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Estudos / História do Brasil / Nova República / Dilma Rousseff

Retrato oficial de Dilma Rousseff
Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República; titular: Palácio do Planalto, 2011. Attribution. Wikimedia Commons ↗

Nova RepúblicaPTViés: neodesenvolvimentista, com ajuste fiscal em 2015

Dilma Rousseff

Governou de 01/01/2011 a 01/01/2015 e de 01/01/2015 a 31/08/2016

Economista presa e torturada pela ditadura, foi a primeira mulher eleita presidente, em 2010, e se reelegeu em 2014. Baixou os juros e sancionou a lei de cotas nas federais, mas em 2015 fez um ajuste fiscal e em 2016 foi deposta por impeachment. Para Armando Boito, a crise nasceu da ofensiva do campo neoliberal contra a frente neodesenvolvimentista, e os marxistas divergem sobre se houve golpe.

Partido
Partido dos Trabalhadores (PT)
Como chegou
eleita no segundo turno de 2010, com cerca de 56 milhões de votos, tendo Michel Temer como vice; reeleita em 26 de outubro de 2014, com 51,64% dos votos válidos, contra Aécio Neves
Como saiu
afastada em 12 de maio de 2016, quando o Senado abriu o processo de impeachment, e condenada por crime de responsabilidade em 31 de agosto de 2016, por 61 votos a 20, sem perder os direitos políticos
Nascimento
Belo Horizonte (MG), 1947
Antes da presidência
economista; militante da VAR-Palmares, presa pela Operação Bandeirante em 1969 e encarcerada até 1972; fundadora do PDT no Rio Grande do Sul; secretária da Fazenda de Porto Alegre (1986-1988) e secretária estadual de Minas, Energia e Comunicações; ministra de Minas e Energia (2003) e ministra-chefe da Casa Civil (a partir de 2005)

O governo em datas

Dilma Rousseff, 2011–2016

  1. 01/01/2011Dilma toma posse como a primeira presidenta do Brasil.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  2. 18/11/2011Lei nº 12.528 cria a Comissão Nacional da Verdade.Congresso Nacional, Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011
  3. 29/08/2012Lei nº 12.711 cria as cotas nas universidades federais.Congresso Nacional, Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012
  4. 02/04/2013Emenda nº 72 estende direitos aos trabalhadores domésticos.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 72, de 2 de abril de 2013
  5. 26/10/2014Dilma é reeleita com 51,64% dos votos válidos.Agência Senado, Dilma é reeleita presidente do Brasil
  6. 17/04/2016A Câmara autoriza o processo de impeachment por 367 votos a 137.Agência Senado, Impeachment
  7. 12/05/2016O Senado abre o processo, e Dilma é afastada.Agência Senado, Impeachment
  8. 31/08/2016O Senado condena Dilma por 61 votos a 20.Agência Senado, Dilma Rousseff perde o mandato de presidente da República, mas mantém direitos políticos

O que o governo fez

Principais medidas

Para entender o governo

Da resistência à ditadura à Casa Civil

Dilma Rousseff nasceu em Belo Horizonte, em 14 de dezembro de 1947, e começou a militar aos 16 anos em organizações contra a ditadura, como a Vanguarda Popular Revolucionária (VAR-Palmares). Presa em 1969 pela Operação Bandeirante, em São Paulo, foi torturada e ficou no presídio Tiradentes até 1972. Ela retomou o curso de economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ajudou a fundar o PDT gaúcho, entrou no PT em 2000 e foi ministra de Minas e Energia em 2003 e da Casa Civil a partir de 2005, coordenando o PAC e o Minha Casa, Minha Vida. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 65)

Candidata em 2010, com o presidente do PMDB, Michel Temer, de vice, Dilma venceu o segundo turno com cerca de 56 milhões de votos e foi a primeira mulher a presidir o Brasil. Em 26 de outubro de 2014, ela se reelegeu com 51,64% dos votos válidos, contra 48,36% de Aécio Neves, do PSDB, uma diferença de 3.459.963 votos. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 65; Agência Senado, Dilma é reeleita presidente do Brasil)

O primeiro mandato

A Lei nº 12.382, de fevereiro de 2011, fixou a política de valorização do salário mínimo até 2015, com a reposição da inflação e um aumento real igual ao crescimento do PIB de dois anos antes. Em novembro de 2011 vieram a Lei de Acesso à Informação e a Comissão Nacional da Verdade, criada para examinar as graves violações de direitos humanos de 1946 a 1988. A Lei nº 12.711, de 2012, reservou ao menos metade das vagas das universidades federais para quem estudou em escola pública, e a Emenda nº 72, de 2013, estendeu aos trabalhadores domésticos direitos dos demais trabalhadores. (Congresso Nacional, Lei nº 12.382, de 25 de fevereiro de 2011, art. 2º; Congresso Nacional, Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011, ementa; Congresso Nacional, Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011, art. 1º; Congresso Nacional, Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, art. 1º; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 72, de 2 de abril de 2013, artigo único)

