Explicação
O trabalho alienado
Marx escreveu os Manuscritos econômico-filosóficos entre abril e agosto de 1844, e eles só foram publicados em 1932. No trecho sobre o trabalho alienado, ele parte de um fato econômico do seu tempo, o de que o trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza. Segundo Marx, o trabalhador se torna uma mercadoria mais barata quanto mais bens cria, e o mundo humano perde valor na mesma proporção em que o mundo das coisas ganha valor. (Marx, Manuscritos econômico-filosóficos, ficha da edição; primeiro manuscrito, Trabalho alienado, § 7)
A primeira forma de alienação, também chamada de estranhamento, diz respeito ao produto. Para Marx, o objeto que o trabalho produz se opõe ao trabalhador como um ser estranho, uma força independente dele, e quanto mais ele se desgasta no trabalho, mais poderoso fica o mundo de objetos que criou diante de si. (Marx, Manuscritos econômico-filosóficos, primeiro manuscrito, Trabalho alienado, §§ 8 e 10)
A segunda forma diz respeito à própria atividade. O trabalho fica externo ao trabalhador, que não se realiza nele e, em vez de bem-estar, sente sofrimento, cansaço físico e abatimento mental. Por isso, escreve Marx, o trabalhador só se sente à vontade no tempo de folga, porque o trabalho é forçado, serve apenas de meio para satisfazer outras necessidades e pertence a outra pessoa. (Marx, Manuscritos econômico-filosóficos, primeiro manuscrito, Trabalho alienado, § 19)
Marx chama o ser humano de ente-espécie, um ser que trata a comunidade como objeto da sua prática e se trata a si mesmo como ser universal e livre. O trabalho alienado transforma a atividade vital, a vida produtiva, em simples meio de manter a existência física e, como consequência, afasta cada pessoa das outras pessoas. (Marx, Manuscritos econômico-filosóficos, primeiro manuscrito, Trabalho alienado, §§ 25, 30 e 38)
Alienação depois de 1844
Em A ideologia alemã, Marx e Engels descrevem o poder social, isto é, a força produtiva multiplicada pela cooperação na divisão do trabalho, como uma força estranha que as pessoas não conseguem dominar. Os dois põem a palavra alienação entre aspas, para continuarem compreensíveis para os filósofos, e dizem que ela só será superada com duas condições práticas. Uma é a existência de uma grande massa sem propriedade diante de um mundo de riqueza e cultura, e a outra é um grande desenvolvimento das forças produtivas. (Marx e Engels, A ideologia alemã, parte II, seção 4, § 6; parte II, seção 5, § 1)
O filósofo Louis Althusser sustentou em 1964 que, em 1845, Marx rompeu radicalmente com toda teoria que fundava a história e a política numa essência do homem. Para Althusser, essa ruptura levou Marx a um anti-humanismo teórico, e o humanismo deve ser conhecido como uma ideologia. (Althusser, Por Marx, Marxism and Humanism, §§ 21 e 36)
O filósofo István Mészáros respondeu em 1970 que A ideologia alemã critica o uso idealista da alienação, e não o conceito, e que entre os escritos de 1844 e os posteriores existe uma continuidade notável. Segundo ele, afirmar uma ruptura radical é deduzir demais de um título que Marx nunca deu a um manuscrito inacabado, e a alienação se tornou o conceito central de toda a teoria de Marx. (Mészáros, A teoria da alienação em Marx, cap. 8, seção 1, § 13; seção 2, § 16; seção 3, § 6)
O estranhamento hoje
Ricardo Antunes e Giovanni Alves descrevem o toyotismo como a forma de organizar a produção em que o capital busca capturar por inteiro a subjetividade do trabalhador. Segundo eles, no toyotismo a alienação continua preservada na sua essência, mesmo quando aparece reduzida. Para eles, o envolvimento do trabalhador com as novas máquinas aumenta o estranhamento, e parte do tempo livre passa a ser gasto para conseguir empregabilidade, que eles chamam de palavra-fetiche do capital. (Antunes e Alves, As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital, pp. 344, 346 e 347)
Os mesmos autores afirmam que a alienação é ainda mais intensa entre os trabalhadores precarizados, que vivem sem direitos e com instabilidade cotidiana em trabalhos parciais e temporários. Nesses casos, segundo eles, o estranhamento chega à perda quase completa da dimensão de humanidade. (Antunes e Alves, As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital, p. 348)
Um exemplo brasileiro
A reforma trabalhista de 2017, a Lei nº 13.467, criou na CLT o contrato de trabalho intermitente. Nele, a prestação de serviços, com subordinação, deixa de ser contínua e alterna períodos de trabalho e de inatividade, determinados em horas, dias ou meses. Antunes e Alves associam a forma mais intensa de estranhamento justamente à instabilidade cotidiana e à perda de direitos dos trabalhadores precarizados. (Congresso Nacional, Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017, art. 1º, na redação do art. 443, § 3º, da CLT; Antunes e Alves, As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital, p. 348)