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Conceitos / Estratégia e organização / Correlação de forças

Tática parlamentar

Em poucas palavras

Tática parlamentar é o uso das eleições e da tribuna do parlamento pelos comunistas para organizar e educar as massas, contar as próprias forças e denunciar o adversário, sem ilusões no parlamento burguês. Lênin a defendeu contra os esquerdistas de 1920 e lembrou que a ação das massas vale mais que a ação parlamentar.

Eixo e tema
Estratégia e organização · Correlação de forças
Obra principal
Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de Vladímir Ilitch Lênin

Explicação

Participar sem ilusões

Em Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de 1920, Lênin respondeu aos comunistas alemães que diziam que o parlamentarismo estava historicamente caduco. Ele concorda que a época do parlamento burguês terminou na escala da história mundial, mas lembra que daí até superá-lo na prática há uma luta longa no próprio terreno do capitalismo. Como milhões de operários ainda seguiam o partido católico do centro, Lênin conclui que participar das eleições e da tribuna parlamentar era obrigatório para educar as camadas atrasadas da própria classe. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, §§ 4, 8 e 10)

Lênin lembra que os bolcheviques participaram das eleições para a Assembleia Constituinte russa entre setembro e novembro de 1917. Para ele, essa participação ajudou a mostrar às massas atrasadas por que um parlamento assim merecia ser dissolvido. Lênin acrescenta que a ação das massas, como uma grande greve, é sempre mais importante que a ação parlamentar e que é preciso combinar a luta legal com a ilegal. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, §§ 11, 12 e 15)

A crítica, escreve Lênin, deve se dirigir aos chefes que não sabem ou não querem usar as eleições e a tribuna parlamentar de maneira revolucionária. Ele registra que Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht defenderam, em dezembro de 1918, a participação nas eleições alemãs, para levar às massas as palavras de ordem revolucionárias. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, § 18 e nota 1)

Contar as próprias forças

Em 1850, na Mensagem à Liga dos Comunistas, Marx e Engels recomendaram que os operários apresentassem candidatos próprios ao lado dos candidatos democratas burgueses. Mesmo onde não houvesse esperança de vitória, os candidatos operários serviriam para manter a autonomia do partido, contar as suas forças e levar a público a sua posição revolucionária. (Marx e Engels, Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas, § 19)

Em 1895, Engels contou que os operários alemães usaram o sufrágio universal, introduzido por Bismarck em 1866 nas eleições para o Reichstag, o parlamento alemão, e o transformaram de meio de engano em instrumento de emancipação. Segundo ele, o voto permitia contar quantos eram, servia de propaganda, abria contato com massas distantes nas campanhas e dava uma tribuna no parlamento. Engels concluiu que as instituições em que a dominação da burguesia se organiza oferecem à classe operária meios de lutar contra essas mesmas instituições, e lembrou que os camaradas de outros países não renunciavam ao direito à revolução. (Engels, Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França, §§ 21, 22 e 34, e nota N100)

Gramsci e as eleições

Em 1919, Antonio Gramsci escreveu que os revolucionários entraram na luta eleitoral para dar forma e unidade às massas, ligá-las ao partido e despertar nelas a consciência política. Ele acrescentou que a vanguarda não queria fazer as massas acreditarem que a crise poderia ser superada pela ação parlamentar reformista. Em 1921, Gramsci explicou que o Partido Comunista disputava as eleições para saber quantos o seguiam e quantos trabalhadores de outras classes reconheciam o proletariado como a futura classe dirigente. (Gramsci, Revolucionários e eleições, §§ 5 e 6; Gramsci, Os comunistas e as eleições, §§ 5 e 6)

Em 1925, Gramsci falou na Câmara italiana em nome do Partido Comunista e denunciou o projeto de lei contra as associações secretas como o primeiro ato real do fascismo para afirmar o que chamava de sua revolução. Jacob Gorender observa que o próprio Estado parlamentar pode produzir consenso, porque oferece às classes subalternas um jogo de que podem participar, com eleições periódicas e partidos legais, desde que aceitem as suas regras. (Gramsci, Discurso ao Parlamento italiano, §§ 1 e 5; Gorender, Coerção e consenso na política, § 36)

Um exemplo brasileiro

Em 1947, o Partido Comunista do Brasil teve o registro cassado. No dia em que a Câmara votou a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, em 7 de janeiro de 1948, o deputado Maurício Grabois disse da tribuna que já não falava a um parlamento soberano e se dirigia ao povo brasileiro. Grabois descreveu a cassação como uma etapa de um plano para liquidar a democracia, cuja primeira fase fora o cancelamento do registro do partido, e lembrou que a bancada eleita em 1945 e 1947 representava mais de meio milhão de eleitores. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30; Grabois, A cassação dos mandatos, §§ 2, 12 e 20)

No Brasil

Tática parlamentar no Brasil

Em 1947, o Partido Comunista do Brasil teve o registro cassado. Em 7 de janeiro de 1948, dia da votação da cassação dos mandatos comunistas, Maurício Grabois disse da tribuna que já não falava a um parlamento soberano e se dirigia ao povo brasileiro. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30; Grabois, A cassação dos mandatos, §§ 2 e 12)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. 1920. Onde ler: cap. VII.

