Explicação
A fórmula de Lênin
Em Duas táticas da social-democracia na revolução democrática, escrito em 1905, Lênin discute com os mencheviques quem deveria levar adiante a revolução contra o czarismo. Para ele, a burguesia apoiava a revolução de modo inconsequente, e a revolução russa só ganharia toda a sua amplitude quando a massa do campesinato entrasse nela como força ativa ao lado do proletariado. (Lênin, Duas táticas da social-democracia na revolução democrática, seção 12, §§ 16 e 20)
Lênin resumiu a tarefa em duas etapas. Na revolução democrática, o proletariado devia atrair a si a massa do campesinato para vencer a resistência da autocracia e neutralizar as vacilações da burguesia. Na revolução socialista, devia atrair a massa dos semiproletários, que Lênin definiu em 1920 como os que ganham o sustento em parte com trabalho assalariado e em parte trabalhando numa terra própria ou arrendada, para vencer a resistência da burguesia e neutralizar as vacilações do campesinato e da pequena burguesia. (Lênin, Duas táticas da social-democracia na revolução democrática, seção 12, § 21; Lênin, Esboço inicial das teses sobre a questão agrária para o II Congresso da Internacional Comunista, tese 2)
Em O programa agrário da social-democracia, de 1907, Lênin observa que, durante a revolução de 1905 a 1907, a massa camponesa da Rússia se pronunciou pela nacionalização da terra, isto é, pela abolição da propriedade privada do solo. Para ele, essa era a expressão da necessidade econômica de romper com a servidão no campo. (Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, § 10)
Nas teses sobre a questão agrária que preparou para a Internacional Comunista em 1920, Lênin escreveu que só o proletariado urbano e industrial, dirigido pelo Partido Comunista, pode libertar as massas trabalhadoras do campo do jugo do capital e dos latifundiários, e que essas massas não têm outra salvação senão a aliança com ele. Os operários, por sua vez, só cumprem a sua missão se não se fecharem nos interesses da própria profissão e agirem como vanguarda de todos os explorados. Para Lênin, o proletariado agrícola, os semiproletários e os pequenos camponeses formam juntos a maioria da população rural nos países capitalistas. (Lênin, Esboço inicial das teses sobre a questão agrária para o II Congresso da Internacional Comunista, teses 1, 2 e 3)
A aliança no poder
Em 18 de novembro (1º de dezembro) de 1917, Lênin escreveu que a aliança dos bolcheviques com os socialistas-revolucionários de esquerda, partido em que muitos camponeses confiavam, podia ser uma aliança honesta. Segundo ele, não há divergência radical entre os interesses dos operários assalariados e os dos camponeses trabalhadores e explorados, e só o socialismo pode satisfazer plenamente os interesses de uns e outros. Por isso, nas medidas de transição, como o usufruto igualitário da terra, os operários deviam fazer concessões aos pequenos camponeses, desde que não prejudicassem a causa do socialismo. (Lênin, A aliança dos operários com os camponeses trabalhadores e explorados, §§ 1, 3, 5 e 7)
A Constituição da República Soviética da Rússia, de 1918, definiu o poder do período de transição como uma ditadura do proletariado urbano e rural e do campesinato mais pobre. Em 1923, Lênin escreveu que a guerra permitiu realizar na Rússia a aliança da guerra camponesa com o movimento operário, perspectiva que Marx tinha considerado para a Alemanha numa carta a Engels de 1856. (Constituição da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, art. 9; Lênin, Sobre a nossa revolução, § 8 e nota N334)
Divergências
Rosa Luxemburgo, em 1918, viu na tomada e divisão direta da terra pelos camponeses um excelente movimento tático, que ligou os camponeses ao governo revolucionário. Mas, para ela, a medida não tinha nada de socialista, porque transformou grandes propriedades em pequenas propriedades privadas e criou no campo uma nova e poderosa camada de inimigos do socialismo. (Luxemburgo, A Revolução Russa, cap. 2, §§ 2, 9 e 15)
Mao Tsé-tung, no relatório de 1927 sobre o movimento camponês na província de Hunan, distingue camponeses ricos, médios e pobres, que vivem em condições diferentes e por isso veem a revolução de modos diferentes. Para ele, os camponeses pobres eram a força principal da luta no campo e os que melhor aceitavam a direção do Partido Comunista, e segundo o recenseamento do distrito de Tchancha eram setenta por cento da população rural. (Mao, Relatório sobre uma investigação feita no Hunan a respeito do movimento camponês, seção Vanguarda da revolução, §§ 2 e 4)
No Brasil
Octávio Brandão, em Agrarismo e industrialismo, de 1926, escreveu que a revolução proletária fundiria o operário com o camponês, a cidade com o campo e o martelo com a foice. Num artigo de 1957, ele conta que, entre 1924 e 1928, o partido procurou aliados, entrou em grupos de camponeses do interior de São Paulo e organizou ligas camponesas. (Brandão, Agrarismo e industrialismo, p. 139; Brandão, Uma etapa da história de lutas, pp. 190 e 191)
No mesmo artigo, Brandão fez uma autocrítica. Segundo ele, o partido daqueles anos subestimou a importância dos camponeses, superestimou a força revolucionária da pequena burguesia e pôs à frente o Bloco Operário e Camponês no lugar do próprio partido. (Brandão, Uma etapa da história de lutas, pp. 192 e 193)
No informe ao IV Congresso do partido, publicado em 1954, Luiz Carlos Prestes escreveu que a aliança dos operários com os camponeses, a esmagadora maioria da população, era a base indestrutível da frente democrática de libertação nacional que o partido propunha. Ele reconhecia que era quase tradicional, nas fileiras do partido, subestimar o trabalho entre os camponeses e os assalariados agrícolas. (Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, parte II, §§ 10 e 48)
Caio Prado Júnior, em A revolução brasileira, de 1966, criticou essa tese. Para ele, ler a economia agrária brasileira como resto do feudalismo levava à conclusão errada de que os trabalhadores rurais lutavam antes de tudo pela posse da terra, quando a maior parte deles era empregada nas grandes explorações de cana, café, algodão e cacau e lutava por melhores condições de trabalho e emprego. Caio Prado via nessa teoria uma cópia do figurino europeu e russo da revolução antifeudal. (Prado Júnior, A revolução brasileira, §§ 5, 6 e 9 da página do MIA)