Estudos / História do Brasil / República de 1946 / Café Filho

República de 1946PSPViés: restauração antigetulista
Café Filho
Governou de 24/08/1954 a 08/11/1955
Vice-presidente eleito em 1950, assumiu quando Vargas se matou, em agosto de 1954, e entregou a economia ao ortodoxo Eugênio Gudin, que cortou gastos e crédito. O governo incentivou a entrada de capital estrangeiro e acabou impedido pelo Congresso em novembro de 1955, na crise da posse de Juscelino. Para Prestes, Café Filho era um joguete dos generais e um serviçal dos monopólios norte-americanos.
- Partido
- Partido Social Progressista (PSP)
- Como chegou
- vice-presidente eleito em 1950; assumiu com o suicídio de Vargas
- Como saiu
- afastou-se por doença em 3 de novembro de 1955; o Congresso aprovou o seu impedimento em 22 de novembro, decisão confirmada pelo STF em dezembro
- Nascimento
- Natal (RN), 1899
- Morte
- Rio de Janeiro (RJ), 1970
- Antes da presidência
- advogado; deputado federal (1935-1937 e 1946-1950), fundador do Partido Social Nacionalista potiguar e, com Ademar de Barros, do Partido Republicano Progressista; vice-presidente eleito em 1950
O governo em datas
Café Filho, 1954–1955
- 24/08/1954Café Filho assume com o suicídio de Vargas.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 03/08/1955Acordos atômicos firmados em segredo, segundo Sodré.Nelson Werneck Sodré, Formação histórica do Brasil
- 03/11/1955Café Filho se afasta do cargo por doença.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 08/11/1955Carlos Luz assume a presidência.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 22/11/1955O Congresso aprova o impedimento de Café Filho.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
O que o governo fez
Principais medidas
Plano Gudin
Contenção do crédito e corte das despesas públicas para combater a inflação.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a RepúblicaFundo Federal de Eletrificação
Imposto único sobre a energia elétrica.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a RepúblicaImposto na fonte
Desconto do imposto de renda na fonte sobre os salários.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a RepúblicaInstrução 113
Favores cambiais às empresas estrangeiras, segundo Sodré.
Nelson Werneck Sodré, Formação histórica do BrasilComissão da nova capital
Criação da Comissão de Localização da Nova Capital Federal.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
Para entender o governo
O vice que assumiu
João Café Filho nasceu em Natal (RN), em 1899, e era advogado. Participou da Aliança Liberal, fundou em 1933 o Partido Social Nacionalista do Rio Grande do Norte e foi deputado federal de 1935 a 1937, quando se destacou na defesa das liberdades constitucionais. Ameaçado de prisão no Estado Novo, ele se asilou na Argentina e voltou ao Brasil em 1938. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32)
Depois de 1945, Café Filho fundou com Ademar de Barros o Partido Republicano Progressista e voltou à Câmara. Em 1950, foi eleito vice-presidente pela coligação que formou o Partido Social Progressista (PSP), com 2.520.790 votos, 35,8% dos votos dados aos candidatos a vice. Ele assumiu a presidência em 24 de agosto de 1954, logo depois do suicídio de Getúlio Vargas. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32; Tribunal Superior Eleitoral, Votação nominal por UF, eleições de 1950)
A política de Gudin
Para o Ministério da Fazenda, Café Filho chamou Eugênio Gudin, defensor de uma política econômica ortodoxa, que buscou estabilizar a economia e combater a inflação. Gudin conteve o crédito e cortou as despesas públicas, porque via no déficit do governo a causa da inflação. O governo criou o imposto único sobre a energia elétrica, que formou o Fundo Federal de Eletrificação, e o desconto do imposto de renda na fonte sobre os salários. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32)
O governo incentivou a entrada de capital estrangeiro, o que teria efeito sobre a industrialização dos anos seguintes. Inaugurou também, em janeiro de 1955, a usina hidrelétrica de Paulo Afonso e criou a comissão encarregada de escolher o local da nova capital. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32)