    “Enquanto não tiverdes força para dissolver o parlamento burguês e quaisquer instituições reaccionárias de outro tipo, tendes a obrigação de trabalhar dentro delas precisamente porque ainda há nelas operários enganados pelo clero e pela vida em aldeias perdidas do campo, de outro modo correis o risco de vos converterdes em simples charlatães.”

    cap. VII, § 10

    Ler grátis: Esquerdismo, doença infantil do comunismo ↗Ficha da obra: Esquerdismo, doença infantil do comunismo

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)
  • FatoA introdução de Engels saiu com cortes na revista Die Neue Zeit e no livro de 1895, e a edição da Avante! segue o texto completo das provas tipográficas, cotejado com o manuscrito.Engels, Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França, ficha da página
  • Interpretação · Friedrich EngelsOs camaradas estrangeiros não renunciam ao seu direito à revolução, o único direito realmente histórico, em que assentam todos os Estados modernos.Engels, Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França, § 34
  • FatoO sufrágio universal foi introduzido por Bismarck em 1866 para as eleições para o Reichstag da Alemanha do Norte e em 1871 para as do Reichstag do Império Germânico unificado.Engels, Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França, nota N100
  • Interpretação · Friedrich EngelsCom a utilização do sufrágio universal entrou em ação um modo de luta novo do proletariado, porque se viu que as instituições estatais em que a dominação da burguesia se organiza oferecem possibilidades para a classe operária lutar contra essas mesmas instituições.Engels, Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França, § 22
  • Interpretação · Friedrich EngelsOs operários alemães utilizaram o sufrágio universal introduzido em 1866 e, nas palavras do programa marxista francês, transformaram o direito de voto de meio de logro em instrumento de emancipação; o sufrágio permitia contar quantos eram, servia de meio de propaganda, de contato com as massas nas campanhas eleitorais e de tribuna no Reichstag.Engels, Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França, § 21
  • Interpretação · Jacob GorenderO Estado representativo parlamentar pode ter caráter consensual, porque apela para o consenso das classes subalternas ao lhes oferecer um jogo de que podem participar, com eleições periódicas e liberdade de organização de partidos, com a possibilidade legal de chegarem ao poder, desde que aceitem as regras do jogo.Gorender, Coerção e consenso na política, § 36
  • Interpretação · Maurício GraboisA cassação dos mandatos é uma etapa de um plano traçado para liquidar a democracia no Brasil, cuja primeira fase foi o cancelamento do registro eleitoral do Partido Comunista do Brasil.Grabois, A cassação dos mandatos, § 12
  • Interpretação · Maurício GraboisOs parlamentares comunistas eram representantes de mais de meio milhão de brasileiros, que se manifestaram nas eleições de 2 de dezembro de 1945 e de 19 de janeiro de 1947.Grabois, A cassação dos mandatos, § 20
  • Interpretação · Maurício GraboisGrabois ocupou a tribuna certo de que já não falava para um parlamento soberano, capaz de defender a democracia, e se dirigiu não à maioria que liquidava a democracia, mas ao povo brasileiro.Grabois, A cassação dos mandatos, § 2
  • Interpretação · Antonio GramsciOs revolucionários conscientes aceitaram a luta eleitoral para criar uma forma e uma unidade primordial na multidão, uni-la ao Partido Socialista e dar-lhe um vislumbre de consciência política, sem fazê-la acreditar que é possível superar a crise com a ação parlamentar reformista; a vanguarda desceu às listas eleitorais para criar as condições do triunfo do proletariado, sem ilusão democrática nem ternura reformista.Gramsci, Revolucionários e eleições, §§ 5 e 6
  • Interpretação · Antonio GramsciO Partido Comunista concorre às eleições para saber quem são as suas tropas e contar os números que estão por trás dele, e a questão de princípio é a força expansiva do proletariado, isto é, quantos indivíduos de outras classes trabalhadoras o reconhecem como futura classe dominante.Gramsci, Os comunistas e as eleições, §§ 5 e 6
  • Interpretação · Antonio GramsciFalando como partido comunista na Câmara, Gramsci analisou o projeto de lei contra as sociedades secretas, apresentado como lei contra a maçonaria, como o primeiro ato real do fascismo para afirmar o que chamava de sua revolução, e disse representar os interesses da maioria do povo italiano, dos trabalhadores e camponeses.Gramsci, Discurso ao Parlamento italiano, §§ 1 e 5
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO parlamentarismo está historicamente caduco no sentido da propaganda e da escala histórica mundial, mas daí até a sua superação prática há uma enorme distância, e isso não elimina a necessidade de uma luta muito prolongada no terreno do capitalismo.Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, § 4
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA crítica deve se dirigir não contra o parlamentarismo ou a ação parlamentar, mas contra os chefes que não sabem, e mais ainda contra os que não querem, utilizar as eleições e a tribuna parlamentar de maneira revolucionária, comunista.Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, § 18
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninOs bolcheviques participaram nas eleições para a Assembleia Constituinte da Rússia em setembro a novembro de 1917, e a participação num parlamento democrático-burguês, mesmo semanas antes e depois da vitória da República Soviética, facilitou ao proletariado revolucionário demonstrar às massas atrasadas por que tais parlamentos merecem ser dissolvidos.Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, §§ 11 e 12
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA ação das massas, por exemplo uma grande greve, é sempre mais importante do que a ação parlamentar, e a combinação da luta legal e ilegal se torna cada vez mais obrigatória para o partido do proletariado revolucionário.Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, § 15
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninSe milhões de proletários alemães ainda seguiam o partido católico do centro, ou mesmo uma minoria considerável seguia os padres e os latifundiários, a participação nas eleições parlamentares e na luta na tribuna parlamentar era obrigatória para o partido do proletariado revolucionário, precisamente para educar as camadas atrasadas da sua própria classe; enquanto não houver força para dissolver o parlamento burguês, é obrigatório trabalhar dentro dele.Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, §§ 8 a 10
  • FatoNo congresso do Partido Comunista da Alemanha, em 30 de dezembro de 1918, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo se pronunciaram a favor da participação nas eleições para a Assembleia Nacional, para usar a tribuna parlamentar e popularizar as palavras de ordem revolucionárias, mas a maioria votou contra.Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. VII, nota 1
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsPor toda a parte, ao lado dos candidatos democratas burgueses, devem ser propostos candidatos operários; mesmo onde não houver esperança de sucesso, os operários devem apresentar os seus próprios candidatos para manterem a sua autonomia, contarem as suas forças e trazerem a público a sua posição revolucionária e os pontos de vista do partido.Marx e Engels, Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas, § 19
  • FatoEm 1947, o Partido Comunista teve o registro cassado.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30

