Explicação
O período entre duas sociedades
Em 1875, Marx escreveu que entre a sociedade capitalista e a comunista existe um período de transformação revolucionária de uma na outra, ao qual corresponde um período político de transição em que o Estado só pode ser a ditadura revolucionária do proletariado. O Manifesto Comunista já havia descrito esse Estado como o proletariado organizado como classe dominante. Segundo Marx, a primeira fase da sociedade comunista sai da capitalista depois de longas dores de parto, e só numa fase superior a sociedade poderá dar a cada um segundo as suas necessidades. (Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte IV, § 11, e parte I, glosa ao § 3 do programa; Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. II, § 72 da página do MIA)
Engels reclamou, numa carta de 1890, de debates que tratavam a sociedade socialista como uma coisa estável, fixada de uma vez por todas. Para ele, essa sociedade deve ser compreendida em contínua transformação e progresso, e o modo de repartir os produtos depende, antes de tudo, de quanto há para repartir. (Engels, Carta a Conrad Schmidt, § 4 da página do MIA)
As cinco estruturas da Rússia soviética
Em 1921, ao explicar a nova política econômica, a NEP, Lênin retomou um texto seu de 1918 e perguntou o que significa a palavra transição aplicada à economia. A resposta foi que no regime soviético existiam, lado a lado, elementos de capitalismo e de socialismo, e ele enumerou cinco estruturas, a economia camponesa patriarcal, a pequena produção de mercadorias, o capitalismo privado, o capitalismo de Estado e o socialismo. Num país de pequenos camponeses como a Rússia, predominava o elemento pequeno-burguês. (Lênin, Sobre o imposto em espécie, §§ 13 a 21 da página do MIA; Losurdo, A China regrediu ao capitalismo? Reflexões sobre a transição do capitalismo para o socialismo, § 6 da página do MIA)
Para Lênin, o imposto em espécie era uma forma de transição do comunismo de guerra, imposto pela miséria, pela ruína e pela guerra, para uma troca socialista regular de produtos. O Estado passava a recolher dos camponeses, como imposto, a quantidade mínima de cereais necessária para o exército e os operários, e trocaria o restante por produtos da indústria. (Lênin, Sobre o imposto em espécie, §§ 65 e 68 da página do MIA)
Capitalismo de Estado e concessões
Lênin defendia que, sem forças para passar diretamente da pequena produção ao socialismo, o poder soviético devia orientar o capitalismo para a via do capitalismo de Estado, como elo intermediário para elevar as forças produtivas. Ele chamou as concessões de acordo, bloco ou aliança do poder de Estado proletário com o capitalismo de Estado contra o elemento pequeno-proprietário. O concessionário era um capitalista que buscava lucro, e o poder soviético ganhava com o aumento imediato da quantidade de produtos. (Lênin, Sobre o imposto em espécie, §§ 76, 81 e 91 da página do MIA)
A concessão, segundo Lênin, era um contrato direto, formal e escrito com o capitalismo mais avançado da Europa Ocidental, com prazo e condições de resgate, pelo qual o Estado soviético pagava um certo tributo ao capitalismo mundial. Ele achava concebível uma passagem quase direta ao socialismo só com a eletrificação do país, e calculava que a primeira fase desse trabalho exigiria pelo menos dez anos. (Lênin, Sobre o imposto em espécie, §§ 82 e 89 da página do MIA)
Meios de produção e meios de consumo
Em O capital, Marx divide a produção total da sociedade em dois departamentos, o dos meios de produção, que entram no consumo produtivo, e o dos meios de consumo, que entram no consumo individual dos capitalistas e da classe operária. (Marx, O capital, Livro II, cap. 20, seção II, §§ 8 a 10 da página do MIA)
Domenico Losurdo descreve os primeiros quinze anos da Rússia soviética como três experimentos diferentes em rápida sucessão, o comunismo de guerra, a NEP e a coletivização completa da economia. Para ele, foi sobretudo o perigo crescente de guerra que levou ao abandono da NEP, e depois da coletivização forçada a economia soviética combinou um rápido desenvolvimento da indústria moderna com a construção de um Estado de bem-estar social. Nos últimos anos da União Soviética, segundo Losurdo, a produção estagnou e deixou de valer o princípio de remunerar segundo a quantidade e a qualidade do trabalho. (Losurdo, A China regrediu ao capitalismo? Reflexões sobre a transição do capitalismo para o socialismo, §§ 6, 12 e 13 da página do MIA)
China e Vietnã
Losurdo compara a NEP às reformas de Deng Xiaoping na China e observa que as duas partem de uma mesma ideia, a de que a expropriação política total da burguesia não equivale à sua expropriação econômica total. A diferença, segundo ele, é que a NEP envolvia uma parte muito pequena da economia privada e foi pensada como recuo temporário. Losurdo registra ainda que as reformas de Deng estimularam um crescimento econômico sem precedentes e tiraram milhões de pessoas da pobreza. (Losurdo, A China regrediu ao capitalismo? Reflexões sobre a transição do capitalismo para o socialismo, §§ 59 e 79 da página do MIA)
A Constituição do Vietnã, de 2013, define a economia do país como uma economia de mercado de orientação socialista, com várias formas de propriedade e setores, em que a economia estatal tem o papel dominante. A terra, a água e os recursos minerais são propriedade pública, de todo o povo, representada e administrada pelo Estado. Em 1872, Marx já defendia que o movimento social levaria à decisão de que a terra só pode ser possuída pela própria nação. (Assembleia Nacional do Vietnã, The Constitution of the Socialist Republic of Vietnam, art. 51, item 1, e art. 53; Marx, A nacionalização da terra, § 16)
No Brasil
Florestan Fernandes escreveu, em 1981, que o Brasil viveu várias situações revolucionárias e que todas foram resolvidas dentro da ordem, com a vitória das forças conservadoras. Para ele, a revolução dentro da ordem, que alarga a sociedade burguesa pela ação dos trabalhadores, era instrumental para o proletariado. Por isso, um partido proletário não podia tratar a revolução nacional dentro do capitalismo como etapa necessária e prévia da revolução proletária. (Fernandes, O que é revolução?, pp. 40, 71 e 76)