Pular para o conteúdo

Conceitos / Economia política / Demanda e crise

Salário e demanda

Em poucas palavras

O salário é custo para cada capitalista, mas a venda de tudo o que o capital produz depende do consumo da sociedade. Marx mostrou que a venda do que o capital produz esbarra no consumo da maioria, limitado pela distribuição desigual, e advertiu que salário maior não basta para evitar crises. Kalecki defendeu gasto público e apoio ao consumo de massa para chegar ao pleno emprego.

Eixo e tema
Economia política · Demanda e crise
Nível
Intermediário
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista, de Karl Marx
Na trilha
Economia política em 4 passos, passo 3
Relacionados
SalárioCrise capitalistaConflito distributivoPreços e custosExército de reservaPleno empregoAusteridadeDireitos universais

Explicação

O limite do consumo

No livro III de O capital, Marx separa a produção da mais-valia da sua realização, isto é, da venda das mercadorias que a contêm. A produção só é limitada pela força produtiva da sociedade, e a venda é limitada pela proporção entre os ramos e pelo poder de consumo da sociedade. Esse poder de consumo depende de condições antagônicas de distribuição, que reduzem o consumo da grande maioria a um mínimo que só varia dentro de limites estreitos. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8)

O consumo também é freado pelo impulso a acumular, porque cada capitalista precisa ampliar o capital e a produção sob pena de ruína. Por isso o mercado precisa crescer sem parar, e Marx escreve que, quanto mais a produtividade se desenvolve, mais ela entra em conflito com a base estreita em que repousam as condições de consumo. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8)

O que muda quando o salário sobe

Em Salário, preço e lucro, Marx examina o que acontece com a procura quando todos os salários sobem. Os trabalhadores gastam mais em artigos de primeira necessidade, mas o aumento do poder de compra deles corresponde exatamente à diminuição do poder de compra dos capitalistas. A procura global não aumenta, e o que muda são os seus elementos, com mais artigos de primeira necessidade e menos artigos de luxo. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 6, 8 e 9)

Marx também rejeita a ideia de que as crises viriam da falta de consumidores com dinheiro e se resolveriam dando aos trabalhadores uma parte maior do produto. Para ele, essa explicação é uma tautologia, e as crises costumam ser preparadas justamente por períodos em que os salários sobem. A prosperidade relativa dos trabalhadores aparece, assim, como anúncio da crise que vem. (Marx, O capital, Livro II, cap. 20, seção IV, § 37)

Kalecki e a demanda efetiva

O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, expôs em 1943 a doutrina de que o governo pode levar a economia ao pleno emprego gastando mais. Se o governo investe em escolas, hospitais e estradas ou subsidia o consumo de massa com abonos familiares e preços baixos dos bens de primeira necessidade, financiando o gasto com empréstimos, a demanda efetiva, isto é, a procura com dinheiro para pagar, cresce até o pleno emprego. A renda maior que resulta desse gasto aumenta de novo a procura por bens de consumo e de investimento. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 2)

Kalecki observa que os líderes empresariais combatem o subsídio ao consumo de massa com mais violência do que o investimento público, porque a ética capitalista exige que cada um ganhe o pão com o próprio suor, a menos que tenha meios privados. Ele descreve um ciclo político em que o governo gasta para sair da crise e depois, pressionado pelo grande capital e pelos rentistas, volta a cortar o déficit, como aconteceu nos Estados Unidos em 1937 e 1938. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 15, 28, 29 e 30)

Subconsumo em debate

O economista Francisco Paulo Cipolla expõe o argumento subconsumista, comum em Sweezy, segundo o qual o capital investe cada vez mais em máquinas e acaba produzindo mais bens de consumo do que trabalhadores e capitalistas conseguem comprar. Ele registra a crítica de Shaikh, para quem esse raciocínio trata a produção de máquinas como simples meio de produzir bens de consumo. Cipolla lembra ainda que Lênin usou a análise da reprodução do livro II de O capital para mostrar, contra os populistas russos, como se forma o mercado interno do capitalismo. (Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 84)

No Brasil

Em 2023, a despesa de consumo das famílias somou R$ 6,89 trilhões, 62,9% do PIB de R$ 10,94 trilhões, pela nossa conta com os valores das contas nacionais do IBGE. Desde 2024, a Lei nº 14.663, de 2023, reajusta o salário mínimo pela inflação do ano anterior e acrescenta um aumento real igual ao crescimento do PIB de dois anos antes. (IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5; Congresso Nacional, Lei nº 14.663, de 28 de agosto de 2023, art. 3º)

