Explicação
Ganhar quem segue outros chefes
Nos Cadernos do cárcere, Antonio Gramsci observa que as ideias das massas andam atrasadas em relação à sua situação econômica e que tradições ideológicas podem frear o impulso que vem dela. Por isso, escreve ele, é preciso uma luta consciente e preparada para fazer as massas compreenderem as exigências da sua posição econômica, que podem se opor às orientações dos chefes tradicionais, e uma iniciativa política para mudar a direção política de forças sociais que é preciso atrair. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 23, seção 4, § 8)
Gramsci explica que o trabalhador tem duas consciências, uma que nasce da sua atividade e o une aos companheiros, e outra herdada do passado e aceita sem crítica, que pode levá-lo à passividade. A compreensão crítica de si mesmo, diz ele, se faz por meio de uma luta entre hegemonias, isto é, entre direções políticas opostas. Alvaro Bianchi cita a nota em que Gramsci afirma que um grupo social pode e deve ser dirigente antes de conquistar o governo. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 12, seção 1, § 22; Bianchi, Estratégia do contratempo, p. 19)
Trabalhar onde a massa está
Em 1920, em Esquerdismo, doença infantil do comunismo, Lênin criticou os comunistas alemães que se recusavam a atuar nos sindicatos dirigidos por chefes reacionários. Ele escreve que os bolcheviques combatiam a aristocracia operária e os chefes oportunistas justamente para atrair a massa operária para o seu lado. Para conquistar a simpatia e o apoio da massa, segundo Lênin, é preciso não temer as perseguições dos chefes e trabalhar obrigatoriamente onde a massa está. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VI, §§ 1, 16 e 17)
Lênin conclui que toda a tarefa dos comunistas consiste em saber convencer os atrasados e trabalhar entre eles, sem se isolar com palavras de ordem inventadas. Na mesma obra, ele observa que milhões de operários alemães ainda seguiam o partido católico do centro e que por isso era obrigatório participar das eleições, para educar as camadas atrasadas da própria classe. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VI, § 19, e cap. VII, §§ 8 a 10)
A base católica e os operários de outros partidos
Nas Teses de Lyon, de 1926, Gramsci e Palmiro Togliatti defendem que a aproximação dos camponeses com o proletariado deve ser favorecida por uma ação política cuidadosa do partido. As teses apontam a necessidade de romper a aliança dos camponeses com as forças reacionárias e de eliminar a influência da organização católica sobre as massas do campo. Os comunistas, segundo o mesmo documento, devem se aproximar dos operários de outros partidos e dos sem partido, superando a hostilidade deles, e a defesa das reivindicações imediatas é a única maneira de ganhar as grandes massas. (Gramsci e Togliatti, A situação da Itália e as tarefas do Partido Comunista Italiano, tese 19, 4º parágrafo; tese 39, 2º parágrafo; tese 40, 1º parágrafo)
Um exemplo brasileiro
Getúlio Vargas se suicidou em 24 de agosto de 1954. Jacob Gorender conta que o PCB, posto na ilegalidade em 1947, adotou uma política cada vez mais sectária, se absteve nas eleições de 1950 e atacou Vargas durante todo o seu governo. Depois do suicídio, as massas trabalhistas saíram às ruas, e os militantes comunistas não tiveram alternativa senão se juntar a elas nos mesmos protestos. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 31; Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, §§ 2 e 3)
No informe ao IV Congresso do PCB, ainda em 1954, Luiz Carlos Prestes escreveu que as massas getulistas podiam agora ser conquistadas mais facilmente para a luta pela democracia e pela emancipação nacional. Prestes advertiu que uma atitude sectária isolaria os comunistas das grandes massas, quando a vitória exigia arrancá-las da influência da burguesia nacional. Para Gorender, a Declaração de Março de 1958 foi o reconhecimento do erro cometido em relação a Vargas, que deixara o partido impotente na crise de agosto de 1954. (Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, parte I, § 51, e parte II, § 21; Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, § 18)