Explicação
Uma coisa cheia de sutilezas
Uma mesa é madeira trabalhada, uma coisa comum, mas quando ela aparece como mercadoria vira, nas palavras de Marx, uma coisa sensível e suprassensível ao mesmo tempo. O mistério não vem do valor de uso da mesa nem do fato de todo trabalho gastar cérebro, nervos e músculos, coisas que existem em qualquer sociedade. Ele vem da própria forma de mercadoria. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, §§ 1, 2 e 3)
Na forma de mercadoria, o caráter social do trabalho de cada pessoa aparece como uma qualidade natural dos produtos, e a relação entre os produtores aparece como uma relação entre objetos. Marx compara isso à religião, em que produtos da cabeça humana parecem figuras com vida própria, e chama de fetichismo esse caráter que se cola aos produtos do trabalho logo que eles são produzidos como mercadorias. A tradução portuguesa da editora Avante! usa a palavra feiticismo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 4)
De onde vem
Os objetos de uso só viram mercadorias porque são produtos de trabalhos privados, feitos de forma independente uns dos outros. Como os produtores só entram em contato social pela troca, as ligações entre os seus trabalhos aparecem como relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 6)
Por isso os produtores igualam os seus trabalhos sem saber que o fazem, e o valor transforma cada produto num hieróglifo social, um sinal que eles precisam decifrar depois. As proporções de troca parecem brotar da natureza dos produtos, e o movimento dos preços aparece como um movimento de coisas que controla os produtores, em vez de ser controlado por eles. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, §§ 8 e 9)
Lênin resume a ideia dizendo que o valor é uma relação entre pessoas dissimulada sob uma aparência material. Ele acrescenta que o dinheiro encobre o caráter social do trabalho privado e o elo entre os produtores ligados pelo mercado. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 4º e 6º parágrafos)
Uma aparência objetiva
Marx diz que a descoberta científica de que o valor é trabalho humano não dissipa essa aparência. As categorias da economia burguesa são formas de pensamento socialmente válidas e por isso objetivas para esse modo de produção, e o misticismo só desaparece quando se passa a outras formas de produção. Na Idade Média europeia, por exemplo, o servo sabia que gastava uma parte da sua força de trabalho a serviço do senhor, e as relações sociais apareciam como relações pessoais, sem o disfarce de relações entre coisas. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, §§ 8, 11 e 13)
O economista russo Isaak Rubin desenvolveu esse ponto nos anos 1920. Segundo Fernando Leitão Rocha Junior, Rubin afirma que Marx mostrou mais do que o encobrimento das relações humanas por relações entre coisas, porque na economia mercantil as relações sociais de produção assumem inevitavelmente a forma de coisas e só se expressam por meio delas. Para Rubin, a teoria do fetichismo se torna uma teoria geral das relações de produção da sociedade mercantil. (Rocha Junior, Transgressores da reificação, pp. 569 e 570)
Rocha Junior registra também a leitura de György Lukács, que, no ensaio A reificação e a consciência do proletariado, publicado em 1923, desenvolveu a partir do fetichismo o conceito de reificação. Leandro Konder, citado por Rocha Junior, explica que esse conceito trata das formas que a alienação assume quando se generaliza pelo mercado capitalista, onde as relações entre as pessoas ganham a aparência de coisas. (Rocha Junior, Transgressores da reificação, pp. 551 e 552)
O salário e o fim do véu
Marx mostra uma aparência parecida no salário. O salário aparece como o preço de todo o trabalho do dia, e essa forma apaga a divisão entre o tempo em que o trabalhador repõe o valor da sua força de trabalho e o tempo em que trabalha de graça para o capitalista. Marx diz que sobre essa aparência repousam as representações jurídicas do trabalhador e do capitalista e as ilusões de liberdade do modo de produção capitalista. (Marx, O capital, Livro I, cap. 17, §§ 12 e 13)
Para Marx, o véu místico que cobre o processo de produção só se desfaz quando esse processo, como produto de pessoas livremente associadas, estiver sob o seu controle consciente e planejado. Isso exige uma base material e condições de existência que são, elas mesmas, o resultado de uma longa história de desenvolvimento. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 17)
No Brasil
O Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, fixou o salário mínimo de 2026 em R$ 1.621,00 por mês e em R$ 7,37 por hora. O valor por hora aparece como o preço de uma hora de trabalho, a forma que, segundo Marx, faz todo o trabalho parecer pago e esconde a parte do dia em que o trabalhador produz para o capitalista sem receber. (Presidência da República, Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, art. 1º; Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 12)