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Conceitos / Estratégia e organização / Hegemonia

Bloco histórico

Em poucas palavras

Para Gramsci, bloco histórico é a ligação concreta, construída na história, entre a economia e a política de uma sociedade e as suas outras atividades, como a moral e a filosofia. Ele se forma quando dirigentes e dirigidos se unem por adesão orgânica, e um bloco novo exige atrair forças que seguiam os chefes tradicionais.

Eixo e tema
Estratégia e organização · Hegemonia
Obra principal
Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci

Explicação

Base e superestrutura juntas

No prefácio de 1859 à Contribuição à crítica da economia política, Marx escreve que o conjunto das relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade. Essa estrutura é a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política, à qual correspondem formas determinadas de consciência. Marx acrescenta que, numa certa etapa, as forças produtivas entram em contradição com as relações de produção e começa uma época de revolução social, em que toda a superestrutura se transforma, mais devagar ou mais depressa. (Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5)

Antonio Gramsci retoma o problema nos Cadernos do cárcere e pergunta que relação existe entre o momento econômico e político e as outras atividades humanas, como a arte, a moral e a filosofia. Para ele, a resposta só pode ser histórica, dada pelo conceito de bloco histórico, proposto por Sorel. Nessa nota, portanto, o bloco histórico é a ligação concreta, construída na história, entre a economia e a política de uma sociedade e a sua arte, a sua moral e a sua filosofia. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 10 II, § 41, seção 5, § 2)

A ligação entre dirigentes e dirigidos

Numa nota sobre os intelectuais, Gramsci escreve que a relação entre intelectuais e povo, entre dirigentes e dirigidos, pode ser uma adesão orgânica, em que o sentimento se torna compreensão e saber. Só então, diz ele, a relação é de representação, há troca de pessoas entre governantes e governados e se forma a vida de conjunto que é a força social. É nesse momento, conclui Gramsci, que se cria o bloco histórico. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 67, seção 4, § 44)

Como se forma um bloco novo

Gramsci observa que as ideias das massas andam atrasadas em relação à sua situação econômica, e que elementos ideológicos tradicionais podem frear o impulso que vem da economia. Por isso, escreve ele, é necessária uma luta consciente para fazer as massas compreenderem as exigências da sua posição econômica, que podem se opor às orientações dos chefes tradicionais. Uma iniciativa política, para Gramsci, precisa mudar a direção de certas forças que é preciso absorver para formar um bloco histórico econômico e político novo, homogêneo e sem contradições internas. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 23, seção 4, § 8)

Segundo Gramsci, duas forças parecidas só se fundem num organismo novo por uma série de compromissos, numa aliança, ou pela subordinação de uma à outra. A pergunta que ele faz é se existe a força necessária para isso e se vale a pena empregá-la. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 23, seção 4, § 8)

O bloco que dá estabilidade à ordem

Jacob Gorender usa o conceito para explicar a estabilidade da ordem burguesa. Segundo ele, na sociedade civil se movem as instituições que buscam o consenso das outras classes sociais, que formam com a classe dominante o bloco histórico que dá estabilidade a uma formação social. Entre essas instituições, Gorender cita a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas, a imprensa e o senso comum. (Gorender, Coerção e consenso na política, § 31)

Um exemplo brasileiro

Fernando Collor foi eleito em 1989 e Fernando Henrique Cardoso, no primeiro turno de 1994, ambos com programas neoliberais, como registra Armando Boito. Para Boito, essas vitórias não se explicam só pela manipulação eleitoral e indicam a formação de uma nova hegemonia burguesa no Brasil, a das propostas neoliberais. Ele define hegemonia, no sentido de Gramsci, como a conversão de uma ideologia e de uma plataforma de classe em cimento de um novo bloco histórico. Nesse bloco, a defesa do mercado e da empresa privada chegou às classes populares como senso comum. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55; Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80)

No Brasil

Bloco histórico no Brasil

Fernando Henrique Cardoso se elegeu no primeiro turno de 1994. Para Armando Boito, as vitórias de Collor e de Fernando Henrique indicaram uma nova hegemonia burguesa no Brasil, em que a ideologia neoliberal serviu de cimento de um novo bloco histórico. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55; Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Trad. Jean Bramon e Gilbert Moget e Armand Monjo e François Ricci e André Tosel. Paris: Éditions sociales (Textes, edição e seleção de André Tosel; trechos dos Cadernos em francês, na edição eletrônica de Les Classiques des sciences sociales transcrita no MIA, com a referência de cada trecho à edição crítica de Gerratana), 1983. Onde ler: Q 10 II, § 41; Q 11, § 67; Q 13, § 23 (tradução de Tosel).

    “Si le rapport entre intellectuels et peuple-nation, entre dirigeants et dirigés [...] est défini par une adhésion organique dans laquelle le sentiment-passion devient compréhension et par conséquent savoir (non pas mécaniquement, mais d'une manière vivante), on a alors, et seulement à cette condition, un rapport qui est de représentation [...] c'est-à-dire que se réalise la vie d'ensemble qui seule est la force sociale; c'est alors que se crée le « bloc historique ».”

