Pular para o conteúdo

Conceitos / Formação do Brasil / Capitalismo dependente

Subdesenvolvimento

Em poucas palavras

Subdesenvolvimento é a posição subordinada de um país na divisão internacional do trabalho, produzida pelo próprio desenvolvimento do capitalismo mundial. Para Theotonio dos Santos e Ruy Mauro Marini, ele vem da dependência e só a reproduz. O café brasileiro mostra o caso, porque o país era o grande exportador e ainda assim dependia dos credores externos para segurar o preço.

Eixo e tema
Formação do Brasil · Capitalismo dependente
Obra principal
A teoria da dependência: balanço e perspectivas, de Theotonio dos Santos

Explicação

Atraso ou produto do capitalismo?

Theotonio dos Santos conta que, até o começo dos anos 1960, a literatura sobre o tema via o subdesenvolvimento como ausência de desenvolvimento, e explicava o atraso dos países pobres pelos obstáculos à sua modernização. Essas teorias perderam força quando o capitalismo se mostrou incapaz de repetir nas ex-colônias as experiências de desenvolvimento bem-sucedidas. Mesmo países latino-americanos com crescimento alto, independentes desde o século XIX, pareciam condenados a acumular miséria, analfabetismo e uma distribuição de renda desastrosa. (Santos, A teoria da dependência, p. 11)

Abriu-se então caminho, segundo Santos, para compreender o desenvolvimento e o subdesenvolvimento como resultado histórico do desenvolvimento do capitalismo, um sistema mundial que produz ao mesmo tempo um e outro. A escola da dependência resumiu essa tese em quatro pontos, o de que o subdesenvolvimento está ligado à expansão dos países industrializados, o de que desenvolvimento e subdesenvolvimento são aspectos de um mesmo processo, o de que o subdesenvolvimento não é a primeira etapa de uma evolução e o de que a dependência também se manifesta na estrutura interna dos países. (Santos, A teoria da dependência, pp. 12 e 13)

Dependência e divisão internacional do trabalho

Ruy Mauro Marini explica que, no século XIX, as relações da América Latina com os centros capitalistas europeus passaram a se inserir numa estrutura definida, a divisão internacional do trabalho, que repartiu entre os países as funções na produção mundial. Daí nasceu a dependência, uma relação de subordinação entre nações formalmente independentes em que as relações de produção dos países subordinados são modificadas ou recriadas para reproduzir a dependência. Para Marini, o fruto da dependência só pode ser mais dependência, e por isso ele considerava impecável a fórmula de André Gunder Frank sobre o desenvolvimento do subdesenvolvimento. (Marini, Dialética da dependência, p. 9)

Marini dá o exemplo do Brasil, com números que ele cita de outros autores. Entre 1902 e 1913, o valor das exportações brasileiras cresceu 79,6%, a dívida externa cresceu 144,6% e o serviço dessa dívida chegou, em 1913, a 60% do gasto público total. (Marini, Dialética da dependência, p. 9, nota 3)

O sentido da colonização

Caio Prado Júnior mostra que o Brasil se constituiu, na essência da sua formação, para fornecer ao comércio europeu açúcar, tabaco e outros gêneros, depois ouro e diamantes, algodão e, em seguida, café. A sociedade e a economia brasileiras se organizaram para esse objetivo exterior, e o colono europeu veio para realizar um negócio com mão de obra indígena e de africanos escravizados. (Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, § 25)

O café e o capital financeiro

Em 1929, o café respondia por 70% das exportações brasileiras, segundo o Arquivo Nacional, e o seu preço caiu no mercado internacional com a crise daquele ano. Em 1906, os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro haviam assinado o Convênio de Taubaté, que deu início à política de valorização do café, isto é, à compra de estoques para segurar o preço. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 17 e 25)

