Explicação
Participar sem ilusões
Em Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de 1920, Lênin respondeu aos comunistas alemães que diziam que o parlamentarismo estava historicamente caduco. Ele concorda que a época do parlamento burguês terminou na escala da história mundial, mas lembra que daí até superá-lo na prática há uma luta longa no próprio terreno do capitalismo. Como milhões de operários ainda seguiam o partido católico do centro, Lênin conclui que participar das eleições e da tribuna parlamentar era obrigatório para educar as camadas atrasadas da própria classe. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, §§ 4, 8 e 10)
Lênin lembra que os bolcheviques participaram das eleições para a Assembleia Constituinte russa entre setembro e novembro de 1917. Para ele, essa participação ajudou a mostrar às massas atrasadas por que um parlamento assim merecia ser dissolvido. Lênin acrescenta que a ação das massas, como uma grande greve, é sempre mais importante que a ação parlamentar e que é preciso combinar a luta legal com a ilegal. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, §§ 11, 12 e 15)
A crítica, escreve Lênin, deve se dirigir aos chefes que não sabem ou não querem usar as eleições e a tribuna parlamentar de maneira revolucionária. Ele registra que Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht defenderam, em dezembro de 1918, a participação nas eleições alemãs, para levar às massas as palavras de ordem revolucionárias. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, § 18 e nota 1)
Contar as próprias forças
Em 1850, na Mensagem à Liga dos Comunistas, Marx e Engels recomendaram que os operários apresentassem candidatos próprios ao lado dos candidatos democratas burgueses. Mesmo onde não houvesse esperança de vitória, os candidatos operários serviriam para manter a autonomia do partido, contar as suas forças e levar a público a sua posição revolucionária. (Marx e Engels, Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas, § 19)
Em 1895, Engels contou que os operários alemães usaram o sufrágio universal, introduzido por Bismarck em 1866 nas eleições para o Reichstag, o parlamento alemão, e o transformaram de meio de engano em instrumento de emancipação. Segundo ele, o voto permitia contar quantos eram, servia de propaganda, abria contato com massas distantes nas campanhas e dava uma tribuna no parlamento. Engels concluiu que as instituições em que a dominação da burguesia se organiza oferecem à classe operária meios de lutar contra essas mesmas instituições, e lembrou que os camaradas de outros países não renunciavam ao direito à revolução. (Engels, Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França, §§ 21, 22 e 34, e nota N100)
Gramsci e as eleições
Em 1919, Antonio Gramsci escreveu que os revolucionários entraram na luta eleitoral para dar forma e unidade às massas, ligá-las ao partido e despertar nelas a consciência política. Ele acrescentou que a vanguarda não queria fazer as massas acreditarem que a crise poderia ser superada pela ação parlamentar reformista. Em 1921, Gramsci explicou que o Partido Comunista disputava as eleições para saber quantos o seguiam e quantos trabalhadores de outras classes reconheciam o proletariado como a futura classe dirigente. (Gramsci, Revolucionários e eleições, §§ 5 e 6; Gramsci, Os comunistas e as eleições, §§ 5 e 6)
Em 1925, Gramsci falou na Câmara italiana em nome do Partido Comunista e denunciou o projeto de lei contra as associações secretas como o primeiro ato real do fascismo para afirmar o que chamava de sua revolução. Jacob Gorender observa que o próprio Estado parlamentar pode produzir consenso, porque oferece às classes subalternas um jogo de que podem participar, com eleições periódicas e partidos legais, desde que aceitem as suas regras. (Gramsci, Discurso ao Parlamento italiano, §§ 1 e 5; Gorender, Coerção e consenso na política, § 36)
Um exemplo brasileiro
Em 1947, o Partido Comunista do Brasil teve o registro cassado. No dia em que a Câmara votou a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, em 7 de janeiro de 1948, o deputado Maurício Grabois disse da tribuna que já não falava a um parlamento soberano e se dirigia ao povo brasileiro. Grabois descreveu a cassação como uma etapa de um plano para liquidar a democracia, cuja primeira fase fora o cancelamento do registro do partido, e lembrou que a bancada eleita em 1945 e 1947 representava mais de meio milhão de eleitores. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30; Grabois, A cassação dos mandatos, §§ 2, 12 e 20)