Explicação
O que Marx e Engels chamaram de ideologia
Em A ideologia alemã, Marx e Engels explicam que a produção das ideias está, de início, entrelaçada com a atividade material das pessoas. As pessoas produzem as suas representações, mas condicionadas por um certo desenvolvimento das forças produtivas. Por isso, segundo os autores, a moral, a religião, a metafísica e o resto da ideologia não têm história própria, e quem muda a produção material muda também o seu pensamento. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte I, seção 4, §§ 2 e 3)
No mesmo livro está a tese mais conhecida sobre o assunto. As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, porque a classe que domina a produção material também dispõe dos meios de produção espiritual, isto é, dos meios de produzir ideias. Para Marx e Engels, as ideias dominantes são a expressão em ideias das relações materiais dominantes, e eles dão o exemplo da divisão dos poderes, declarada lei eterna onde a monarquia, a aristocracia e a burguesia disputavam o poder. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte III, seção 1, § 1)
Os dois autores tratam o Estado como uma comunidade ilusória. Segundo eles, as lutas travadas dentro do Estado, como a luta entre democracia, aristocracia e monarquia ou a luta pelo direito de voto, são as formas ilusórias em que se travam as lutas reais entre as classes. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte II, seção 4, § 3)
No prefácio de 1859, Marx chama de formas ideológicas as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas e filosóficas em que as pessoas tomam consciência dos conflitos do seu tempo. Ele adverte que uma época não pode ser julgada pela consciência que tem de si mesma, assim como uma pessoa não é julgada pelo que pensa de si. (Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5)
Falsa consciência e ideologia de classe
Numa carta de 1893 a Franz Mehring, Engels chama a ideologia de processo que o chamado pensador realiza com consciência, mas com uma consciência falsa. As forças que de fato o movem ficam desconhecidas para ele, que imagina forças falsas ou aparentes e acredita que o seu pensamento nasce só do pensamento. (Engels, Carta a Franz Mehring, § 4)
Lênin, em Que fazer?, de 1902, usa a palavra num sentido mais amplo. Segundo ele, numa sociedade dividida por contradições de classe não existe ideologia fora ou acima das classes, e a questão se põe só entre ideologia burguesa e ideologia socialista. Lênin acrescenta que o movimento operário espontâneo tende a se subordinar à ideologia burguesa, porque a luta só sindical leva à escravização ideológica dos operários pela burguesia. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea b, § 8)
Jacob Gorender, num ensaio de 1988, lembra que Engels e Lênin notaram a submissão ideológica do proletariado inglês à burguesia, mas não estudaram os processos que a tornavam duradoura. Segundo ele, foi Antonio Gramsci quem estudou esses processos, ao chamar de sociedade civil o conjunto de instituições que buscam o consenso das classes, como a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas, a imprensa e o senso comum. (Gorender, Coerção e consenso na política, §§ 30 e 31)
Gorender explica que, para Gramsci, aceitar a ordem social difere de uma submissão passiva. Uma classe subalterna pode aceitar uma ordem que considera injusta quando acredita que ela é eterna e espera melhorar a sua posição com reformas, e é esse consenso que Gramsci chama de hegemonia de uma classe dirigente. (Gorender, Coerção e consenso na política, § 31)
Um exemplo brasileiro
Clóvis Moura escreveu em 1994 que o racismo é um dos ramos ideológicos do capitalismo, usado pelo imperialismo no mundo e pela classe dominante em cada país. Segundo ele, na América Latina o racismo entrou como ideologia do colonialismo e penetrou fundo no pensamento da elite intelectual. (Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, §§ 11 e 29)
Moura conta que a Liga de Higiene Mental, fundada em 1923, fez um trabalho ideológico racista, defendeu critérios seletivos de imigração que barravam negros e asiáticos e recomendou em 1928 proibir a entrada de mestiços. A Constituição de 1934 mandou restringir a entrada de imigrantes para garantir a integração étnica e incumbiu a União, os estados e os municípios de estimular a educação eugênica, ligada à eugenia que, segundo Moura, membros da Liga defendiam. (Moura, O racismo como arma ideológica de dominação, §§ 36 e 37; Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 16 de julho de 1934, arts. 121, § 6º, e 138, b)