Nelson Werneck Sodré mostra que o valor médio da saca exportada caiu de 4,09 libras, em 1893, para 1,48 libra, em 1899. Para manter os lucros da classe dominante ligada à exportação, os governos estaduais adotaram a valorização, que dependia de empréstimos externos obtidos a alto preço, e os credores assumiram o controle do mercado. Por isso, escreve Sodré, a partir de 1898 o imperialismo ficou instalado oficialmente na política do café, enquanto o peso da valorização era jogado sobre o consumidor. (Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 305 e 306)

A burguesia associada

Florestan Fernandes escreveu, em 1981, que a burguesia nacional e a burguesia externa mantêm uma relação siamesa e deixam de ser divididas e opostas quando o capitalismo atinge o seu apogeu imperialista. Para ele, durante a ditadura a economia brasileira foi multinacionalizada pela cooperação organizada entre capitalistas, militares e burocratas brasileiros e a burguesia mundial. Florestan criticou ainda os partidos de esquerda dos países capitalistas subdesenvolvidos que fizeram da revolução burguesa o seu objetivo central e separaram a burguesia nacional do imperialismo. (Fernandes, O que é revolução?, pp. 55 e 78)

No Brasil

Subdesenvolvimento no Brasil

Em 1929, o café respondia por 70% das exportações brasileiras, e Nelson Werneck Sodré mostra que a sua valorização dependia de empréstimos externos caros, que entregaram o controle do mercado aos credores. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 25; Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 305 e 306)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • SANTOS, Theotonio dos. A teoria da dependência: balanço e perspectivas. 2000. Onde ler: pp. 11 a 13.

    “Se abría camino para comprender el desarrollo y el subdesarrollo como resultado histórico del desarrollo del capitalismo, como un sistema mundial que producía al mismo tiempo desarrollo y subdesarrollo.”

