Explicação
Todo mundo tem uma filosofia
Nos Cadernos do cárcere, Antonio Gramsci afirma que todas as pessoas são filósofas, porque carregam uma filosofia espontânea. Ela está na própria linguagem, no senso comum e no bom senso e na religião popular, com o seu conjunto de crenças, superstições e modos de ver e de agir que se chama de folclore. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 12, seção 1, § 1)
Para Gramsci, senso comum é um nome coletivo, porque existem vários sensos comuns, produtos de uma história que continua mudando. Ele o define como um agregado caótico de concepções desencontradas, onde se pode achar de tudo, e diz que os seus elementos principais vêm das religiões. A filosofia, nessa visão, é a crítica e a superação da religião e do senso comum, e por isso coincide com o bom senso, que se opõe ao senso comum. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 12, seção 1, § 7; Q 11, § 13, seção 2, §§ 2 e 5)
Uma visão de mundo recebida sem crítica
Gramsci pergunta se é melhor pensar sem consciência crítica, aceitando uma visão de mundo imposta pelo ambiente, como a aldeia, a paróquia ou a sabedoria do patriarca, ou elaborar a própria visão de mundo de modo consciente. Quando a visão de mundo não é crítica nem coerente, diz ele, a pessoa reúne ao mesmo tempo elementos do homem das cavernas, princípios da ciência mais moderna e preconceitos de todas as épocas passadas. O começo da crítica, para Gramsci, é fazer o inventário dos traços que a história deixou em cada um. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 12, seção 1, §§ 2 e 3)
O trabalhador ativo, escreve Gramsci, tem duas consciências teóricas, uma que está na sua própria atividade e o une aos companheiros que transformam a realidade, e outra, verbal, herdada do passado e acolhida sem crítica. Essa contradição pode levar à passividade moral e política, e a compreensão crítica de si mesmo se faz por meio de uma luta entre hegemonias, isto é, entre direções políticas opostas. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 12, seção 1, § 22)
Por que o senso comum tende para a ordem
Lênin já explicava, em Que fazer?, que o movimento operário espontâneo tende à supremacia da ideologia burguesa, porque ela é muito mais antiga, mais elaborada e dispõe de meios de difusão incomparavelmente maiores. Jacob Gorender lembra que Gramsci incluiu o senso comum, a chamada sabedoria popular, com os provérbios e o folclore, na sociedade civil, o terreno onde se formam as consciências que aceitam a ordem vigente. (Lênin, Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, cap. II, alínea b, § 10; Gorender, Coerção e consenso na política, § 31)
Um novo senso comum
Gramsci observa que Marx, quando fala da firmeza das crenças populares, aponta implicitamente para a necessidade de novas crenças populares, ou seja, de um novo senso comum. Esse novo senso comum seria uma nova cultura enraizada na consciência popular com a mesma força das crenças tradicionais. Giovanni Semeraro lê nos Cadernos a recomendação de respeitar o saber popular, mesmo desorganizado, sem deixar de avaliar criticamente as crenças do senso comum, numa relação dialética com o bom senso. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 13, seção 2, § 6; Semeraro, Anotações para uma teoria do conhecimento em Gramsci, p. 96)
Um exemplo brasileiro
Armando Boito observa que os governos neoliberais de Fernando Collor e de Fernando Henrique Cardoso chegaram ao poder pelo voto popular, e Fernando Henrique se elegeu no primeiro turno de 1994. Para Boito, a apologia do mercado e da empresa privada e a condenação do Estado e das empresas públicas ganharam nos anos 1990 a condição de verdadeiro senso comum, espalhado pela sociedade brasileira, inclusive pelas classes populares. Em outro texto, Boito critica a percepção do senso comum que trata a corrupção como algo acima da história, porque ela naturaliza ideias datadas, como a separação entre público e privado criada pelo Estado capitalista. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55; Boito Jr., A corrupção como ideologia, pp. 9 e 10)