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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Fetichismo da mercadoria

Em poucas palavras

Fetichismo da mercadoria é o nome que Marx dá ao fato de que, onde se produz para a troca, as relações entre as pessoas aparecem como relações entre coisas, e os preços parecem uma qualidade natural dos produtos. Ele nasce do trabalho privado, que só se liga ao dos outros pela troca. Para Marx, essa aparência só se desfaz quando a produção estiver sob o controle consciente dos produtores associados.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

Uma coisa cheia de sutilezas

Uma mesa é madeira trabalhada, uma coisa comum, mas quando ela aparece como mercadoria vira, nas palavras de Marx, uma coisa sensível e suprassensível ao mesmo tempo. O mistério não vem do valor de uso da mesa nem do fato de todo trabalho gastar cérebro, nervos e músculos, coisas que existem em qualquer sociedade. Ele vem da própria forma de mercadoria. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, §§ 1, 2 e 3)

Na forma de mercadoria, o caráter social do trabalho de cada pessoa aparece como uma qualidade natural dos produtos, e a relação entre os produtores aparece como uma relação entre objetos. Marx compara isso à religião, em que produtos da cabeça humana parecem figuras com vida própria, e chama de fetichismo esse caráter que se cola aos produtos do trabalho logo que eles são produzidos como mercadorias. A tradução portuguesa da editora Avante! usa a palavra feiticismo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 4)

De onde vem

Os objetos de uso só viram mercadorias porque são produtos de trabalhos privados, feitos de forma independente uns dos outros. Como os produtores só entram em contato social pela troca, as ligações entre os seus trabalhos aparecem como relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 6)

Por isso os produtores igualam os seus trabalhos sem saber que o fazem, e o valor transforma cada produto num hieróglifo social, um sinal que eles precisam decifrar depois. As proporções de troca parecem brotar da natureza dos produtos, e o movimento dos preços aparece como um movimento de coisas que controla os produtores, em vez de ser controlado por eles. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, §§ 8 e 9)

Lênin resume a ideia dizendo que o valor é uma relação entre pessoas dissimulada sob uma aparência material. Ele acrescenta que o dinheiro encobre o caráter social do trabalho privado e o elo entre os produtores ligados pelo mercado. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 4º e 6º parágrafos)

Uma aparência objetiva

Marx diz que a descoberta científica de que o valor é trabalho humano não dissipa essa aparência. As categorias da economia burguesa são formas de pensamento socialmente válidas e por isso objetivas para esse modo de produção, e o misticismo só desaparece quando se passa a outras formas de produção. Na Idade Média europeia, por exemplo, o servo sabia que gastava uma parte da sua força de trabalho a serviço do senhor, e as relações sociais apareciam como relações pessoais, sem o disfarce de relações entre coisas. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, §§ 8, 11 e 13)

O economista russo Isaak Rubin desenvolveu esse ponto nos anos 1920. Segundo Fernando Leitão Rocha Junior, Rubin afirma que Marx mostrou mais do que o encobrimento das relações humanas por relações entre coisas, porque na economia mercantil as relações sociais de produção assumem inevitavelmente a forma de coisas e só se expressam por meio delas. Para Rubin, a teoria do fetichismo se torna uma teoria geral das relações de produção da sociedade mercantil. (Rocha Junior, Transgressores da reificação, pp. 569 e 570)

Rocha Junior registra também a leitura de György Lukács, que, no ensaio A reificação e a consciência do proletariado, publicado em 1923, desenvolveu a partir do fetichismo o conceito de reificação. Leandro Konder, citado por Rocha Junior, explica que esse conceito trata das formas que a alienação assume quando se generaliza pelo mercado capitalista, onde as relações entre as pessoas ganham a aparência de coisas. (Rocha Junior, Transgressores da reificação, pp. 551 e 552)

