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Conceitos / Estratégia e organização / Hegemonia

Hegemonia

Em poucas palavras

Para Gramsci, hegemonia é a direção intelectual e moral que um grupo social exerce sobre outros, quando os seus interesses passam a valer como interesses de todos e ele obtém o consenso dos grupos subordinados. Ela convive com a coerção, e Gramsci resume o Estado como hegemonia couraçada de coerção. Ele atribuiu a Lênin a paternidade desse conceito.

Eixo e tema
Estratégia e organização · Hegemonia
Obra principal
Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci

Explicação

Como um grupo passa a dirigir os outros

Antonio Gramsci, comunista italiano, escreveu os Cadernos do cárcere na prisão, entre 1929 e 1935. Ao analisar as relações de força políticas, ele distingue três graus da consciência de um grupo social. No primeiro, o econômico-corporativo, o comerciante se sente solidário com outro comerciante, mas não com o fabricante; no segundo, todo o grupo percebe que tem interesses comuns, mas ainda só no plano econômico, e pede igualdade jurídica dentro da ordem existente. (Marxists Internet Archive, Antonio Gramsci; Bianchi, Estratégia do contratempo, p. 14; Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 17, seção 3, § 8)

No terceiro grau, o grupo percebe que os seus interesses podem e devem se tornar os interesses de outros grupos subordinados. Gramsci chama esse momento de fase mais propriamente política, em que uma ideologia se espalha por toda a sociedade, produz a unidade intelectual e moral e cria a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma série de grupos subordinados. Nessa fase, segundo ele, os interesses do grupo dominante prevalecem, mas só até certo ponto, num equilíbrio instável com os interesses dos subordinados. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 17, seção 3, § 8)

Consenso, concessões e força

Para Gramsci, a hegemonia supõe que o grupo dirigente leve em conta os interesses dos grupos sobre os quais ela será exercida e faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa, num equilíbrio de compromisso. Esses sacrifícios não podem tocar o essencial, porque a hegemonia tem fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo da atividade econômica. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 18, seção 4, § 5)

Gramsci também resume o Estado como a soma de sociedade política e sociedade civil, ou seja, hegemonia couraçada de coerção. Jacob Gorender explica que a sociedade civil, nesse sentido, reúne a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas e a imprensa, que buscam o consenso das classes subalternas. Segundo Gorender, uma classe subalterna, isto é, dominada, pode aceitar uma ordem que considera injusta quando a toma por eterna e espera melhorar de vida com reformas, e é a esse consenso que Gramsci chama de hegemonia. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 6, § 88, seção 6, § 4; Gorender, Coerção e consenso na política, § 31)

Direção antes do poder

Alvaro Bianchi cita uma nota dos Cadernos em que a supremacia de um grupo aparece de dois modos, como domínio sobre os grupos adversários e como direção dos grupos aliados. Na mesma nota, Gramsci escreve que um grupo pode e deve ser dirigente antes de conquistar o governo e que, depois de chegar ao poder, precisa continuar dirigente. Bianchi lembra ainda que o próprio Gramsci atribuiu a Lênin a paternidade do conceito de hegemonia. (Bianchi, Estratégia do contratempo, pp. 14, 19 e 20)

Numa nota dos Cadernos, Gramsci registra que Lênin entendeu a passagem da guerra de movimento, o ataque frontal que venceu no Oriente em 1917, à guerra de posição, a única possível no Ocidente. Na guerra de posição, explica Gramsci, as instituições da sociedade civil funcionam como o sistema de trincheiras da guerra moderna. No Oriente, diz ele, o Estado era tudo e a sociedade civil era primitiva; no Ocidente, atrás do Estado havia uma cadeia robusta de fortalezas da sociedade civil, e daí vinha o sentido da fórmula da frente única. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 7, § 16, seção 10, §§ 7 e 8; Q 13, § 24, seção 10, § 4)

