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Estudos / História do Brasil / República de 1946 / Eurico Gaspar Dutra

Retrato oficial de Eurico Gaspar Dutra
Foto: Governo do Brasil, 1946. Public domain. Wikimedia Commons ↗

República de 1946PSDViés: anticomunismo da Guerra Fria

Eurico Gaspar Dutra

Governou de 31/01/1946 a 31/01/1951

Ministro da Guerra do Estado Novo, foi eleito em 1945 com o apoio de Vargas e governou de 1946 a 1951. No seu governo, a Constituinte promulgou a Constituição de 1946, o PCB perdeu o registro, o Brasil rompeu com a União Soviética e o Ministério do Trabalho interveio nos sindicatos. Para os comunistas da época, foi um governo de traição nacional, alinhado aos Estados Unidos na Guerra Fria.

Partido
Partido Social Democrático (PSD)
Como chegou
eleição direta de 2 de dezembro de 1945, com o apoio de Vargas
Como saiu
transmitiu o cargo a Getúlio Vargas, eleito em 1950
Nascimento
Cuiabá (MT), 1883
Morte
Rio de Janeiro (RJ), 1974
Antes da presidência
militar; comandante da 1ª Região Militar (1935-1936) e ministro da Guerra (1936-1945)

O governo em datas

Eurico Gaspar Dutra, 1946–1951

  1. 02/12/1945Dutra vence a eleição presidencial.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  2. 31/01/1946Posse de Dutra.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  3. 18/09/1946Promulgada a Constituição de 1946.Assembleia Constituinte, Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946
  4. 07/01/1948A Câmara aprova a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas.Maurício Grabois, A cassação dos mandatos
  5. 01/08/1950O PCB lança o Manifesto de Agosto contra o governo Dutra.Luiz Carlos Prestes, Nossa política

O que o governo fez

Principais medidas

Para entender o governo

O general do Estado Novo

Eurico Gaspar Dutra nasceu em Cuiabá (MT), em 1883, e fez carreira no Exército. Ele combateu a revolta paulista de 1924, defendeu Washington Luís em 1930 e lutou contra a Revolução Constitucionalista de 1932. Como comandante da 1ª Região Militar, destacou-se na repressão ao levante comunista de 1935 e foi ministro da Guerra de Vargas de 1936 a 1945. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30)

Embora fosse um dos colaboradores mais fiéis de Vargas, Dutra ficou ao lado dos oficiais que o depuseram em outubro de 1945. Candidato do Partido Social Democrático (PSD), ele venceu a eleição de 2 de dezembro de 1945 com o apoio do próprio Vargas. Teve 3.251.377 votos, 55,4% dos votos dados aos candidatos, e tomou posse em 31 de janeiro de 1946. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 29-30; Tribunal Superior Eleitoral, Votação nominal por UF, eleições de 1945)

A Constituição de 1946 e a Guerra Fria

Em 18 de setembro de 1946, a Assembleia Constituinte promulgou a quinta Constituição do país, que marcou o retorno ao regime democrático. No mesmo ano, o governo criou o Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Social do Comércio (SESC) e fechou os cassinos. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30; Assembleia Constituinte, Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946)

Em 1947, o Partido Comunista teve o seu registro cassado, e o Brasil rompeu relações diplomáticas com a União Soviética. Em 7 de janeiro de 1948, a Câmara aprovou a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas. Na tribuna, o deputado Maurício Grabois disse que poucos acreditavam na constitucionalidade do projeto e que a cassação era uma etapa de um plano para liquidar a democracia no Brasil. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30; Grabois, A cassação dos mandatos)

Sindicatos sob intervenção

Também em 1947, o Ministério do Trabalho interveio em vários sindicatos, mantendo a tutela do Estado sobre a atividade sindical. Essa tutela se apoiava no Decreto-Lei nº 9.070, que restringia o direito de greve. O Arquivo Nacional resume a política do governo como repressão sindical combinada com contenção dos salários. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30)

A política econômica

A política econômica teve duas fases. Na primeira, liberal, o governo reduziu a intervenção na economia, e as importações esgotaram depressa as reservas de moeda estrangeira. Na segunda, a partir de 1947 e de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), voltou o controle do câmbio, que manteve o cruzeiro valorizado, desestimulou as exportações e favoreceu a importação de máquinas e a expansão da indústria. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30)