A queda
Em 3 de novembro de 1955, Café Filho se afastou do cargo por causa de um problema cardiovascular e, em 8 de novembro, foi substituído pelo presidente da Câmara, Carlos Luz. Em 11 de novembro, um movimento militar liderado pelo ministro da Guerra, general Henrique Lott, depôs Carlos Luz, sob a alegação de que ele estava ligado aos que queriam impedir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Recuperado, Café Filho tentou voltar ao cargo, mas o Congresso aprovou o seu impedimento em 22 de novembro, e o Supremo Tribunal Federal confirmou a decisão em dezembro. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 32-33)
Como os marxistas leram o governo
Para Nelson Werneck Sodré, com a morte de Vargas as forças reacionárias chegaram ao poder e fizeram o que puderam num clima difícil. Segundo ele, o governo travou o projeto da Eletrobras, encareceu a gasolina ao mexer nas taxas de importação do petróleo e baixou a Instrução 113, norma de câmbio que deu favores excepcionais às empresas estrangeiras e permitiu que trouxessem máquinas velhas como se fossem novas. Sodré cita ainda os acordos atômicos firmados em segredo em 3 de agosto de 1955 e a tentativa de destruir a Petrobras, barrada pela opinião pública. (Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389)
Sodré conclui que essas forças fracassaram no essencial, que era instalar um regime de força, e tiveram de realizar a eleição de 1955 e aceitar a sucessão no fim de um mandato que ele chama de espúrio. Armando Boito Jr. trata a crise de agosto de 1954 como um golpe da grande burguesia organizada na União Democrática Nacional (UDN). (Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389; Boito Jr., Vargas e a herança populista, p. 32)
Em dezembro de 1954, o informe de Luiz Carlos Prestes ao IV Congresso do PCB chamou Café Filho de joguete nas mãos dos generais, brigadeiros e almirantes, que conduziam a política de colonização do Brasil pelos Estados Unidos. O informe dizia que a base política do novo governo era muito menor que a de Vargas e chamava o regime de ditadura americana de Café Filho. (Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, partes I e II)
Em julho de 1955, Prestes pediu a substituição do governo de 24 de agosto e chamou Café Filho de serviçal das forças reacionárias e dos monopólios norte-americanos. Ele defendeu a Constituição, eleições livres e a posse dos eleitos, quaisquer que fossem, e advertiu que as forças mais reacionárias preparavam um golpe. (Prestes, Nossa política)
Nesta leitura
O que dizem os historiadores marxistas
Nelson Werneck Sodré
Com a morte de Vargas, as forças reacionárias chegaram ao poder, travaram a Eletrobras, favoreceram o capital estrangeiro e tentaram destruir a Petrobras, mas não conseguiram instalar um regime de força.
Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389Luiz Carlos Prestes
Café Filho era joguete dos generais e serviçal dos monopólios norte-americanos, à frente de uma ditadura americana.
Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, partes I e IIArmando Boito Jr.
A crise de agosto de 1954 foi um golpe da grande burguesia organizada na UDN.
Boito Jr., Vargas e a herança populista, p. 32
Leitura de classe do governo
- Regime
- democracia liberal restrita
- Bloco no poder
- UDN, cúpula militar antigetulista e capital estrangeiro, com a política ortodoxa de Eugênio Gudin (Arquivo Nacional, p. 32; Sodré, p. 389; Prestes, 1954)
- Relação com o imperialismo
- alinhamento
- Relação com os trabalhadores
- repressão
Lutas de classes no governo
- Ligas Camponesas · 1955–1964 · Zona da Mata e agreste de Pernambuco e da Paraíba, a partir do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão (PE), com ligas em outros estados
Para estudar este governo
SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Onde ler: p. 389.
PRESTES, Luiz Carlos. Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil. 1954.
PRESTES, Luiz Carlos. Nossa política (entrevista de julho de 1955). 1955.
BOITO JR., Armando. Vargas e a herança populista. Vitória da Conquista: Politeia: História e Sociedade (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), v. 3, n. 1, pp. 29-37, 2003. Onde ler: p. 32.
