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Conceitos / Imperialismo e soberania / Imperialismo

Centro e periferia

Em poucas palavras

Centro e periferia é a divisão do mundo capitalista entre países industriais que concentram a riqueza e países subordinados que lhes fornecem alimentos, matérias-primas e valor. Marx descreveu a divisão internacional do trabalho imposta pela grande indústria, e Lênin, os países formalmente independentes e financeiramente dependentes. Marini mostrou que a troca desigual transfere mais-valia da periferia para o centro.

Eixo e tema
Imperialismo e soberania · Imperialismo
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

A nova divisão internacional do trabalho

Em O capital, Marx mostra que a grande indústria, com produtos baratos e transportes revolucionados, conquista mercados estrangeiros e, ao arruinar o artesanato desses países, os transforma à força em campos de produção das suas matérias-primas. Assim, conta Marx, as Índias Orientais foram coagidas a produzir algodão, lã, cânhamo, juta e anil para a Grã-Bretanha, e a Austrália virou um viveiro de lã. Nasce então uma nova divisão internacional do trabalho, que converte uma parte do globo num campo de produção sobretudo agrícola para a outra parte, que fica como campo de produção sobretudo industrial. (Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 7, § 6)

Ruy Mauro Marini chama de centros capitalistas os países industriais da Europa com os quais a América Latina passou a se relacionar, no século XIX, dentro dessa divisão do trabalho. Ele explica que o grande aumento da classe operária e da população urbana desses países não teria sido possível sem os alimentos fornecidos em boa parte pela América Latina, que assim ajudou a especializá-los como produtores mundiais de manufaturas. À oferta de alimentos se juntou, logo depois, a de matérias-primas para a indústria. (Marini, Dialética da dependência, pp. 9 e 12)

Marx e as ferrovias da Índia

Em 1853, Marx escreveu que a burguesia industrial inglesa cobria a Índia de ferrovias com o objetivo de baratear o transporte do algodão e de outras matérias-primas para as suas fábricas. Ele previa, porém, que a rede ferroviária exigiria indústrias para atendê-la e se tornaria, na Índia, um verdadeiro precursor da indústria moderna. (Marx, Os resultados futuros da dominação britânica na Índia, § 21 da página do MIA)

Em 1881, numa carta a Nikolai Danielson, o tradutor russo de O capital, Marx descreveu o que a Índia pagava à Inglaterra. O que os ingleses tiravam dos indianos todo ano em rendas, em dividendos de ferrovias inúteis para eles e em pensões, sem nenhum equivalente, somava mais que a renda total dos 60 milhões de trabalhadores agrícolas e industriais da Índia, e Marx chamou isso de processo de sangria. (Marx, Carta a Nikolai Danielson, 19 de fevereiro de 1881, § 9 da página do MIA)

Países formalmente independentes

Lênin mostrou, em 1916, que a época do capital financeiro cria formas variadas de países dependentes, formalmente independentes do ponto de vista político, mas enredados nas malhas da dependência financeira e diplomática. Ele citava, a partir de um economista alemão, a América do Sul, e sobretudo a Argentina, como exemplo de dependência financeira em relação a Londres. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, §§ 25 e 26)

Para Marini, quando nações que produzem manufaturas trocam com nações que produzem matérias-primas, as primeiras conseguem vender os seus produtos por preços acima do valor, o que ele chama de intercâmbio desigual. Nessa troca, a transferência de valor esconde uma transferência de mais-valia, isto é, do valor gerado pela exploração do trabalho dentro de cada nação, e o que elevou a taxa de lucro nos países industriais teve efeito oposto na América Latina. (Marini, Dialética da dependência, pp. 23 e 26)

Florestan Fernandes escreveu, em 1981, que o capitalismo monopolista desenvolve processos de autodefesa agressiva que vão do centro para a periferia e se exacerbam nesta, onde o regime de classes não consegue preservar certos fluxos democráticos da república burguesa. Ele apontou ainda a drenagem de recursos e de riqueza da periferia por mecanismos instalados nos setores mais dinâmicos das economias periféricas, com uma taxa de exploração muito mais alta. (Fernandes, O que é revolução?, p. 78)

O clima e as responsabilidades diferenciadas

A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, de 1992, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 2.652, de 1998, manda as partes protegerem o sistema climático com base na equidade e nas suas responsabilidades comuns mas diferenciadas. Por isso, diz o texto, os países desenvolvidos devem tomar a iniciativa no combate à mudança do clima e aos seus efeitos negativos. (Presidência da República, Decreto nº 2.652, de 1º de julho de 1998, art. 3, item 1)

No Brasil

Centro e periferia no Brasil

O Brasil promulgou em 1998 a Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima, que manda os países desenvolvidos tomarem a iniciativa no combate à mudança do clima, com base em responsabilidades comuns mas diferenciadas. (Presidência da República, Decreto nº 2.652, de 1º de julho de 1998, art. 3, item 1, da Convenção)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 13, seção 7, § 6.

    “E criada uma nova divisão internacional do trabalho, correspondente aos principais centros do funcionamento com máquinas, que converte uma parte do globo num campo de produção preferencialmente agrícola para a outra enquanto campo de produção preferencialmente industrial.”