O governo começou a construção da usina hidrelétrica de Paulo Afonso, na Bahia, e da rodovia Presidente Dutra, entre o Rio e São Paulo. Em outubro de 1948, criou a Escola Superior de Guerra (ESG), com o apoio dos Estados Unidos. Jacob Gorender registrou em 1950 que o próprio comandante da ESG, o general Cordeiro de Farias, dizia que a escola tinha sido copiada de modelos norte-americanos. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30; Gorender, A penetração militar do imperialismo ianque no Brasil)

Como os comunistas leram o governo

Para Gorender, então dirigente do PCB, o governo Dutra era ao mesmo tempo uma ditadura de latifundiários e burgueses, contra os operários e o povo, e um governo que tinha entregue a independência nacional ao imperialismo norte-americano. No Manifesto de Agosto de 1950, Luiz Carlos Prestes chamou o governo Dutra de governo de traição nacional, que entregava o país aos bancos e monopólios estrangeiros e governava pelo terror policial. O manifesto citou como exemplo a nota do Itamaraty de apoio à decisão do Conselho de Segurança da ONU sobre a Coreia. (Gorender, A penetração militar do imperialismo ianque no Brasil; Prestes, Manifesto de Agosto)

Nelson Werneck Sodré chamou Dutra de antigo condestável do Estado Novo, isto é, o chefe militar que tinha sustentado a ditadura, e viu no seu governo a continuação do que o Estado Novo tinha de mais atrasado. Para ele, esse governo promoveu um retrocesso que correspondia, no exterior, à Guerra Fria, mas teve de transigir em muito do que pretendia. Sodré conclui que o quadro da sucessão de 1950 mostrou que Vargas atendia melhor às condições do país. (Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 333)

Anos depois, Gorender avaliou que o PCB, posto na ilegalidade em 1947, desenvolveu uma política cada vez mais sectária, com chamados à luta armada fora do contexto da época. Essa linha, que o Manifesto de Agosto expressava, levou o partido a se abster na eleição de 1950 e a combater todo o governo seguinte de Vargas. (Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50; Gorender, Entrevista à Margem Esquerda)

Nesta leitura

O que dizem os historiadores marxistas

Leitura de classe do governo

Regime
democracia liberal restrita
Bloco no poder
PSD e UDN, com latifundiários e grandes capitalistas ligados ao imperialismo norte-americano, segundo a leitura do PCB em 1950 (Gorender, 1950; Prestes, 1950)
Relação com o imperialismo
alinhamento
Relação com os trabalhadores
repressão, tutela

Lutas de classes no governo

  • Trombas e Formoso · 1950–1964 · Povoados de Trombas e Formoso, na região de Uruaçu, norte de Goiás

Para estudar este governo

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (26)

Fontes desta página

  1. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  2. Tribunal Superior Eleitoral. Votação nominal por UF, eleições de 1945 (Portal de Dados Abertos do TSE; somas nossas). cdn.tse.jus.br. Abrir ↗
  3. Assembleia Constituinte. Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946. planalto.gov.br, 18/09/1946. Abrir ↗
  4. GRABOIS, Maurício. A cassação dos mandatos. 1948. Abrir ↗
  5. GORENDER, Jacob. A penetração militar do imperialismo ianque no Brasil. 1950. Abrir ↗
  6. PRESTES, Luiz Carlos. Manifesto de Agosto (Nossa política: Prestes aponta aos brasileiros o caminho da libertação). 1950. Abrir ↗
  7. SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
  8. GORENDER, Jacob. Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50. 2002. Abrir ↗
  9. GORENDER, Jacob. Entrevista à Margem Esquerda. 2007. Abrir ↗
  10. Maurício Grabois. A cassação dos mandatos (discurso na Câmara, 7 de janeiro de 1948). marxists.org, 07/01/1948. Abrir ↗
  11. Luiz Carlos Prestes. Nossa política: Prestes aponta aos brasileiros o caminho da libertação (Manifesto de Agosto, 1º de agosto de 1950). marxists.org, 01/08/1950. Abrir ↗