    p. 12

    Ler grátis: A teoria da dependência: balanço e perspectivas ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (19)
  • FatoO café, que respondia por 70% das exportações brasileiras, teve o preço diminuído no mercado internacional com a crise de 1929, que derrubou a política de valorização do café iniciada em 1906 com o Convênio de Taubaté.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 25
  • FatoO financiamento do Convênio de Taubaté viabilizou a compra de cerca de oito milhões de sacas de café, quase metade da safra.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 17
  • FatoEm 1906 foi concluído o Convênio de Taubaté, assinado pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com apoio do Congresso Nacional.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 17
  • Interpretação · Caio Prado JúniorNa essência da formação, o Brasil se constituiu para fornecer açúcar, tabaco e outros gêneros, depois ouro e diamantes, algodão e café ao comércio europeu, e a sociedade e a economia se organizaram para esse objetivo exterior, com mão de obra recrutada entre indígenas e negros importados.Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, § 25
  • Interpretação · Florestan FernandesA economia e a sociedade brasileiras foram multinacionalizadas com a cooperação organizada entre capitalistas, militares e burocratas brasileiros e a burguesia mundial, e o Estado burguês converteu-se na ditadura civil-militar.Fernandes, O que é revolução?, p. 78
  • Interpretação · Florestan FernandesNos países capitalistas subdesenvolvidos, vários partidos de esquerda e os partidos comunistas conferiram à revolução burguesa o caráter de objetivo central; onde a revolução proletária venceu, as forças revolucionárias deixaram de separar a burguesia nacional do imperialismo.Fernandes, O que é revolução?, p. 55
  • Interpretação · Florestan FernandesBurguesia nacional e burguesia externa têm uma relação siamesa e não são mais divididas e opostas quando o capitalismo atinge o seu apogeu imperialista.Fernandes, O que é revolução?, p. 78
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniA dependência é uma relação de subordinação entre nações formalmente independentes, em cujo marco as relações de produção das nações subordinadas são modificadas ou recriadas para assegurar a reprodução ampliada da dependência.Marini, Dialética da dependência, p. 9
  • Interpretação · Ruy Mauro Marini, com dados de J. A. Barboza-CarneiroEntre 1902 e 1913, o valor das exportações brasileiras aumentou 79,6% e a dívida externa, 144,6%, e o serviço da dívida representava em 1913 60% do gasto público total.Marini, Dialética da dependência, p. 9, nota 3
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniA partir do século XIX, as relações da América Latina com os centros capitalistas europeus se inserem numa estrutura definida, a divisão internacional do trabalho, que determina o curso do desenvolvimento ulterior da região.Marini, Dialética da dependência, p. 9
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniO fruto da dependência só pode ser mais dependência, e a fórmula de André Gunder Frank sobre o desenvolvimento do subdesenvolvimento é impecável.Marini, Dialética da dependência, p. 9
  • Interpretação · Theotonio dos SantosA literatura anterior à teoria da dependência via o subdesenvolvimento como ausência de desenvolvimento, e o atraso era explicado pelos obstáculos ao pleno desenvolvimento e à modernização.Santos, A teoria da dependência, p. 11
  • Interpretação · Theotonio dos SantosNo início dos anos 1960, essas teorias perdem relevância pela incapacidade do capitalismo de reproduzir experiências bem-sucedidas de desenvolvimento nas ex-colônias; mesmo os países latino-americanos de crescimento elevado pareciam destinados a acumular miséria, analfabetismo e distribuição de renda desastrosa.Santos, A teoria da dependência, p. 11
  • Interpretação · Theotonio dos Santos, com Blomström e HettneAs ideias centrais da escola da dependência são que o subdesenvolvimento está ligado à expansão dos países industrializados, que desenvolvimento e subdesenvolvimento são aspectos de um mesmo processo universal, que o subdesenvolvimento não é a condição primeira de um processo evolucionista e que a dependência também se manifesta na estrutura interna.Santos, A teoria da dependência, p. 13
  • Interpretação · Theotonio dos SantosAbria-se caminho para compreender o desenvolvimento e o subdesenvolvimento como resultado histórico do desenvolvimento do capitalismo, como um sistema mundial que produzia ao mesmo tempo desenvolvimento e subdesenvolvimento.Santos, A teoria da dependência, p. 12
  • Interpretação · Nelson Werneck SodréA política econômica da valorização do café atirava ao consumidor ônus cada vez mais pesados.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 305
  • Interpretação · Nelson Werneck SodréA partir de 1898, o imperialismo está instalado oficialmente na política do café.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 306
  • Interpretação · Nelson Werneck SodréO valor médio da saca de café exportada foi de 4,09 libras em 1893, de 2,91 libras em 1896 e de 1,48 libra em 1899.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 305
  • Interpretação · Nelson Werneck SodréCoube aos governos estaduais a política da valorização do café, para manter os lucros da classe dominante ligada à exportação, e ela exigia o apoio externo do capital financeiro, com empréstimos obtidos a alto preço cujos fornecedores assumiram o controle do mercado.Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 305 e 306

Fontes desta página

  1. SANTOS, Theotonio dos. A teoria da dependência: balanço e perspectivas. 2000. Abrir ↗
  2. MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. 1973. Abrir ↗
  3. PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 1942. Abrir ↗
  4. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  5. SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
  6. FERNANDES, Florestan. O que é revolução? 1981. Abrir ↗
  7. Caio Prado Júnior. Sentido da colonização (capítulo de Formação do Brasil contemporâneo, 1942; transcrição da Revista Movimento), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Florestan Fernandes. O que é revolução? (1981; na cartilha Realidade brasileira da Fundação Perseu Abramo e do MAB). marxists.org. Abrir ↗
  9. Ruy Mauro Marini. Dialéctica de la dependencia, com o pós-escrito En torno a Dialéctica de la dependencia (PDF do Archivo de Ruy Mauro Marini, UNAM). marini-escritos.unam.mx. Abrir ↗
  10. Theotonio dos Santos. La teoría de la dependencia: balance y perspectivas (versão preliminar, trad. de Mónica Bruckmann; repositório do IIEc-UNAM). ru.iiec.unam.mx. Abrir ↗
  11. Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