De onde vem cada afirmação desta página (24)
- FatoCafé Filho afastou-se temporariamente da presidência em 3 de novembro de 1955, por um distúrbio cardiovascular, e em 8 de novembro foi substituído por Carlos Luz, presidente da Câmara.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- Interpretação · Armando Boito Jr.A grande burguesia organizou a UDN, partido com o qual fez diversos golpes de Estado, inclusive o de agosto de 1954.Boito Jr., Vargas e a herança populista, p. 32
- FatoO governo incentivou a entrada de capitais estrangeiros, o que repercutiria no processo de industrialização seguinte.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoCafé Filho foi ministro do Tribunal de Contas do Estado da Guanabara (1961-1970) e morreu no Rio de Janeiro em 20 de fevereiro de 1970.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoEleito deputado federal (1935-1937), Café Filho destacou-se pela defesa das liberdades constitucionais; ameaçado de prisão, asilou-se na Argentina e voltou ao Brasil em 1938.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoO ministro da Fazenda, Eugênio Gudin, defensor de uma política econômica mais ortodoxa, buscou estabilizar a economia e combater a inflação com a contenção do crédito e o corte das despesas públicas, por ver no déficit público a causa da inflação.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoRestabelecido, Café Filho tentou reassumir, mas o Congresso aprovou o seu impedimento em 22 de novembro de 1955, e o STF o confirmou em dezembro.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoNo governo Café Filho, instituiu-se o imposto único sobre a energia elétrica, que gerou o Fundo Federal de Eletrificação, e o imposto na fonte sobre a renda do trabalho assalariado.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoEm 11 de novembro de 1955, um movimento político-militar liderado pelo general Lott, ministro da Guerra, depôs Carlos Luz, sob a alegação de que ele estaria ligado a conspiradores que queriam impedir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 33
- FatoJoão Café Filho, advogado, nasceu em Natal (RN), em 3 de fevereiro de 1899.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoEm janeiro de 1955, foi inaugurada a usina hidrelétrica de Paulo Afonso, e o governo criou a Comissão de Localização da Nova Capital Federal.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- Interpretação · Luiz Carlos PrestesEm julho de 1955, Prestes defendia a substituição do governo de 24 de agosto e chamava Café Filho de serviçal e boneco das forças reacionárias e dos monopólios norte-americanos.Prestes, Nossa política
- Interpretação · Luiz Carlos PrestesA base política do governo Café Filho era muito menor que aquela em que se apoiava o governo Vargas, e o regime era uma ditadura americana.Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, partes I e II
- Interpretação · Luiz Carlos PrestesCafé Filho era um simples joguete nas mãos dos generais, brigadeiros e almirantes, que realizavam, sob o controle da embaixada norte-americana, a política de total colonização do Brasil pelos Estados Unidos.Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, parte I
- Interpretação · Luiz Carlos PrestesO essencial era defender a Constituição, exigir eleições livres e a posse dos eleitos, fossem quais fossem, porque as forças mais reacionárias preparavam um golpe.Prestes, Nossa política
- FatoCafé Filho fundou com Ademar de Barros o Partido Republicano Progressista, pelo qual se elegeu deputado federal (1946-1950).Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoCafé Filho ingressou na Aliança Liberal e foi um dos fundadores, em 1933, do Partido Social Nacionalista do Rio Grande do Norte.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- Interpretação · Nelson Werneck SodréEssas forças fracassaram no fundamental, que era a instauração de um regime de força, e foram obrigadas a realizar a eleição e a aceitar a sucessão no fim de um mandato espúrio.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389
- Interpretação · Nelson Werneck SodréA Instrução 113 permitiu às empresas estrangeiras introduzir como nova maquinaria obsoleta e concorrer com o empresário nacional, que não tinha esse amparo.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389
- FatoNo governo Café Filho, o projeto da Eletrobras foi travado, os ágios de importação mudaram de modo a aumentar o preço da gasolina, surgiu a Instrução 113, com favores de câmbio às empresas estrangeiras, e foram firmados em sigilo os acordos atômicos de 3 de agosto de 1955.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389
- Interpretação · Nelson Werneck SodréAs forças reacionárias tentaram destruir a Petrobras, mas encontraram a resistência da opinião generalizada do país.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389
- Interpretação · Nelson Werneck SodréCom a morte de Vargas, as forças reacionárias conquistaram o poder num clima difícil e fizeram o que lhes foi possível.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 389
- FatoCafé Filho foi eleito vice-presidente por uma coligação de partidos que se fundiram sob a sigla do PSP e assumiu a presidência com o suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 1954.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 32
- FatoNa eleição de 1950 para vice-presidente, Café Filho (PSP) teve 2.520.790 votos, 35,8% dos votos dados aos candidatos a vice.Tribunal Superior Eleitoral, Votação nominal por UF, eleições de 1950, soma das UFs; cálculo nosso
Fontes desta página
- Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
- Tribunal Superior Eleitoral. Votação nominal por UF, eleições de 1950 (Portal de Dados Abertos do TSE; somas nossas). cdn.tse.jus.br. Abrir ↗
- SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
- BOITO JR., Armando. Vargas e a herança populista. Vitória da Conquista: Politeia: História e Sociedade (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), v. 3, n. 1, pp. 29-37, 2003. Abrir ↗
- PRESTES, Luiz Carlos. Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil. 1954. Abrir ↗
- PRESTES, Luiz Carlos. Nossa política (entrevista de julho de 1955). 1955. Abrir ↗
- Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