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Conceitos / Teoria e história do socialismo / Materialismo histórico

Ideologia

Em poucas palavras

Para Marx e Engels, ideologia é o conjunto das formas de consciência, como o direito, a política, a religião e a filosofia, ligadas às relações materiais de cada época. As ideias dominantes são as ideias da classe dominante, que controla os meios de produção material e espiritual. Engels falou em falsa consciência, e Lênin, em ideologia burguesa ou socialista.

Eixo e tema
Teoria e história do socialismo · Materialismo histórico
Obra principal
A ideologia alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels

Explicação

O que Marx e Engels chamaram de ideologia

Em A ideologia alemã, Marx e Engels explicam que a produção das ideias está, de início, entrelaçada com a atividade material das pessoas. As pessoas produzem as suas representações, mas condicionadas por um certo desenvolvimento das forças produtivas. Por isso, segundo os autores, a moral, a religião, a metafísica e o resto da ideologia não têm história própria, e quem muda a produção material muda também o seu pensamento. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte I, seção 4, §§ 2 e 3)

No mesmo livro está a tese mais conhecida sobre o assunto. As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, porque a classe que domina a produção material também dispõe dos meios de produção espiritual, isto é, dos meios de produzir ideias. Para Marx e Engels, as ideias dominantes são a expressão em ideias das relações materiais dominantes, e eles dão o exemplo da divisão dos poderes, declarada lei eterna onde a monarquia, a aristocracia e a burguesia disputavam o poder. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte III, seção 1, § 1)

Os dois autores tratam o Estado como uma comunidade ilusória. Segundo eles, as lutas travadas dentro do Estado, como a luta entre democracia, aristocracia e monarquia ou a luta pelo direito de voto, são as formas ilusórias em que se travam as lutas reais entre as classes. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte II, seção 4, § 3)

No prefácio de 1859, Marx chama de formas ideológicas as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas e filosóficas em que as pessoas tomam consciência dos conflitos do seu tempo. Ele adverte que uma época não pode ser julgada pela consciência que tem de si mesma, assim como uma pessoa não é julgada pelo que pensa de si. (Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5)

Falsa consciência e ideologia de classe

Numa carta de 1893 a Franz Mehring, Engels chama a ideologia de processo que o chamado pensador realiza com consciência, mas com uma consciência falsa. As forças que de fato o movem ficam desconhecidas para ele, que imagina forças falsas ou aparentes e acredita que o seu pensamento nasce só do pensamento. (Engels, Carta a Franz Mehring, § 4)

Lênin, em Que fazer?, de 1902, usa a palavra num sentido mais amplo. Segundo ele, numa sociedade dividida por contradições de classe não existe ideologia fora ou acima das classes, e a questão se põe só entre ideologia burguesa e ideologia socialista. Lênin acrescenta que o movimento operário espontâneo tende a se subordinar à ideologia burguesa, porque a luta só sindical leva à escravização ideológica dos operários pela burguesia. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea b, § 8)

Jacob Gorender, num ensaio de 1988, lembra que Engels e Lênin notaram a submissão ideológica do proletariado inglês à burguesia, mas não estudaram os processos que a tornavam duradoura. Segundo ele, foi Antonio Gramsci quem estudou esses processos, ao chamar de sociedade civil o conjunto de instituições que buscam o consenso das classes, como a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas, a imprensa e o senso comum. (Gorender, Coerção e consenso na política, §§ 30 e 31)

Gorender explica que, para Gramsci, aceitar a ordem social difere de uma submissão passiva. Uma classe subalterna pode aceitar uma ordem que considera injusta quando acredita que ela é eterna e espera melhorar a sua posição com reformas, e é esse consenso que Gramsci chama de hegemonia de uma classe dirigente. (Gorender, Coerção e consenso na política, § 31)