Duas leituras de Gramsci

Em 1979, Carlos Nelson Coutinho, que no texto se alinha ao eurocomunismo de Enrico Berlinguer, corrente de marxistas ocidentais que recusava o modelo soviético como modelo universal de socialismo, leu a guerra de posição como o método da renovação democrática no Brasil. Para Coutinho, a democracia política é um valor estratégico permanente para quem luta pelo socialismo, e a hegemonia deve se legitimar pela obtenção do consenso majoritário. (Coutinho, A democracia como valor universal, §§ 2, 13, 15 e 33)

Jacob Gorender registra outra leitura. Para ele, a interpretação de que a classe que obtém o consenso já se torna dominante por isso omite o momento da ruptura revolucionária, porque em Gramsci o consenso prepara a dominação e a função de coerção do Estado não pode ser dispensada. Gorender dá razão em parte a Perry Anderson, que concluiu que Gramsci foi um reformista, mas afirma que Gramsci foi um revolucionário. (Gorender, Coerção e consenso na política, §§ 34 e 36)

Um exemplo brasileiro

Fernando Henrique Cardoso se elegeu presidente no primeiro turno, em 3 de outubro de 1994, com 54,3% dos votos válidos. Logo depois das eleições daquele ano, Jacob Gorender ouviu de um motorista de ônibus que, na hora de votar, o morador de barraco é igual a Antônio Ermírio, e viu na frase a aceitação da desigualdade legitimada pela igualdade do voto. Para Gorender, com a eleição de 1994 a democracia se consolidou no Brasil como forma política da dominação burguesa, porque, ao ceder à aspiração democratizante das massas, a burguesia obteve um consenso amplo sobre a sua própria dominação. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55; Gorender, Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94, introdução, 1º a 4º parágrafos)

No Brasil

Hegemonia no Brasil

Fernando Henrique Cardoso se elegeu no primeiro turno de 1994. Para Jacob Gorender, essa eleição consolidou a democracia como forma política da dominação burguesa no Brasil, porque a burguesia, ao ceder à aspiração democrática das massas, obteve um consenso amplo sobre a sua própria dominação. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55; Gorender, Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94, introdução, 3º e 4º parágrafos)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Trad. Jean Bramon e Gilbert Moget e Armand Monjo e François Ricci e André Tosel. Paris: Éditions sociales (Textes, edição e seleção de André Tosel; trechos dos Cadernos em francês, na edição eletrônica de Les Classiques des sciences sociales transcrita no MIA, com a referência de cada trecho à edição crítica de Gerratana), 1983. Onde ler: Q 13, §§ 17, 18 e 24; Q 6, § 88; Q 7, § 16 (tradução de Tosel).