    Livro I, cap. 13, seção 7, § 6

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (14)
  • Interpretação · Karl MarxÉ criada uma nova divisão internacional do trabalho, correspondente aos principais centros do funcionamento com máquinas, que converte uma parte do globo num campo de produção preferencialmente agrícola para a outra, enquanto campo de produção preferencialmente industrial.Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 7, § 6
  • Interpretação · Karl MarxAs Índias Orientais foram coagidas a produzir algodão, lã, cânhamo, juta e índigo para a Grã-Bretanha, e a Austrália foi transformada num viveiro de lã.Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 7, § 6
  • Interpretação · Karl MarxO barateamento do produto feito à máquina e o sistema de transportes revolucionado são armas para a conquista de mercados estrangeiros, e a ruína do produto artesanal desses países os transforma coercivamente em campos de produção da matéria-prima da indústria.Marx, O capital, Livro I, cap. 13, seção 7, § 6
  • FatoAs partes devem proteger o sistema climático com base na equidade e em conformidade com as suas responsabilidades comuns mas diferenciadas e respectivas capacidades, e os países desenvolvidos devem tomar a iniciativa no combate à mudança do clima e aos seus efeitos negativos.Presidência da República, Decreto nº 2.652, de 1º de julho de 1998, art. 3, item 1, da Convenção
  • Interpretação · Karl MarxO que os ingleses tiram anualmente da Índia em rendas, dividendos de ferrovias inúteis para os hindus e pensões, sem nenhum equivalente, soma mais que a renda total dos 60 milhões de trabalhadores agrícolas e industriais da Índia, num processo de sangria.Marx, Carta a Nikolai Danielson, 19 de fevereiro de 1881, § 9 da página do MIA
  • Interpretação · Florestan FernandesHá uma universalidade de processos de autodefesa agressiva do capitalismo que vai do centro para a periferia e se exacerba nesta, onde o regime de classes não pode preservar certos fluxos democráticos da república burguesa.Fernandes, O que é revolução?, p. 78
  • Interpretação · Florestan FernandesHá drenagem de recursos materiais e de riqueza da periferia por mecanismos implantados nas estruturas mais dinâmicas e produtivas das economias periféricas estratégicas, com a institucionalização de uma taxa de exploração muito mais alta.Fernandes, O que é revolução?, p. 78
  • Interpretação · Karl MarxA burguesia industrial inglesa procura cobrir a Índia de vias férreas para baratear o transporte do algodão e de outras matérias-primas para as suas fábricas, mas o sistema ferroviário se converterá na Índia num verdadeiro precursor da indústria moderna.Marx, Os resultados futuros da dominação britânica na Índia, § 21 da página do MIA
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninSegundo Schulze-Gaevernitz, citado por Lênin, a América do Sul, e sobretudo a Argentina, encontrava-se em tal dependência financeira de Londres que quase podia ser chamada de colônia comercial inglesa.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 26
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA época do capital financeiro origina formas variadas de países dependentes que, do ponto de vista formal e político, gozam de independência, mas estão enredados nas malhas da dependência financeira e diplomática.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 25
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniO forte crescimento da classe operária industrial e da população urbana dos países industriais no século XIX não teria ocorrido sem os meios de subsistência de origem agropecuária fornecidos em boa parte pela América Latina, o que permitiu especializar esses países como produtores mundiais de manufaturas; à oferta de alimentos se agregou a contribuição a um mercado de matérias-primas industriais.Marini, Dialética da dependência, p. 12
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniA partir do século XIX, as relações da América Latina com os centros capitalistas europeus se inserem na divisão internacional do trabalho, que determina o curso do desenvolvimento ulterior da região.Marini, Dialética da dependência, p. 9
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniNas transações entre nações que trocam manufaturas e matérias-primas, o fato de umas produzirem bens que as outras não produzem permite que as primeiras vendam os seus produtos por preços superiores ao valor, configurando um intercâmbio desigual.Marini, Dialética da dependência, p. 23
  • Interpretação · Ruy Mauro MariniNo intercâmbio entre nações, a transferência de valor é uma transferência de mais-valia gerada pela exploração do trabalho no interior de cada nação, e o processo que elevou a taxa de mais-valia e de lucro nos países industriais teve na América Latina efeitos rigorosamente opostos.Marini, Dialética da dependência, p. 26

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. 1973. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. Os resultados futuros da dominação britânica na Índia. 1853. Abrir ↗
  4. MARX, Karl. Carta a Nikolai Danielson, 19 de fevereiro de 1881. Trad. Donna Torr. Nova York: International Publishers (Marx and Engels Correspondence), 1968. Abrir ↗
  5. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O imperialismo, fase superior do capitalismo. 1917. Abrir ↗
  6. FERNANDES, Florestan. O que é revolução? 1981. Abrir ↗
  7. Presidência da República. Decreto nº 2.652, de 1º de julho de 1998 (promulga a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima). planalto.gov.br, 01/07/1998. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 13, seção 7. Repulsão e atracção de operários com o desenvolvimento do funcionamento com máquinas (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Marx to Nikolai Danielson, 19 February 1881 (Marx and Engels Correspondence, International Publishers, 1968), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Florestan Fernandes. O que é revolução? (1981; na cartilha Realidade brasileira da Fundação Perseu Abramo e do MAB). marxists.org. Abrir ↗
  11. Karl Marx. Futuros resultados do domínio britânico na Índia (22 de julho de 1853, com a ficha da edição da Vitória), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI. A partilha do mundo entre as grandes potências, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Ruy Mauro Marini. Dialéctica de la dependencia, com o pós-escrito En torno a Dialéctica de la dependencia (PDF do Archivo de Ruy Mauro Marini, UNAM). marini-escritos.unam.mx. Abrir ↗