O salário e o fim do véu

Marx mostra uma aparência parecida no salário. O salário aparece como o preço de todo o trabalho do dia, e essa forma apaga a divisão entre o tempo em que o trabalhador repõe o valor da sua força de trabalho e o tempo em que trabalha de graça para o capitalista. Marx diz que sobre essa aparência repousam as representações jurídicas do trabalhador e do capitalista e as ilusões de liberdade do modo de produção capitalista. (Marx, O capital, Livro I, cap. 17, §§ 12 e 13)

Para Marx, o véu místico que cobre o processo de produção só se desfaz quando esse processo, como produto de pessoas livremente associadas, estiver sob o seu controle consciente e planejado. Isso exige uma base material e condições de existência que são, elas mesmas, o resultado de uma longa história de desenvolvimento. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 17)

No Brasil

O Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, fixou o salário mínimo de 2026 em R$ 1.621,00 por mês e em R$ 7,37 por hora. O valor por hora aparece como o preço de uma hora de trabalho, a forma que, segundo Marx, faz todo o trabalho parecer pago e esconde a parte do dia em que o trabalhador produz para o capitalista sem receber. (Presidência da República, Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, art. 1º; Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 12)

Nesta explicação

No Brasil

Fetichismo da mercadoria no Brasil

O Decreto nº 12.797/2025 fixou o salário mínimo de 2026 em R$ 1.621,00 por mês e R$ 7,37 por hora. O valor por hora parece o preço de cada hora trabalhada, mas, para Marx, a forma do salário esconde a parte do dia em que o trabalhador produz sem receber. (Presidência da República, Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, art. 1º e parágrafo único; Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 12)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (21)
  • FatoA tradução da Editorial Avante! intitula a seção 4 do capítulo 1 de O carácter de feitiço da mercadoria e o seu segredo e usa a palavra feiticismo.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, título e § 4
  • Interpretação · Karl MarxAs categorias da economia burguesa são formas de pensamento socialmente válidas e por isso objetivas para as relações de produção da produção de mercadorias; todo o misticismo do mundo das mercadorias desaparece quando se passa a outras formas de produção.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 11
  • FatoO Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, fixou o salário mínimo em R$ 1.621,00 a partir de 1º de janeiro de 2026, com valor diário de R$ 54,04 e valor horário de R$ 7,37.Presidência da República, Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, art. 1º e parágrafo único
  • Interpretação · Karl MarxA forma-mercadoria reflete para os homens os caracteres sociais do seu próprio trabalho como caracteres objetivos dos produtos e a relação social dos produtores com o trabalho total como relação entre objetos; é a relação social determinada entre os próprios homens que toma para eles a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 4
  • Interpretação · Karl MarxA descoberta científica de que os produtos de trabalho, enquanto valores, são expressões do trabalho humano gasto na sua produção não dissipa a ilusão de objetividade dos caracteres sociais do trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8
  • Interpretação · Karl MarxOs homens igualam os seus trabalhos como trabalho humano sem o saber, e o valor transforma cada produto do trabalho num hieróglifo social, cujo sentido eles procuram decifrar mais tarde.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8
  • Interpretação · Leandro Konder, citado por Fernando Leitão Rocha JuniorO conceito de reificação, desenvolvido por Lukács a partir da análise marxiana do fetichismo da mercadoria, dá conta das formas especiais assumidas pela alienação quando ela se generaliza pelo mercado capitalista, onde as relações entre as pessoas assumem a aparência de coisas.Rocha Junior, Transgressores da reificação, p. 552
  • Interpretação · Vladímir LêninO dinheiro encobre e dissimula o caráter social da atividade privada e o elo social entre os produtores ligados pelo mercado.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 6º parágrafo
  • Interpretação · Vladímir LêninO valor é uma relação entre pessoas dissimulada sob uma aparência material, que só se compreende a partir do sistema de relações sociais de produção de uma formação histórica determinada.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 4º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxNa Idade Média europeia, como a dependência pessoal formava a base social, trabalhos e produtos não precisavam assumir uma figura fantástica; o servo sabia que gastava uma parte da sua força de trabalho a serviço do senhor, e as relações sociais apareciam como relações pessoais, sem o disfarce de relações entre coisas.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 13