    Q 11, § 67 (tradução de Tosel, seção 4, § 44)

    Ler grátis: Cadernos do cárcere ↗Ficha da obra: Cadernos do cárcere

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (11)
  • Interpretação · Armando Boito Jr.Seria errado atribuir as vitórias neoliberais de 1989 e 1994 apenas à manipulação do processo eleitoral; elas indicam a constituição de uma nova hegemonia burguesa no Brasil, a das concepções e propostas neoliberais, e hegemonia, no sentido gramsciano, é a conversão de uma ideologia e de uma plataforma política de classe em cimento de um novo bloco histórico.Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80
  • Interpretação · Armando Boito Jr.A apologia do mercado e da empresa privada ganhou a condição de verdadeiro senso comum, difundindo-se no conjunto da sociedade brasileira, inclusive nas classes populares.Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80
  • FatoOs governos neoliberais de Fernando Collor de Mello e de Fernando Henrique Cardoso chegaram ao poder pelo voto popular, nas eleições de 1989 e de 1994.Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80
  • FatoCandidato pela coligação PSDB, PFL e PTB, Fernando Henrique se elegeu no primeiro turno, em 3 de outubro de 1994, com 54,3% dos votos válidos.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 55
  • Interpretação · Jacob GorenderA sociedade civil é o âmbito em que se movem as instituições destinadas a obter o consenso das outras classes sociais que formam com a classe dominante o bloco histórico que dá estabilidade à formação social; aí entram a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas, a imprensa e o senso comum.Gorender, Coerção e consenso na política, § 31
  • Interpretação · Antonio GramsciSe a relação entre intelectuais e povo-nação, entre dirigentes e dirigidos, entre governantes e governados, é dada por uma adesão orgânica em que o sentimento-paixão se torna compreensão e, portanto, saber, então, e só nessa condição, a relação é de representação, há troca de elementos individuais entre governados e governantes e se realiza a vida de conjunto que é a força social; é então que se cria o bloco histórico.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 67, seção 4, § 44
  • Interpretação · Antonio GramsciOs fatos ideológicos de massa estão sempre atrasados em relação aos fenômenos econômicos de massa, e o impulso automático do fator econômico é às vezes freado ou momentaneamente quebrado por elementos ideológicos tradicionais; por isso deve haver uma luta consciente e preparada para fazer compreender as exigências da posição econômica de massa, que podem se opor às diretivas dos chefes tradicionais.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 23, seção 4, § 8
  • Interpretação · Antonio GramsciUma iniciativa política apropriada é sempre necessária para mudar a direção política de certas forças que é preciso absorver para realizar um bloco histórico econômico-político novo, homogêneo, sem contradições internas; como duas forças semelhantes só se fundem num organismo novo por uma série de compromissos ou pela força, pela aliança ou pela subordinação de uma à outra, a questão é saber se se possui a força necessária e se é produtivo empregá-la.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 13, § 23, seção 4, § 8
  • Interpretação · Antonio GramsciDado o princípio da dialética dos distintos de Croce, a questão é saber que relação existirá entre o momento econômico-político e as outras atividades históricas, e se há uma solução especulativa ou só uma solução histórica, dada pelo conceito de bloco histórico proposto por Sorel.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 10 II, § 41, seção 5, § 2
  • Interpretação · Karl MarxA totalidade das relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência.Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5
  • Interpretação · Karl MarxNuma certa etapa, as forças produtivas materiais entram em contradição com as relações de produção existentes, e começa uma época de revolução social, em que, com a transformação do fundamento econômico, toda a superestrutura se revoluciona, mais devagar ou mais depressa.Marx, Contribuição à crítica da economia política, § 5

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos; prefácio), 1982. Abrir ↗
  2. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Trad. Jean Bramon e Gilbert Moget e Armand Monjo e François Ricci e André Tosel. Paris: Éditions sociales (Textes, edição e seleção de André Tosel; trechos dos Cadernos em francês, na edição eletrônica de Les Classiques des sciences sociales transcrita no MIA, com a referência de cada trecho à edição crítica de Gerratana), 1983. Abrir ↗
  3. GORENDER, Jacob. Coerção e consenso na política. 1988. Abrir ↗
  4. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  5. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗
  6. Armando Boito Jr.. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil (Crítica Marxista, n. 3, 1996). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  7. Jacob Gorender. Coerção e consenso na política (Estudos Avançados, v. 2, n. 3, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Antonio Gramsci. La philosophie de la praxis face à la réduction mécaniste du matérialisme historique (L'anti-Boukharine, cahier 11), notas finais do caderno 11 (Q 11, §§ 53 a 67; Q 16), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 4, Quelques aspects théoriques et pratiques de l'économisme (Q 13, §§ 18 e 23), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Antonio Gramsci. La philosophie de la praxis contre l'historicisme idéaliste (L'anti-Croce, cahier 10), seção sobre a dialética dos distintos (Q 10 II, § 41), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Karl Marx. Para a crítica da economia política, prefácio (1859, com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