Armando Boito e Tatiana Berringer registraram que o governo reduziu a taxa básica de juros e o spread bancário, que é a diferença entre o juro que o banco cobra e o que ele paga, e interveio para desvalorizar o real. Para Boito, essa nova matriz econômica tentou favorecer o capital produtivo da grande burguesia interna em detrimento do seu setor bancário, e a reação do capital internacional começou no início de 2013. Alfredo Saad Filho acrescenta que a burguesia financeira se afastou do governo com a tentativa de desmontar o tripé macroeconômico neoliberal, de metas de inflação, câmbio flutuante com livre movimento de capitais e aperto fiscal, e que a burguesia interna se afastou pelas políticas que ele chama de erráticas. (Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 32; Boito Jr., A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia, p. 157; Saad Filho, Avanços, contradições e limites dos governos petistas, pp. 171 e 174)

Os protestos de junho de 2013 começaram contra o aumento das tarifas de transporte e se ampliaram para críticas ao sistema político, à corrupção e aos gastos públicos, segundo o Arquivo Nacional. Boito avalia que essas manifestações afastaram do governo boa parte da baixa classe média, beneficiada pela expansão do ensino superior. (Arquivo Nacional, Dilma Vana Rousseff; Boito Jr., A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia, p. 159)

Ajuste fiscal e crise

No segundo mandato, a inflação subiu, o PIB caiu, e a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda trouxe um ajuste fiscal com medidas impopulares. A Lei nº 13.134, de junho de 2015, endureceu o acesso ao seguro-desemprego, que passou a exigir na primeira solicitação 12 meses de trabalho nos 18 anteriores à demissão. Valerio Arcary chamou essa virada de ajuste ultrarreacionário. (Arquivo Nacional, Dilma Vana Rousseff; Congresso Nacional, Lei nº 13.134, de 16 de junho de 2015, art. 1º; Arcary, Junho de 2013 a 2015, p. 150)

Para Boito, a crise foi provocada pela ofensiva do campo neoliberal ortodoxo, formado pelo capital internacional, pela fração da burguesia brasileira integrada a ele e pela alta classe média, contra a frente neodesenvolvimentista. A alta classe média forneceu a base de massa dos protestos de 2015 e agiu por dentro do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal. Diante da ofensiva, o governo escolheu recuar e aplicou o ajuste, sem mobilizar os setores populares para defender o próprio mandato. (Boito Jr., A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia, pp. 155-158 e 161)

Boito registra que as greves passaram de cerca de 300 em 2003 para mais de 2 mil por ano uma década depois. Ainda assim, demandas históricas do sindicalismo, como a jornada de 40 horas semanais e limites à terceirização, ficaram de fora, e parte do movimento sindical foi atraída para o campo neoliberal. (Boito Jr., A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia, p. 160)

O impeachment

O pedido de impeachment dos juristas Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior foi aceito em dezembro de 2015 pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha. A acusação era de crime de responsabilidade por decretos de crédito suplementar sem autorização do Congresso e por atrasos nos repasses do Plano Safra ao Banco do Brasil. Em 17 de abril de 2016, a Câmara autorizou o processo por 367 votos a 137, e em 12 de maio o Senado o abriu por 55 votos a 22, afastando Dilma do cargo. (Agência Senado, Impeachment; Agência Senado, Dilma Rousseff perde o mandato de presidente da República, mas mantém direitos políticos)

Em 31 de agosto de 2016, o Senado a condenou por 61 votos a 20, e Michel Temer tomou posse na mesma tarde. Numa segunda votação, 42 senadores votaram pela perda dos direitos políticos, menos que os 54 exigidos, e ela os manteve. O Arquivo Nacional registra que Dilma se declarou vítima de um golpe e que, em 2023, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região a inocentou das chamadas pedaladas fiscais. (Agência Senado, Dilma Rousseff perde o mandato de presidente da República, mas mantém direitos políticos; Arquivo Nacional, Dilma Vana Rousseff)

Golpe ou não, na leitura dos marxistas

Boito escreveu que o imperialismo e a fração da burguesia integrada a ele usaram a denúncia de corrupção da Operação Lava Jato para destruir a hegemonia que a grande burguesia interna obtivera com os governos do PT. Thiago Barison sustenta que houve golpe de Estado porque o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal agiram para depor o governo e para tirar Lula da eleição seguinte, coagindo o Congresso. Pablo Biondi, citado por Barison, defende de um ponto de vista marxista que o impeachment não foi golpe, nem num sentido alargado. (Boito Jr., A corrupção como ideologia, p. 16; Barison, O impeachment de 2016 e o conceito de golpe de Estado, pp. 77 e 82)

