Explicação
Do concreto ao abstrato, e de volta
Na Introdução de 1857, Marx observa que parece correto começar o estudo de um país pela população, mas que a população é uma abstração se deixamos de lado as classes que a formam. As classes, por sua vez, são uma palavra vazia sem os elementos em que se apoiam, como o trabalho assalariado e o capital. Por isso, o caminho da ciência parte do todo como ele aparece, desce até as determinações mais simples e depois faz a viagem de volta, até reencontrar a população como uma rica totalidade de muitas determinações e relações. (Marx, O método da economia política, § 7 da página do MIA)
Para Marx, o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, a unidade do múltiplo, e por isso aparece no pensamento como resultado, embora seja o ponto de partida real. Elevar-se do abstrato ao concreto é a maneira de o pensamento se apropriar do concreto e reproduzi-lo, e Hegel errou ao tomar esse caminho do pensamento pelo processo que cria o próprio real. Marx acrescenta que até as categorias mais abstratas, como a de trabalho, são produto de relações históricas e só têm plena validade dentro delas. (Marx, O método da economia política, §§ 8, 9 e 15 da página do MIA)
Investigar antes de expor
No posfácio de 1873 a O capital, Marx distingue o modo de exposição do modo de investigação. A investigação precisa se apropriar do material em pormenor, analisar as suas formas de desenvolvimento e seguir o seu vínculo interno, e só depois disso o movimento real pode ser exposto. (Marx, O capital, Livro I, posfácio à segunda edição, § 27)
No mesmo texto, Marx diz que o seu método dialético é o oposto do de Hegel, porque, para ele, a ideia é o material transposto e traduzido na cabeça humana. Na sua forma racional, a dialética apreende cada forma no fluir do movimento e pelo seu lado passageiro, inclui na compreensão do que existe a compreensão da sua decadência necessária e, por isso, é crítica e revolucionária. (Marx, O capital, Livro I, posfácio à segunda edição, §§ 28 e 30)
Um guia para o estudo
Em 1877, Marx protestou contra um crítico russo que transformava o seu esboço da gênese do capitalismo na Europa Ocidental numa teoria da marcha geral imposta a todos os povos. Ele lembrou que fatos parecidos em meios históricos diferentes levam a resultados distintos, como em Roma, onde os camponeses expropriados viraram uma massa de desocupados, e não operários assalariados. Para Marx, a chave se acha estudando cada caso em separado e comparando os casos, e nunca com o passaporte universal de uma teoria que se pretende acima da história. (Marx, Carta ao diretor da revista russa Otiechéstvennie Zapiski, §§ 6 e 7 da página do MIA)
Friedrich Engels escreveu em 1890, numa carta a Conrad Schmidt, que a concepção materialista da história é antes de tudo uma diretiva para o estudo e recusou que ela servisse de alavanca para construções à maneira dos hegelianos. Segundo ele, a história inteira tem de ser estudada de novo, e as condições de existência de cada formação social precisam ser investigadas em pormenor antes de se deduzir delas as ideias políticas, jurídicas, filosóficas e religiosas que lhes correspondem. (Engels, Carta a Conrad Schmidt, § 5 da página do MIA)
Em 1874, num aditamento ao prefácio de As guerras camponesas na Alemanha, Engels pediu aos dirigentes operários que nunca esquecessem que o socialismo, desde que se tornou ciência, quer ser estudado como ciência. No mesmo texto, ele elogiou o movimento operário alemão por conduzir a luta em três direções ao mesmo tempo, a teórica, a política e a econômico-prática. (Engels, As guerras camponesas na Alemanha, prefácio, §§ 46 e 47 da página do MIA)
A análise concreta
Em 1920, Lênin criticou um dirigente húngaro que se apoiava em citações de Marx referentes a uma situação diferente da presente. Com isso, escreveu Lênin, ele se esquivava daquilo que constitui a própria essência do marxismo, a sua alma viva, que é a análise concreta da situação concreta. (Lênin, Kommunismus, revista da Internacional Comunista para os países do Sudeste Europeu, § 11 da página do MIA)
György Lukács escreveu, num ensaio reunido em História e consciência de classe, que a ortodoxia no marxismo não significa aceitar sem crítica os resultados das investigações de Marx nem fazer a exegese de um livro sagrado, porque se refere exclusivamente ao método. Para ele, um marxista ortodoxo poderia aceitar que pesquisas novas derrubassem teses isoladas de Marx sem abandonar a ortodoxia. (Lukács, História e consciência de classe, ensaio What is Orthodox Marxism?, § 4 da página do MIA)
No Brasil
Em A revolução brasileira, de 1966, Caio Prado Júnior criticou a conclusão do PCB de que a revolução no Brasil seria democrático-burguesa e antifeudal, movida por camponeses em luta pela posse da terra. Para ele, essa conclusão copiava o figurino europeu e o da Rússia czarista e chegava à resposta antes de examinar os fatos. Nos principais setores da agropecuária brasileira, mostrou Caio Prado, os trabalhadores eram empregados da grande exploração, que vendiam a sua força de trabalho. (Prado Júnior, A revolução brasileira, §§ 5, 6 e 9 da página do MIA)