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Conceitos / Ideologia e disputa de ideias / Liberalismo

Liberdade

Em poucas palavras

Para Engels, liberdade é o domínio humano sobre a natureza e sobre a própria vida, baseado no conhecimento das suas leis, e por isso é produto da história. Marx e Lênin mostraram que, sob o capitalismo, a liberdade burguesa é a de comprar e vender, inclusive a força de trabalho. Marx ligou o reino da liberdade à redução da jornada de trabalho.

Eixo e tema
Ideologia e disputa de ideias · Liberalismo
Obra principal
Anti-Dühring, de Friedrich Engels

Explicação

Liberdade e necessidade

Friedrich Engels escreveu, no Anti-Dühring, que a liberdade não está numa independência sonhada em relação às leis da natureza, e sim no conhecimento dessas leis e na possibilidade de usá-las de forma planejada para fins determinados. Para ele, a liberdade é o domínio de nós mesmos e da natureza exterior, baseado na consciência das necessidades naturais, e por isso é um produto da evolução histórica. Engels acrescenta que os primeiros seres humanos eram quase tão pouco livres quanto os animais e que cada passo no caminho da cultura foi um passo no caminho da liberdade. (Engels, Anti-Dühring, parte I, cap. XI, § 18)

A liberdade do mercado

O Manifesto Comunista explica que, dentro das relações de produção burguesas, liberdade quer dizer o comércio livre, a compra e a venda livres. Quando os comunistas propõem acabar com essas relações, a burguesia diz que eles querem suprimir a personalidade e a liberdade, e o Manifesto responde que se trata, de fato, da personalidade, da independência e da liberdade burguesas. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. II, §§ 27 e 28 da página do MIA)

Em O capital, Marx mostra que o operário chega ao mercado livre num duplo sentido, porque dispõe como pessoa livre da sua força de trabalho, isto é, da sua capacidade de trabalhar, e porque está livre de todas as coisas de que precisaria para usá-la por conta própria. Na troca entre o patrão e o operário reinam, nas palavras de Marx, a liberdade, a igualdade, a propriedade e Bentham, nome que Marx usa porque cada um dos dois só se preocupa consigo, e os dois fazem contrato como pessoas juridicamente iguais. (Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 6 e 23)

Liberdade de quem?

Em 1919, Lênin escreveu que, numa república burguesa, ainda que a mais livre e democrática, a liberdade e a igualdade nunca foram outra coisa senão a liberdade e a igualdade dos possuidores de mercadorias, a liberdade do capital. Enquanto existir a propriedade privada da terra e dos meios de produção, segundo ele, essas palavras são formalidades que encobrem a escravidão assalariada de operários formalmente livres e formalmente iguais em direitos. Lênin opunha a liberdade dos ricos de lucrar à liberdade dos pobres de passar fome, que ele chamou de liberdade de morrer de fome. (Lênin, Prefácio à edição do discurso Sobre como se engana o povo com as palavras de ordem de liberdade e igualdade, §§ 12, 19 e 20 da página do MIA)

O reino da liberdade

No Livro III de O capital, Marx escreveu que o reino da liberdade começa apenas onde termina o trabalho determinado pela necessidade e pelas exigências externas. Nesse terreno, a liberdade só pode consistir em que os produtores associados regulem de modo racional a sua troca com a natureza, sob o seu controle comum, com o menor gasto de energia e nas condições mais favoráveis e mais dignas da natureza humana. Marx concluiu que a redução da jornada de trabalho é a condição básica desse reino da liberdade. (Marx, O capital, Livro III, cap. 48, seção III, § 2 da página do MIA)

Vida, liberdade e condições materiais

A Constituição de 1988 garante, no seu art. 5º, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade a brasileiros e a estrangeiros residentes no país. Esses direitos aparecem lado a lado no texto, mas as condições para exercê-los dependem da vida material, como mostram os dados do IBGE sobre mortalidade. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 5º; IBGE, Tábuas completas de mortalidade para o Brasil, 2024, p. 10)

Segundo o IBGE, do século XIX até meados dos anos 1940 o Brasil teve altas taxas de mortalidade, sobretudo nos primeiros anos de vida. Em 1940, uma criança nascida no país esperava viver em média 45,5 anos, e a mortalidade infantil era de 146,6 mortes de crianças menores de um ano para cada mil nascidas vivas. Em 2024, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos, 31,1 anos a mais que em 1940, e a mortalidade infantil caiu para 12,3 por mil. (IBGE, Tábuas completas de mortalidade para o Brasil, 2024, tabelas 1 e 2, pp. 8 a 10)

Para Engels, a liberdade cresce com o domínio humano sobre a natureza, e a queda da mortalidade brasileira ao longo do século XX é um exemplo desse domínio. Para Lênin, porém, enquanto a terra e os meios de produção forem propriedade privada, a liberdade continua formal e significa, na prática, a escravidão assalariada dos operários e o poder do capital sobre o trabalho. (Engels, Anti-Dühring, parte I, cap. XI, § 18; Lênin, Prefácio à edição do discurso Sobre como se engana o povo com as palavras de ordem de liberdade e igualdade, § 20 da página do MIA)

No Brasil

Liberdade no Brasil

A Constituição de 1988 garante o direito à vida e à liberdade, e o IBGE registra que a expectativa de vida no Brasil passou de 45,5 anos, em 1940, para 76,6 anos, em 2024. (IBGE, Tábuas completas de mortalidade para o Brasil, 2024, tabela 1, p. 8)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. 1878. Onde ler: parte I, cap. XI, § 18.

    “A liberdade não reside, pois, numa sonhada independência em relação às leis naturais, mas na consciência dessas leis e na correspondente possibilidade de projetá-las racionalmente para determinados fins.”

    parte I, cap. XI, § 18

    Ler grátis: Anti-Dühring ↗Ficha da obra: Anti-Dühring

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (17)

Fontes desta página

  1. ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. 1878. Abrir ↗
  2. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. José Barata-Moura. Lisboa: Editorial Avante!, 1997. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  4. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Prefácio à edição do discurso Sobre como se engana o povo com as palavras de ordem de liberdade e igualdade. 1919. Abrir ↗
  5. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  6. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  7. IBGE. Tábuas completas de mortalidade para o Brasil, 2024: breve análise da evolução da mortalidade no Brasil. biblioteca.ibge.gov.br. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 4, seção 3. Compra e venda da força de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Capital, vol. III, chapter 48. The trinity formula, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Friedrich Engels. Anti-Dühring, parte I, cap. XI. Moral e direito: liberdade e necessidade, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Vladímir Ilitch Lênin. Prefácio à edição do discurso Sobre como se engana o povo com as palavras de ordem de liberdade e igualdade (23 de junho de 1919), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. II. Proletários e comunistas, no MIA. marxists.org. Abrir ↗