Um exemplo brasileiro

Clóvis Moura escreveu em 1994 que o racismo é um dos ramos ideológicos do capitalismo, usado pelo imperialismo no mundo e pela classe dominante em cada país. Segundo ele, na América Latina o racismo entrou como ideologia do colonialismo e penetrou fundo no pensamento da elite intelectual. (Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, §§ 11 e 29)

Moura conta que a Liga de Higiene Mental, fundada em 1923, fez um trabalho ideológico racista, defendeu critérios seletivos de imigração que barravam negros e asiáticos e recomendou em 1928 proibir a entrada de mestiços. A Constituição de 1934 mandou restringir a entrada de imigrantes para garantir a integração étnica e incumbiu a União, os estados e os municípios de estimular a educação eugênica, ligada à eugenia que, segundo Moura, membros da Liga defendiam. (Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, §§ 36 e 37; Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934, arts. 121, § 6º, e 138, b)

No Brasil

Ideologia no Brasil

A Constituição de 1934 mandou restringir a imigração para garantir a integração étnica e estimular a educação eugênica. Clóvis Moura trata o racismo dessa época como trabalho ideológico de dominação de classe. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934, arts. 121, § 6º, e 138, b; Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, §§ 11, 36 e 37)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Trad. Álvaro Pina. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. I; capítulo I, Feuerbach), 1982. Onde ler: parte I, seção 4; parte II, seção 4; parte III, seção 1.

    “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual.”

    parte III, seção 1, § 1

    Ler grátis: A ideologia alemã ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (17)
  • FatoA Constituição de 1934 incumbiu a União, os estados e os municípios de estimular a educação eugênica.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934, art. 138, b
  • FatoA Constituição de 1934 determinou que a entrada de imigrantes sofreria as restrições necessárias à garantia da integração étnica e da capacidade física e civil do imigrante.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934, art. 121, § 6º
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsO interesse comunitário assume forma autônoma como Estado, comunidade ilusória, e todas as lutas no seio do Estado, como a luta entre democracia, aristocracia e monarquia e a luta pelo direito de voto, são as formas ilusórias em que se travam as lutas reais das diferentes classes entre si.Marx e Engels, A ideologia alemã, parte II, seção 4, § 3
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsAs ideias dominantes são a expressão ideal das relações materiais dominantes, e num país onde a realeza, a aristocracia e a burguesia lutam entre si pelo domínio, a doutrina da divisão dos poderes revela-se ideia dominante e é declarada lei eterna.Marx e Engels, A ideologia alemã, parte III, seção 1, § 1
  • Interpretação · Karl MarxAs formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas, são aquelas em que os homens ganham consciência do conflito entre forças produtivas e relações de produção e o resolvem, e uma época não pode ser julgada pela sua consciência, assim como não se julga um indivíduo pelo que ele imagina de si próprio.Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5
  • Interpretação · Jacob GorenderPara Gramsci, aceitação não significa submissão passiva; uma classe subalterna pode aceitar uma ordem social que vê como injusta quando a considera eterna e confia em melhorar a sua posição com reformas, e a esse consenso Gramsci chama de hegemonia de uma classe dirigente.Gorender, Coerção e consenso na política, § 31
  • Interpretação · Jacob GorenderGramsci estudou os processos consensuais de direção e de dominação e chamou de sociedade civil o âmbito das instituições destinadas a obter o consenso das outras classes, como a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas, a universidade, a imprensa, a alta cultura e o senso comum, terreno onde se formam as consciências que aceitam a ordem vigente.Gorender, Coerção e consenso na política, § 31
  • Interpretação · Jacob GorenderEngels e Lênin notaram a submissão ideológica do proletariado inglês à burguesia inglesa, mas o estudo dos processos ideológicos que tornavam essa submissão consolidada e duradoura não foi objeto de estudo de nenhum desses teóricos.Gorender, Coerção e consenso na política, § 30
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsAs ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes; a classe que é o poder material dominante é também o poder espiritual dominante, porque dispõe dos meios de produção espiritual, e a ela estão submetidas, em média, as ideias daqueles a quem faltam esses meios.Marx e Engels, A ideologia alemã, parte III, seção 1, § 1
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO desenvolvimento espontâneo do movimento operário marcha para a sua subordinação à ideologia burguesa, porque o movimento operário espontâneo é trade-unionismo, e o trade-unionismo implica a escravização ideológica dos operários pela burguesia.Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea b, § 8
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninNuma sociedade dilacerada pelas contradições de classe não pode existir ideologia à margem ou acima das classes, e por isso o problema põe-se unicamente entre ideologia burguesa e ideologia socialista.Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea b, § 8
  • Interpretação · Friedrich EngelsA ideologia é um processo completado com consciência pelo chamado pensador, mas com uma consciência falsa; as forças que propriamente o movem permanecem-lhe desconhecidas, e ele imagina forças falsas ou ilusórias e deduz o conteúdo e a forma do seu pensamento do puro pensar.Engels, Carta a Franz Mehring, § 4
  • Interpretação · Clóvis MouraNa América Latina, o racismo, como ideologia do colonialismo, penetrou fundo no pensamento da elite intelectual colonizada.Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, § 29
  • Interpretação · Clóvis MouraO racismo pode ser considerado um dos galhos ideológicos do capitalismo e é atualmente uma ideologia de dominação do imperialismo em escala planetária e de dominação de classes em cada país.Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, § 11
  • Interpretação · Clóvis MouraNa época da ascensão do nazismo e do fascismo, a Liga de Higiene Mental, fundada em 1923, concentrou um trabalho ideológico racista da intelectualidade brasileira, pregou critérios seletivos de imigração que condenavam a entrada de negros e asiáticos e recomendou em 1928 a proibição da entrada de mestiços; membros da Liga se diziam partidários da eugenia, e ela reivindicava uma reforma eugênica dos salários que privilegiasse os brancos.Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, §§ 36 e 37
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsA produção das ideias, representações e da consciência está a princípio diretamente entrelaçada com a atividade material e o intercâmbio material das pessoas, que produzem as suas representações condicionadas por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas.Marx e Engels, A ideologia alemã, parte I, seção 4, § 2
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsA moral, a religião, a metafísica e a restante ideologia, e as formas de consciência que lhes correspondem, não têm história nem desenvolvimento próprios, porque são as pessoas que, ao mudarem a sua produção e o seu intercâmbio materiais, mudam também o seu pensamento.Marx e Engels, A ideologia alemã, parte I, seção 4, § 3

