Explicação
Os dois lados da produção
Stálin, num texto de 1938, chamou de forças produtivas os instrumentos de produção e as pessoas que os manejam com a sua experiência produtiva e os seus hábitos de trabalho. Chamou de relações de produção as relações que as pessoas estabelecem entre si dentro da produção, que podem ser de colaboração ou de domínio e subordinação. Segundo ele, as forças produtivas dizem com que instrumentos se produz, e as relações de produção dizem em poder de quem estão os meios de produção, como a terra, as matérias-primas, as ferramentas e os edifícios. (Stálin, Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico, seção 3 (O materialismo histórico), §§ 15, 17 e 35)
Em 1847, na Miséria da filosofia, Marx criticou Proudhon, autor de Filosofia da miséria, por não ver que as relações sociais também são produzidas pelas pessoas, do mesmo modo que os tecidos. Para Marx, essas relações estão intimamente ligadas às forças produtivas, e quando as pessoas adquirem novas forças produtivas elas mudam o seu modo de produção e todas as suas relações sociais. Ele resumiu a ideia dizendo que o moinho de mão dá a sociedade com o senhor feudal, e o moinho a vapor, a sociedade com o capitalista industrial. (Marx, Miséria da filosofia, cap. II, § 1, segunda observação, 2º parágrafo)
Numa carta de 1846 a Pável Annenkov, Marx explicou que as pessoas não escolhem livremente as suas forças produtivas, que são a base de toda a sua história. Cada geração recebe as forças produtivas da anterior como resultado de uma atividade passada. Quando a forma das suas relações deixa de corresponder às forças produtivas adquiridas, as pessoas são forçadas a mudar as suas formas sociais tradicionais para não perder os frutos da civilização. (Marx, Carta a Pável Annenkov, §§ 7 e 8)
A contradição entre as duas
No prefácio de 1859, Marx escreve que as relações de produção correspondem a uma etapa das forças produtivas e têm a sua expressão jurídica nas relações de propriedade. Numa certa etapa, essas relações deixam de ser formas de desenvolvimento das forças produtivas e se tornam grilhões delas, e começa então uma época de revolução social. (Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5)
Em A ideologia alemã, Marx e Engels afirmam que a contradição entre as forças produtivas e a forma de intercâmbio já ocorreu várias vezes na história e sempre acabou numa revolução. Segundo eles, essa contradição aparece também em formas secundárias, como choques entre classes, lutas de ideias e lutas políticas. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte IV, seção 5, § 1)
Quem tem a primazia
Para Stálin, as mudanças da produção começam sempre pelas forças produtivas, sobretudo pelos instrumentos, e por isso elas são o elemento mais dinâmico e revolucionário da produção. As relações de produção mudam depois, de acordo com elas, embora possam acelerar ou frear o seu desenvolvimento. Stálin resume a tese dizendo que, conforme sejam as forças produtivas, assim têm de ser as relações de produção. (Stálin, Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico, seção 3 (O materialismo histórico), §§ 30, 33 e 34)
Mao Tsé-tung, em 1937, chamou de materialismo mecanicista a ideia de que as forças produtivas são sempre o aspecto principal. Ele aceita que as forças produtivas, a prática e a base econômica desempenham em geral o papel decisivo, mas afirma que, em certas circunstâncias, as relações de produção, a teoria e a superestrutura passam a decidir. Quando as forças produtivas não conseguem mais se desenvolver sem mudar as relações de produção, a mudança dessas relações desempenha o papel principal. (Mao, Sobre a contradição, seção IV, § 19)
O historiador Jacob Gorender lembra que a Segunda Internacional superestimou as forças produtivas e deixou em segundo plano a ação consciente da classe revolucionária, enquanto a escola do filósofo Louis Althusser proclamou o primado das relações de produção. Para Gorender, Marx nunca levantou a questão do primado, que ele considera falsa. As pessoas fazem parte das forças produtivas, como força produtiva com intenção própria, e também das relações de produção, que se estabelecem entre elas. (Gorender, O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica, §§ 27 e 28)
Um exemplo brasileiro
A escravidão no Brasil foi declarada extinta pela Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888. Clóvis Moura observa que, quando isso aconteceu, o país já tinha iluminação a gás, cabo submarino, estradas de ferro que levavam aos portos o produto do trabalho escravo, telefone, bancos estrangeiros, pequenas fábricas de trabalho livre e organizações operárias. Para ele, as instituições continuavam arcaicas porque representavam os interesses das classes que detinham o poder e queriam preservar o tipo de propriedade fundamental da época. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 18)