  • Interpretação · Karl MarxA forma da madeira muda quando dela se faz uma mesa, que continua a ser uma coisa sensível e corrente; logo que aparece como mercadoria, ela se transforma numa coisa sensivelmente suprassensível.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 1
  • Interpretação · Karl MarxAs proporções de troca parecem brotar da natureza dos produtos de trabalho, e o movimento social dos produtores tem para eles a forma de um movimento de coisas sob cujo controle eles se encontram, em vez de as controlarem.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 9
  • Interpretação · Karl MarxMarx chama de fetichismo esse caráter, por analogia com o mundo religioso, e diz que ele se cola aos produtos do trabalho logo que são produzidos como mercadorias e é inseparável da produção de mercadorias.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 4
  • Interpretação · Karl MarxO caráter místico da mercadoria não brota do seu valor de uso nem do conteúdo das determinações de valor, como o fato fisiológico de que todo trabalho é dispêndio de cérebro, nervos e músculos; ele brota da própria forma-mercadoria.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, §§ 2 e 3
  • Interpretação · Karl MarxOs objetos de uso só se tornam mercadorias porque são produtos de trabalhos privados realizados independentemente uns dos outros; como os produtores só entram em contato social pela troca, as ligações dos seus trabalhos aparecem como relações coisais entre pessoas e relações sociais entre coisas.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 6
  • FatoOs Ensaios sobre a teoria marxista do valor, de Rubin, e História e consciência de classe, de Lukács, foram publicados em 1923; o livro de Lukács reúne oito ensaios, entre eles A reificação e a consciência do proletariado.Rocha Junior, Transgressores da reificação, pp. 549 e 551, nota 3
  • Interpretação · Isaak Rubin, segundo Fernando Leitão Rocha JuniorMarx não mostrou apenas que as relações humanas eram encobertas por relações entre coisas, mas também que, na economia mercantil, as relações sociais de produção assumem inevitavelmente a forma de coisas e não podem se expressar senão através de coisas.Rocha Junior, Transgressores da reificação, p. 569
  • Interpretação · Isaak Rubin, segundo Fernando Leitão Rocha JuniorA teoria do fetichismo da mercadoria é transformada numa teoria geral das relações de produção numa sociedade mercantil.Rocha Junior, Transgressores da reificação, p. 570
  • Interpretação · Karl MarxA forma do salário apaga todo vestígio da divisão do dia de trabalho em trabalho necessário e sobretrabalho, em trabalho pago e não pago, e todo o trabalho aparece como trabalho pago; no trabalho assalariado, a relação monetária oculta o trabalho gratuito do assalariado.Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 12
  • Interpretação · Karl MarxSobre a forma fenomênica do salário, que torna invisível a relação real, repousam todas as representações jurídicas do operário e do capitalista, todas as mistificações do modo de produção capitalista e todas as suas ilusões de liberdade.Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 13
  • Interpretação · Karl MarxA figura do processo social de vida só se desfaz do seu véu místico quando estiver, como produto de homens livremente socializados, sob o seu controle consciente e planejado, o que exige uma base material que é produto de uma longa história de desenvolvimento.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 17

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  3. ROCHA JUNIOR, Fernando Leitão. Transgressores da reificação: as contribuições de Lukács e Rubin. Rio de Janeiro: Praia Vermelha (UFRJ), v. 23, n. 2, pp. 549-581, 2013. Abrir ↗
  4. Presidência da República. Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025 (salário mínimo a partir de 1º de janeiro de 2026). planalto.gov.br, 23/12/2025. Abrir ↗
  5. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 1, seção 4. O carácter de feitiço da mercadoria e o seu segredo (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  6. Fernando Leitão Rocha Junior. Transgressores da reificação: as contribuições de Lukács e Rubin (Praia Vermelha, 2013). revistas.ufrj.br. Abrir ↗
  7. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 17. Transformação de valor ou preço da força de trabalho em salário (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