Fontes desta página

  1. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Trad. Álvaro Pina. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. I; capítulo I, Feuerbach), 1982. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos; prefácio), 1982. Abrir ↗
  3. ENGELS, Friedrich. Carta a Franz Mehring (14 de julho de 1893). Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos, t. III, pp. 556-561), 1982. Abrir ↗
  4. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. 1902. Abrir ↗
  5. GORENDER, Jacob. Coerção e consenso na política. 1988. Abrir ↗
  6. MOURA, Clóvis. O racismo como arma ideológica de dominação. 1994. Abrir ↗
  7. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934. planalto.gov.br, 16/07/1934. Abrir ↗
  8. Karl Marx e Friedrich Engels. A ideologia alemã, capítulo I, Feuerbach (parte II, seções 4 a 9, e parte III), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Para a crítica da economia política, prefácio (1859, com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Jacob Gorender. Coerção e consenso na política (Estudos Avançados, v. 2, n. 3, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Vladímir Ilitch Lênin. Que fazer?, cap. II. A espontaneidade das massas e a consciência da social-democracia, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Friedrich Engels. Carta a Franz Mehring, 14 de julho de 1893 (com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Clóvis Moura. O racismo como arma ideológica de dominação (Princípios, n. 34, 1994), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx e Friedrich Engels. A ideologia alemã, capítulo I, Feuerbach (parte I, seções 1 a 4, e parte II, seções 1 a 3), no MIA. marxists.org. Abrir ↗