Explicação
Matéria e pensamento
Em Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, de 1886, Engels escreve que a grande questão fundamental de toda a filosofia é a relação entre o pensar e o ser. Os filósofos que afirmavam que o espírito vem antes da natureza formavam o campo do idealismo, e os que viam a natureza como o ponto de partida pertenciam às escolas do materialismo. Materialismo, nesse sentido filosófico, quer dizer explicar as ideias a partir do mundo material, e não o contrário. (Engels, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, parte II, §§ 1 e 3)
Nas Teses sobre Feuerbach, escritas em 1845, Marx critica o materialismo anterior por tomar a realidade só como objeto de contemplação, e não como atividade humana, como prática. Na segunda tese, ele diz que saber se o pensamento alcança a verdade objetiva é uma questão prática, e não teórica, porque é na prática que o ser humano prova a verdade do que pensa. A décima primeira tese resume a posição dele, ao dizer que os filósofos apenas interpretaram o mundo de maneiras diferentes e que a questão é transformá-lo. (Marx, Teses sobre Feuerbach, teses I, II e XI)
A dialética posta de pé
Engels conta que, para Hegel, a dialética era o autodesenvolvimento do conceito, e o mundo real aparecia como cópia desse movimento das ideias. Marx e Engels inverteram a relação, tomando os conceitos como imagens das coisas reais, e reduziram a dialética à ciência das leis gerais do movimento do mundo exterior e do pensamento humano. Com isso, nas palavras de Engels, a dialética de Hegel, que estava de cabeça para baixo, foi posta de pé, e um operário alemão, Josef Dietzgen, chegou à mesma descoberta por conta própria. (Engels, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, parte IV, § 4)
Para Engels, o grande pensamento que vem dessa dialética é que o mundo deve ser entendido como um conjunto de processos, e não como um conjunto de coisas prontas. As coisas e os conceitos que temos delas estão em mudança contínua, nascem e perecem, e por isso o conhecimento adquirido em cada época tem limites e não vira verdade eterna. (Engels, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, parte IV, § 5)
As leis da dialética
No Anti-Dühring, de 1878, Engels opõe a dialética ao pensamento metafísico, que trata as coisas como objetos isolados, fixos e imóveis. A dialética, ao contrário, estuda as coisas nas suas conexões, no seu movimento, no seu surgimento e no seu desaparecimento, e Engels chama a natureza de pedra de toque da dialética. (Engels, Anti-Dühring, introdução, cap. I, §§ 10 e 11)
Na Dialética da natureza, Engels reduz as leis da dialética a três, a da transformação da quantidade em qualidade, a da interpenetração dos contrários e a da negação da negação, e critica Hegel por tê-las imposto à natureza como leis do pensamento. No Anti-Dühring, ele dá exemplos. A água, sob pressão normal, muda de estado a zero e a cem graus, e Marx mostrou que uma soma de dinheiro só se converte em capital a partir de um mínimo de valor. A negação da negação aparece, para Engels, no ciclo do grão de cevada que germina, vira planta e produz novos grãos, sem que a lei geral dispense o estudo do conteúdo concreto de cada processo. (Engels, Dialética da natureza, Natureza geral da dialética como ciência, §§ 2 e 3; Engels, Anti-Dühring, parte I, cap. XII, §§ 16 e 19, e cap. XIII, § 18)
Em Sobre a questão da dialética, de 1915, Lênin escreve que a essência da dialética está na divisão de um todo e no conhecimento das suas partes contraditórias, e critica Plekhanov e o próprio Engels por tratarem a unidade dos contrários como uma soma de exemplos. Mao Tsé-tung, em Sobre a contradição, de 1937, chama essa lei da unidade dos contrários de lei fundamental da dialética materialista. Para ele, a causa fundamental do desenvolvimento de cada fenômeno está nas suas contradições internas, e as influências externas são causas secundárias. (Lênin, Sobre a questão da dialética, §§ 1 e 2; Mao, Sobre a contradição, Apresentação, § 2, e seção I, § 6)
Josef Stálin, num texto de 1938, organizou o método em quatro traços, a conexão entre os fenômenos, o movimento constante, a passagem das mudanças quantitativas às qualitativas por saltos e a luta de contrários dentro de cada fenômeno. Ele também descreveu o materialismo filosófico pela tese de que o mundo é material, de que a matéria existe fora da consciência e vem antes dela e de que o mundo e as suas leis podem ser conhecidos. (Stálin, Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico, seção 1, §§ 1, 3, 8 e 18, e seção 2, §§ 1, 7 e 19)
Uma divergência entre marxistas
György Lukács, em História e consciência de classe, de 1923, discordou de Engels num ponto. Numa nota do ensaio O que é o marxismo ortodoxo?, ele escreve que o método dialético se limita à história e à sociedade e que os mal-entendidos vêm de Engels ter estendido o método à natureza, seguindo Hegel. Para Lukács, as determinações centrais da dialética, como a interação entre sujeito e objeto e a unidade entre teoria e prática, não estão presentes no conhecimento da natureza. (Lukács, História e consciência de classe, ensaio What is Orthodox Marxism?, nota 6)
Um exemplo brasileiro
Octávio Brandão, em Agrarismo e industrialismo, escrito em 1924 e publicado em 1926, definiu a dialética como a ciência que mostra como a sociedade, o universo e o pensamento evoluem, em três etapas, tese, antítese e síntese. Ao aplicá-la à revolta de 1924 em São Paulo, ele pôs Artur Bernardes, o grande agrário, na afirmação, Isidoro Dias Lopes, o pequeno-burguês, na negação e a revolução proletária na negação da negação. (Brandão, Agrarismo e industrialismo, pp. 120, 121, 138 e 139; Moraes, Um livro fundador, pp. 12 e 13)
João Quartim de Moraes, na introdução da edição de 2006, escreve que o entusiasmo de Brandão pela dialética o levou a aplicá-la de modo ingênuo à história do proletariado brasileiro, encaixando a luta operária na tríade hegeliana. Em 1957, o próprio Brandão reconheceu no livro desvios materialistas mecânicos e lembrou que o materialismo mecânico não é dialético. (Moraes, Um livro fundador, pp. 14 e 15; Brandão, Uma etapa da história de lutas, pp. 192 e 193)