Em artigo publicado em 2016, Arcary considerava exageradas as análises que, em 2015, viam um golpe iminente e avaliava que a maioria da classe dominante preferia enfraquecer o governo e apostar em Levy. Angelita Matos Souza, na resenha de Caio Bugiato, aponta que a guinada industrialista do primeiro mandato abriu espaço para a oposição e para a Lava Jato. A coletânea organizada por André Flores Penha Valle e Pedro Felipe Narciso, segundo Luciana Raimundo, mostra a Fiesp, sob Paulo Skaf, à frente do apoio empresarial à deposição, com o grande capital industrial neutro. (Arcary, Junho de 2013 a 2015, pp. 148 e 151; Bugiato, Dependência e governos do PT, p. 153; Raimundo, A burguesia brasileira em ação, p. 150)

O que dizem os historiadores marxistas

Leitura de classe do governo

Regime
democracia liberal restrita
Bloco no poder
frente neodesenvolvimentista dirigida pela grande burguesia interna, minada a partir de 2013 pela ofensiva do capital internacional, da burguesia a ele integrada e da alta classe média (Boito, 2016, pp. 155-157)
Relação com o imperialismo
barganha
Relação com os trabalhadores
conciliação, concessão, ampliação de direitos

Lutas de classes no governo

  • Jornadas de Junho · 2013 · São Paulo, de onde os atos se espalharam para outras capitais e cidades do país

Para estudar este governo

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (43)

Fontes desta página

  1. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  2. Agência Senado. Dilma é reeleita presidente do Brasil (Senado Notícias, 26/10/2014). www12.senado.leg.br, 26/10/2014. Abrir ↗
  3. Congresso Nacional. Lei nº 12.382, de 25 de fevereiro de 2011 (salário mínimo e sua valorização). planalto.gov.br, 25/02/2011. Abrir ↗
  4. Congresso Nacional. Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011 (acesso a informações). planalto.gov.br, 18/11/2011. Abrir ↗
  5. Congresso Nacional. Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011 (cria a Comissão Nacional da Verdade). planalto.gov.br, 18/11/2011. Abrir ↗
  6. Congresso Nacional. Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012 (ingresso nas universidades federais). planalto.gov.br, 29/08/2012. Abrir ↗
  7. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 72, de 2 de abril de 2013 (direitos dos trabalhadores domésticos). planalto.gov.br, 02/04/2013. Abrir ↗
  8. BOITO JR., Armando; BERRINGER, Tatiana. Brasil: classes sociais, neodesenvolvimentismo e política externa nos governos Lula e Dilma. Curitiba: Revista de Sociologia e Política (UFPR), v. 21, n. 47, pp. 31-38, 2013. Abrir ↗
  9. BOITO JR., Armando. A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia. Crítica Marxista, n. 42, pp. 155-162, 2016. Abrir ↗
  10. SAAD FILHO, Alfredo. Avanços, contradições e limites dos governos petistas. Crítica Marxista, n. 42, pp. 171-177, 2016. Abrir ↗
  11. Arquivo Nacional. Dilma Vana Rousseff (biografia, Centro de Referência de Acervos Privados Presidenciais). presidentes.an.gov.br. Abrir ↗
  12. Congresso Nacional. Lei nº 13.134, de 16 de junho de 2015 (seguro-desemprego e abono salarial). planalto.gov.br, 16/06/2015. Abrir ↗
  13. ARCARY, Valerio. Junho de 2013 a 2015: as “placas tectônicas” começaram a se mover? Crítica Marxista, n. 42, pp. 147-153, 2016. Abrir ↗
  14. Agência Senado. Impeachment: da admissibilidade ao julgamento (Senado Notícias, 26/08/2016). www12.senado.leg.br, 26/08/2016. Abrir ↗
  15. Agência Senado. Dilma Rousseff perde o mandato de presidente da República, mas mantém direitos políticos (Senado Notícias, 31/08/2016). www12.senado.leg.br, 31/08/2016. Abrir ↗
  16. BOITO JR., Armando. A corrupção como ideologia. Crítica Marxista, n. 44, pp. 9-19, 2017. Abrir ↗
  17. BARISON, Thiago. O impeachment de 2016 e o conceito de golpe de Estado. Crítica Marxista, n. 56, pp. 77-84, 2023. Abrir ↗
  18. BUGIATO, Caio. Dependência e governos do PT (resenha do livro de Angelita Matos Souza). Crítica Marxista, n. 58, pp. 151-154, 2025. Abrir ↗
  19. RAIMUNDO, Luciana. A burguesia brasileira em ação: de Lula a Bolsonaro (resenha do livro organizado por André Flores Penha Valle e Pedro Felipe Narciso). Crítica Marxista, n. 57, pp. 149-151, 2024. Abrir ↗
  20. Congresso Nacional. Lei nº 12.871, de 22 de outubro de 2013 (Programa Mais Médicos). planalto.gov.br, 22/10/2013. Abrir ↗
  21. Congresso Nacional. Lei nº 13.260, de 16 de março de 2016 (terrorismo). planalto.gov.br, 16/03/2016. Abrir ↗