional levou, segundo ele, ao abandono do setor de bens de capital, onde estão a chave da revolução científico-técnica e a possibilidade de um desenvolvimento que se sustente por si. Ele acrescenta que a indústria de base, com a sua modernização pela robótica, começou a se retirar até de países como o Brasil. (Santos, A teoria da dependência, pp. 22 e 23)