No Brasil

Salário e demanda no Brasil

Em 2023, a despesa de consumo das famílias somou R$ 6,89 trilhões, 62,9% do PIB, pelas contas nacionais do IBGE (a proporção é cálculo nosso). (IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5, ótica da despesa, 2023; Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (16)
  • Interpretação · Karl MarxO consumo é ainda restringido pela tendência a acumular e pela necessidade de ampliar a produção sob pena de ruína; o mercado precisa ser continuamente ampliado, e quanto mais a produtividade se desenvolve, mais entra em conflito com a base estreita das condições de consumo.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8
  • Interpretação · Francisco Paulo CipollaLênin, servindo-se da análise da reprodução do livro II de O capital, procurou mostrar como se desenvolve o mercado interno para o capitalismo russo, que os populistas reputavam impossível.Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 84
  • Interpretação · Francisco Paulo CipollaO defeito desse raciocínio, apontado por Shaikh, é conceber a produção de máquinas e equipamentos como simples meio de produzir meios de consumo.Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 84
  • Interpretação · Francisco Paulo CipollaNo argumento subconsumista padrão, apresentado por Sweezy e outros, cresce a parte da mais-valia aplicada em máquinas e equipamentos, o que só aumenta a produção de meios de consumo que nem os trabalhadores nem os capitalistas conseguem absorver.Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 84
  • Interpretação · Karl MarxO aumento do poder aquisitivo dos operários, consequência da elevação dos salários, corresponde exatamente à diminuição do poder aquisitivo dos capitalistas; a procura global não aumentaria, e apenas mudariam os seus elementos.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 9
  • FatoEm 2023, a despesa de consumo das famílias foi de R$ 6.886.025,6 milhões e o PIB de R$ 10.943.345 milhões, a valores correntes; a proporção de 62,9% é cálculo nosso.IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5, ótica da despesa
  • Interpretação · Michał KaleckiNa crise, o investimento público financiado por empréstimos será adotado; no boom seguinte, uma aliança entre grandes negócios e rentistas pressionaria o governo a reduzir o déficit, seguindo-se nova queda, como aconteceu nos Estados Unidos em 1937 e 1938.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 28, 29 e 30
  • Interpretação · Michał KaleckiSob pleno emprego permanente, as demissões perderiam o papel de medida disciplinar, e a disciplina nas fábricas e a estabilidade política são mais apreciadas do que os lucros pelos líderes empresariais.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16
  • Interpretação · Michał KaleckiSe o governo realiza investimentos públicos ou subsidia o consumo de massa e financia essas despesas por empréstimo, a demanda efetiva pode aumentar até o pleno emprego, e a renda mais alta gera um aumento secundário na demanda por bens de consumo e de investimento.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 2
  • Interpretação · Michał KaleckiSubsidiar o consumo de massa é combatido muito mais violentamente pelos líderes empresariais do que o investimento público, porque os fundamentos da ética capitalista exigem que cada um ganhe o pão com o seu suor, a menos que tenha meios privados.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 15
  • FatoA Lei nº 14.663, de 28 de agosto de 2023, estabeleceu a política de valorização do salário mínimo a partir de 2024, somando a inflação do ano anterior ao crescimento real do PIB de dois anos antes.Congresso Nacional, Lei nº 14.663, de 28 de agosto de 2023, art. 3º
  • Interpretação · Karl MarxDepois da alta geral dos salários, uma parte maior da produção seria de artigos de primeira necessidade e diminuiria a de artigos de luxo, sem alteração permanente nos preços.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 8
  • Interpretação · Karl MarxA realização é limitada pela proporção entre os ramos de produção e pelo poder de consumo da sociedade, que não é determinado pela força produtiva absoluta nem pelo poder de consumo absoluto, mas pelo poder de consumo baseado em condições antagônicas de distribuição, que reduzem o consumo da maioria a um mínimo variável dentro de limites estreitos.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8
  • Interpretação · Karl MarxA classe operária gasta a sua receita em artigos de primeira necessidade, e uma alta geral dos salários aumentaria a procura e os preços desses artigos.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 6
  • Interpretação · Karl MarxA produção da mais-valia é apenas o primeiro ato do processo; toda a massa de mercadorias precisa ser vendida, e as condições da exploração direta e as da sua realização divergem no tempo, no espaço e na lógica.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8
  • Interpretação · Karl MarxDizer que as crises vêm da escassez de consumo solvente é tautologia; se se disser que a classe operária recebe parte pequena do produto e que o mal se remediaria com salários maiores, basta notar que as crises são sempre preparadas por um período de alta geral dos salários, e essa prosperidade relativa é só o arauto da crise que vem.Marx, O capital, Livro II, cap. 20, seção IV, § 37

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. Salário, preço e lucro. 1865. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro II: o processo de circulação do capital. Trad. I. Lasker. Moscou: Progress Publishers, 1956. Abrir ↗
  4. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  5. CIPOLLA, Francisco Paulo. Genealogia das teorias marxistas de crise. Belo Horizonte: Nova Economia (UFMG), v. 28, n. 1, pp. 71-101, 2018. Abrir ↗
  6. IBGE. Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5: componentes do PIB sob as três óticas, 2000-2023 (planilha). ftp.ibge.gov.br, 06/11/2025. Abrir ↗
  7. Congresso Nacional. Lei nº 14.663, de 28 de agosto de 2023 (valorização permanente do salário mínimo). planalto.gov.br, 28/08/2023. Abrir ↗
  8. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 15. Exposition of the Internal Contradictions of the Law, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Francisco Paulo Cipolla. Genealogia das teorias marxistas de crise (Nova Economia, 2018), cópia do Redalyc. redalyc.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 2. Produção, salários, lucros, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx. Capital, Volume Two, Chapter 20. Simple Reproduction (part 1 of 4), no MIA. marxists.org. Abrir ↗