Fontes desta página

  1. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. 1920. Abrir ↗
  2. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas. 1850. Abrir ↗
  3. ENGELS, Friedrich. Introdução à edição de 1895 de As lutas de classes em França. 1895. Abrir ↗
  4. GRAMSCI, Antonio. Revolucionários e eleições. Trad. Elita de Medeiros. Arquivo Marxista na Internet (tradução de Elita de Medeiros da versão inglesa do MIA; primeira edição em L'Ordine Nuovo, 15 de novembro de 1919). Abrir ↗
  5. GRAMSCI, Antonio. Os comunistas e as eleições. Trad. Elita de Medeiros. Arquivo Marxista na Internet (tradução de Elita de Medeiros da versão inglesa do MIA; primeira edição em L'Ordine Nuovo, 12 de abril de 1921). Abrir ↗
  6. GRAMSCI, Antonio. Discurso ao Parlamento italiano (contra o projeto de lei sobre as associações secretas). Trad. Elita de Medeiros. Arquivo Marxista na Internet (tradução de Elita de Medeiros da versão inglesa do MIA). Abrir ↗
  7. GORENDER, Jacob. Coerção e consenso na política. 1988. Abrir ↗
  8. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  9. GRABOIS, Maurício. A cassação dos mandatos. 1948. Abrir ↗
  10. Friedrich Engels. Introdução de Friedrich Engels à edição de 1895 de As lutas de classes em França, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Jacob Gorender. Coerção e consenso na política (Estudos Avançados, v. 2, n. 3, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Maurício Grabois. A cassação dos mandatos (discurso na Câmara, 7 de janeiro de 1948). marxists.org, 07/01/1948. Abrir ↗
  13. Antonio Gramsci. Revolucionários e eleições (L'Ordine Nuovo, 15 de novembro de 1919), no MIA. marxists.org, 15/11/1919. Abrir ↗
  14. Antonio Gramsci. Os comunistas e as eleições (L'Ordine Nuovo, 12 de abril de 1921), no MIA. marxists.org, 12/04/1921. Abrir ↗
  15. Antonio Gramsci. Discurso ao Parlamento italiano (1925), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Vladímir Ilitch Lênin. A doença infantil do esquerdismo no comunismo, cap. VII. Deve-se participar nos parlamentos burgueses?, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  17. Karl Marx e Friedrich Engels. Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas (março de 1850), com a ficha da edição da Avante!, no MIA. marxists.org. Abrir ↗