    Ler grátis: Cadernos do cárcere ↗Ficha da obra: Cadernos do cárcere

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)
  • Interpretação · Antonio GramsciNuma passagem dos Quaderni, Gramsci escreve que a supremacia de um grupo social se manifesta como domínio e como direção intelectual e moral; o grupo é dominante dos grupos adversários e dirigente dos grupos afins e aliados, pode e deve ser dirigente antes de conquistar o poder governativo e, quando exerce o poder, torna-se dominante, mas deve continuar dirigente.Bianchi, Estratégia do contratempo, pp. 19 e 20 (citação de Gramsci, Quaderni, ed. Gerratana, 1977, pp. 2010-2011)
  • Interpretação · Alvaro BianchiGramsci atribuiu a Lênin a paternidade do conceito de hegemonia, ao escrever que no princípio teórico-prático da hegemonia deve ser procurada a contribuição teórica máxima de Ilitch à filosofia da práxis; Bianchi observa que Gramsci era um comunista e adverte que reduzi-lo a uma reapresentação de teorias russas é uma mistificação.Bianchi, Estratégia do contratempo, p. 14 (citação de Gramsci, Quaderni, ed. Gerratana, 1977, pp. 1249-1250)
  • Interpretação · Alvaro BianchiBianchi distingue a hegemonia no sentido pleno, direção política e cultural de uma classe revolucionária sobre o conjunto das classes subalternas, da hegemonia restrita, exercida quando a classe dominante já perdeu a capacidade de assimilar as classes subalternas ao seu projeto, que ele aproxima da revolução passiva.Bianchi, Estratégia do contratempo, pp. 14 e 20
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoEntre os marxistas ocidentais generalizava-se a rejeição do modelo soviético como modelo universal de socialismo, por uma concepção diversa do vínculo entre socialismo e democracia sintetizada por Enrico Berlinguer, e o modo novo de pensar esse vínculo é o que há de universal no chamado eurocomunismo.Coutinho, A democracia como valor universal, §§ 2 e 4
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoA renovação democrática de baixo para cima impõe às forças populares, como método da sua batalha política, a opção pelo que Gramsci chamou de guerra de posição.Coutinho, A democracia como valor universal, § 33
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoPara quem luta pelo socialismo, a democracia política é um valor estratégico permanente, condição tanto para a conquista quanto para a consolidação da nova sociedade, e a legitimação da hegemonia pela obtenção do consenso majoritário continua valendo numa sociedade socialista.Coutinho, A democracia como valor universal, §§ 13 e 15
  • FatoCandidato pela coligação PSDB, PFL e PTB, Fernando Henrique se elegeu no primeiro turno, em 3 de outubro de 1994, com 54,3% dos votos válidos.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55
  • Interpretação · Jacob GorenderGorender dá razão a Perry Anderson quando este afirma que o próprio Estado pode prefigurar o consenso, mas recusa a conclusão de Anderson de que Gramsci foi um reformista, porque, para Gorender, Gramsci foi um revolucionário.Gorender, Coerção e consenso na política, § 36
  • Interpretação · Jacob GorenderNa semana posterior às eleições de 1994, Gorender ouviu um motorista de ônibus dizer que, na hora de votar, quem mora num barraco é igual a Antônio Ermírio, e considerou a frase expressiva da consciência social dominante, a aceitação da imensa desigualdade diante dos pouquíssimos milionários, legitimada pela igualdade no momento do voto.Gorender, Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94, introdução, 1º a 3º parágrafos
  • Interpretação · Jacob GorenderCom a prova eleitoral de 1994, a democracia se consolidou no Brasil como forma política da dominação burguesa; ao ceder à aspiração democratizante das massas, a classe dominante burguesa conseguiu estabelecer o consenso socialmente amplo acerca da sua própria dominação.Gorender, Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94, introdução, 4º parágrafo
  • Interpretação · Jacob GorenderUma das interpretações de Gramsci sustenta que a classe que obtém o consenso já pode se tornar dominante por isso, leitura que omite o momento da ruptura revolucionária; para Gorender, Gramsci não via as coisas dessa maneira reformista, o consenso preparava a dominação e a função coercitiva do Estado não pode ser dispensada.Gorender, Coerção e consenso na política, § 34
  • Interpretação · Jacob GorenderPara Gramsci, a sociedade civil é a extensão do Estado onde as instituições, como a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas e a imprensa, buscam o consenso das outras classes; uma classe subalterna pode aceitar uma ordem que vê como injusta quando a considera eterna e confia que poderá melhorar a sua posição com reformas, e a isso Gramsci chama de hegemonia de uma classe dirigente.Gorender, Coerção e consenso na política, § 31
  • FatoOs escritos de Gramsci se dividem entre os de antes da prisão, de 1910 a 1926, e os da prisão, de 1929 a 1935.Marxists Internet Archive, Antonio Gramsci, seção Gramsci's Life and Thought
  • Interpretação · Antonio GramsciO fato da hegemonia supõe que se levem em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais ela será exercida e que se forme um certo equilíbrio de compromisso, com sacrifícios de ordem econômico-corporativa do grupo dirigente; esses sacrifícios não podem tocar o essencial, porque a hegemonia ético-política também é econômica e tem fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 18, seção 4, § 5
  • Interpretação · Antonio GramsciNa noção geral de Estado entram elementos da sociedade civil, no sentido de que Estado é igual a sociedade política mais sociedade civil, isto é, hegemonia couraçada de coerção.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 6, § 88, seção 6, § 4
  • Interpretação · Antonio GramsciNa fase hegemônica, o grupo dominante se coordena concretamente com os interesses gerais dos grupos subordinados, e a vida do Estado é uma formação e superação contínua de equilíbrios instáveis, nos quais os interesses do grupo dominante prevalecem, mas só até certo ponto, sem chegar ao mesquinho interesse econômico-corporativo.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 17, seção 3, § 8
  • Interpretação · Antonio GramsciAo analisar a relação das forças políticas, Gramsci distingue três graus da consciência política coletiva; no primeiro, econômico-corporativo, o comerciante se sente solidário com outro comerciante, mas ainda não com o fabricante; no segundo, todo o grupo social toma consciência da solidariedade de interesses, ainda só no plano econômico, e reivindica a igualdade político-jurídica com os grupos dominantes dentro dos quadros fundamentais existentes.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 17, seção 3, § 8
  • Interpretação · Antonio GramsciLênin tinha compreendido que era preciso passar da guerra de movimento, aplicada vitoriosamente no Oriente em 1917, à guerra de posição, a única possível no Ocidente, e esse é o sentido da fórmula da frente única; no Oriente o Estado era tudo e a sociedade civil era primitiva e gelatinosa, e no Ocidente o Estado era apenas uma trincheira avançada, atrás da qual havia uma cadeia robusta de fortalezas e casamatas.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 7, § 16, seção 10, §§ 7 e 8
  • Interpretação · Antonio GramsciNo terceiro grau, o grupo toma consciência de que os seus interesses corporativos superam os limites da corporação e podem e devem se tornar os interesses de outros grupos subordinados; é a fase mais francamente política, em que uma ideologia tende a se impor e a se difundir por toda a área social, determinando a unidade intelectual e moral e criando a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma série de grupos subordinados.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 17, seção 3, § 8
  • Interpretação · Antonio GramsciNos Estados mais avançados, onde a sociedade civil se tornou uma estrutura muito complexa e resistente às irrupções catastróficas do elemento econômico imediato, as superestruturas da sociedade civil são como o sistema de trincheiras na guerra moderna.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 24, seção 10, § 4

