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Conceitos / Teoria e história do socialismo / Materialismo histórico

Método

Em poucas palavras

Método é o modo marxista de estudar a sociedade, que parte do todo, desce às determinações mais simples e volta ao concreto como síntese de muitas determinações. Marx e Engels pediam que a teoria servisse de guia para o estudo de cada caso. Lênin chamou de alma viva do marxismo a análise concreta da situação concreta.

Eixo e tema
Teoria e história do socialismo · Materialismo histórico
Obra principal
O método da economia política (Introdução de 1857, seção 3), de Karl Marx

Explicação

Do concreto ao abstrato, e de volta

Na Introdução de 1857, Marx observa que parece correto começar o estudo de um país pela população, mas que a população é uma abstração se deixamos de lado as classes que a formam. As classes, por sua vez, são uma palavra vazia sem os elementos em que se apoiam, como o trabalho assalariado e o capital. Por isso, o caminho da ciência parte do todo como ele aparece, desce até as determinações mais simples e depois faz a viagem de volta, até reencontrar a população como uma rica totalidade de muitas determinações e relações. (Marx, O método da economia política, § 7 da página do MIA)

Para Marx, o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, a unidade do múltiplo, e por isso aparece no pensamento como resultado, embora seja o ponto de partida real. Elevar-se do abstrato ao concreto é a maneira de o pensamento se apropriar do concreto e reproduzi-lo, e Hegel errou ao tomar esse caminho do pensamento pelo processo que cria o próprio real. Marx acrescenta que até as categorias mais abstratas, como a de trabalho, são produto de relações históricas e só têm plena validade dentro delas. (Marx, O método da economia política, §§ 8, 9 e 15 da página do MIA)

Investigar antes de expor

No posfácio de 1873 a O capital, Marx distingue o modo de exposição do modo de investigação. A investigação precisa se apropriar do material em pormenor, analisar as suas formas de desenvolvimento e seguir o seu vínculo interno, e só depois disso o movimento real pode ser exposto. (Marx, O capital, Livro I, posfácio à segunda edição, § 27)

No mesmo texto, Marx diz que o seu método dialético é o oposto do de Hegel, porque, para ele, a ideia é o material transposto e traduzido na cabeça humana. Na sua forma racional, a dialética apreende cada forma no fluir do movimento e pelo seu lado passageiro, inclui na compreensão do que existe a compreensão da sua decadência necessária e, por isso, é crítica e revolucionária. (Marx, O capital, Livro I, posfácio à segunda edição, §§ 28 e 30)

Um guia para o estudo

Em 1877, Marx protestou contra um crítico russo que transformava o seu esboço da gênese do capitalismo na Europa Ocidental numa teoria da marcha geral imposta a todos os povos. Ele lembrou que fatos parecidos em meios históricos diferentes levam a resultados distintos, como em Roma, onde os camponeses expropriados viraram uma massa de desocupados, e não operários assalariados. Para Marx, a chave se acha estudando cada caso em separado e comparando os casos, e nunca com o passaporte universal de uma teoria que se pretende acima da história. (Marx, Carta ao diretor da revista russa Otiechéstvennie Zapiski, §§ 6 e 7 da página do MIA)

Friedrich Engels escreveu em 1890, numa carta a Conrad Schmidt, que a concepção materialista da história é antes de tudo uma diretiva para o estudo e recusou que ela servisse de alavanca para construções à maneira dos hegelianos. Segundo ele, a história inteira tem de ser estudada de novo, e as condições de existência de cada formação social precisam ser investigadas em pormenor antes de se deduzir delas as ideias políticas, jurídicas, filosóficas e religiosas que lhes correspondem. (Engels, Carta a Conrad Schmidt, § 5 da página do MIA)

Em 1874, num aditamento ao prefácio de As guerras camponesas na Alemanha, Engels pediu aos dirigentes operários que nunca esquecessem que o socialismo, desde que se tornou ciência, quer ser estudado como ciência. No mesmo texto, ele elogiou o movimento operário alemão por conduzir a luta em três direções ao mesmo tempo, a teórica, a política e a econômico-prática. (Engels, As guerras camponesas na Alemanha, prefácio, §§ 46 e 47 da página do MIA)

A análise concreta

Em 1920, Lênin criticou um dirigente húngaro que se apoiava em citações de Marx referentes a uma situação diferente da presente. Com isso, escreveu Lênin, ele se esquivava daquilo que constitui a própria essência do marxismo, a sua alma viva, que é a análise concreta da situação concreta. (Lênin, Kommunismus, revista da Internacional Comunista para os países do Sudeste Europeu, § 11 da página do MIA)

György Lukács escreveu, num ensaio reunido em História e consciência de classe, que a ortodoxia no marxismo não significa aceitar sem crítica os resultados das investigações de Marx nem fazer a exegese de um livro sagrado, porque se refere exclusivamente ao método. Para ele, um marxista ortodoxo poderia aceitar que pesquisas novas derrubassem teses isoladas de Marx sem abandonar a ortodoxia. (Lukács, História e consciência de classe, ensaio What is Orthodox Marxism?, § 4 da página do MIA)

No Brasil

Em A revolução brasileira, de 1966, Caio Prado Júnior criticou a conclusão do PCB de que a revolução no Brasil seria democrático-burguesa e antifeudal, movida por camponeses em luta pela posse da terra. Para ele, essa conclusão copiava o figurino europeu e o da Rússia czarista e chegava à resposta antes de examinar os fatos. Nos principais setores da agropecuária brasileira, mostrou Caio Prado, os trabalhadores eram empregados da grande exploração, que vendiam a sua força de trabalho. (Prado Júnior, A revolução brasileira, §§ 5, 6 e 9 da página do MIA)

No Brasil

Método no Brasil

Em 1966, Caio Prado Júnior criticou a tese do PCB que aplicava ao Brasil o figurino europeu e russo de revolução antifeudal, porque a maior parte dos trabalhadores das grandes lavouras vendia a sua força de trabalho. (Caio Prado Júnior, A revolução brasileira, § 9 da página do MIA; Prado Júnior, A revolução brasileira, §§ 5, 6 e 9 da página do MIA)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O método da economia política (Introdução de 1857, seção 3). 1857. Onde ler: §§ 7 a 9 e 15 da página do MIA.

    “O concreto é concreto por ser uma síntese de muitas determinações, logo, uma unidade do múltiplo. Eis a razão por que aparece no pensamento como processo de concentração (síntese), como um resultado e não como um ponto de partida, embora ele seja o ponto de partida efetivamente real e, assim, também, o ponto de partida da intuição e da representação.”

    § 8 da página do MIA

    Ler aqui: O método da economia política (Introdução de 1857, seção 3)

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O método da economia política (Introdução de 1857, seção 3). 1857. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. Carta ao diretor da revista russa Otiechéstvennie Zapiski. 1877. Abrir ↗
  4. ENGELS, Friedrich. Carta a Conrad Schmidt (5 de agosto de 1890). Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. III, pp. 542-544), 1982. Abrir ↗
  5. ENGELS, Friedrich. As guerras camponesas na Alemanha. Trad. B. A. Montenegro. Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1946. Abrir ↗
  6. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Kommunismus, revista da Internacional Comunista para os países do Sudeste Europeu. Trad. Pietro Rodrigues. Arquivo Marxista na Internet (tradução e adaptação de Pietro Rodrigues, a partir da versão inglesa), 2026. Abrir ↗
  7. LUKÁCS, György. História e consciência de classe. Trad. Rodney Livingstone. Londres: Merlin Press (History and Class Consciousness), 1967. Abrir ↗
  8. PRADO JÚNIOR, Caio. A revolução brasileira. 1966. Abrir ↗
  9. Caio Prado Júnior. A revolução brasileira (trecho, 1966). marxists.org. Abrir ↗
  10. Friedrich Engels. As guerras camponesas na Alemanha, prefácio do autor (1870, com o aditamento de 1º de julho de 1874), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Vladímir Ilitch Lênin. Kommunismus, revista da Internacional Comunista para os países do Sudeste Europeu (12 de junho de 1920; tradução de Pietro Rodrigues), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. György Lukács. What is Orthodox Marxism? (History and Class Consciousness, tradução de Rodney Livingstone), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Karl Marx. O método da economia política (Introdução de 1857, seção 3; tradução de Fausto Castilho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx. Carta ao diretor da revista russa Otiechéstvennie Zapiski (novembro de 1877; tradução de Cássius M. T. M. B. de Brito), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Karl Marx. O capital, Livro I, posfácio à segunda edição (24 de janeiro de 1873; tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Friedrich Engels. Carta a Conrad Schmidt, 5 de agosto de 1890 (com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