Fontes desta página

  1. Marxists Internet Archive. Antonio Gramsci (1891-1937), índice do arquivo em inglês, com a divisão dos escritos em antes da prisão (1910-1926) e da prisão (1929-1935), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  2. BIANCHI, Alvaro. Estratégia do contratempo: notas para uma pesquisa sobre o conceito gramsciano de hegemonia. Campinas: Cadernos Cemarx (Centro de Estudos Marxistas, IFCH-Unicamp), n. 4, pp. 9-38, 2007. Abrir ↗
  3. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Trad. Jean Bramon e Gilbert Moget e Armand Monjo e François Ricci e André Tosel. Paris: Éditions sociales (Textes, edição e seleção de André Tosel; trechos dos Cadernos em francês, na edição eletrônica de Les Classiques des sciences sociales transcrita no MIA, com a referência de cada trecho à edição crítica de Gerratana), 1983. Abrir ↗
  4. GORENDER, Jacob. Coerção e consenso na política. 1988. Abrir ↗
  5. COUTINHO, Carlos Nelson. A democracia como valor universal. 1979. Abrir ↗
  6. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  7. GORENDER, Jacob. Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94. 1995. Abrir ↗
  8. Alvaro Bianchi. Estratégia do contratempo: notas para uma pesquisa sobre o conceito gramsciano de hegemonia (Cadernos Cemarx, n. 4, 2007), PDF. econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  9. Carlos Nelson Coutinho. A democracia como valor universal (1979), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Jacob Gorender. Coerção e consenso na política (Estudos Avançados, v. 2, n. 3, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Jacob Gorender. Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94 (fevereiro de 1995). marxists.org. Abrir ↗
  12. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 4, Quelques aspects théoriques et pratiques de l'économisme (Q 13, §§ 18 e 23), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 6, L'État (Q 8, § 2; Q 6, § 88; Q 8, § 179), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 3, Analyses des situations. Rapports de forces (Q 13, § 17), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 10, Lutte politique et guerre militaire (Q 13, § 24; Q 7, § 16), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