Explicação
Duas medidas diferentes
Marx chama de valor de uso a utilidade de uma coisa, que depende das suas propriedades físicas, como as do ferro, do trigo ou do diamante. Esse caráter útil não depende de a coisa ter custado muito ou pouco trabalho, e o valor de uso só se realiza no uso ou no consumo. Os valores de uso formam o conteúdo material da riqueza em qualquer sociedade, e na sociedade capitalista eles também carregam o valor de troca. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 4)
O valor de troca aparece como a proporção em que valores de uso de uma espécie se trocam por valores de uso de outra, e essa proporção muda com o tempo e o lugar. Por isso ele parece algo casual e puramente relativo. Marx mostra que, se um quarter de trigo se troca por quantidades diferentes de graxa, seda ou ouro, todas essas quantidades exprimem uma mesma coisa, que está por trás delas. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, §§ 5 e 6)
Na troca, um valor de uso vale tanto quanto outro, desde que venha na proporção certa. Como valores de uso, as mercadorias diferem em qualidade, e como valores de troca elas só diferem em quantidade. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, §§ 9 e 11)
O valor por trás da troca
O que as mercadorias trocadas têm em comum é o trabalho humano gasto na sua produção, que Marx chama de valor. O valor de troca é a forma em que esse valor aparece, e o próprio Marx corrige, no mesmo capítulo, a fórmula de que a mercadoria é valor de uso e valor de troca. A rigor, diz ele, a mercadoria é valor de uso e valor, e o valor só ganha a forma de valor de troca quando a mercadoria se relaciona com outra, de espécie diferente. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 14; Livro I, cap. 1, seção 3, § 52)
O valor tem uma existência puramente social, porque não há um átomo de matéria natural nele, e ele só aparece na relação de uma mercadoria com outra. O desenvolvimento dessa relação leva à forma-dinheiro, em que o ouro passa a ser o equivalente geral, a mercadoria em que todas as outras exprimem o seu valor. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 3, §§ 2, 3, 87 e 88)
Utilidade sem valor e riqueza sem trabalho
Uma coisa pode ser útil sem ter valor, como o ar e o solo virgem, porque a sua utilidade não depende de trabalho humano. Ao contrário, nada pode ter valor sem ser útil, porque o trabalho gasto numa coisa inútil não conta como trabalho. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 19)
Marx também separa a riqueza material do valor. O trabalho é uma fonte dos valores de uso, mas não a única, porque a natureza fornece a matéria e as forças que o trabalho transforma, e Marx cita William Petty, para quem o trabalho é o pai da riqueza e a terra é a mãe. Em 1875, ao criticar o programa do Partido Operário Alemão, Marx rejeitou a frase de que o trabalho é a fonte de toda a riqueza e lembrou que a natureza também é fonte dos valores de uso. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 8; Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte I, glosa ao § 1 do programa)
Por isso, uma quantidade maior de valores de uso pode ter um valor menor. Quando a força produtiva do trabalho sobe, o mesmo trabalho produz mais casacos no mesmo tempo, e o valor de cada casaco cai, embora a riqueza material aumente. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 15)
Uma divergência entre marxistas
O economista Marcelo Dias Carcanholo registra que parte da tradição marxista tirou o valor de uso do campo da economia política. Ele cita Rudolf Hilferding, pela leitura de Roman Rosdolsky, e Paul Sweezy, para quem o valor de uso expressa só uma relação entre o consumidor e o objeto e fica fora do estudo das relações sociais. Para Carcanholo, essa leitura é um equívoco, porque o valor de uso entra na teoria quando muda as relações sociais de produção ou é mudado por elas, o que ele chama de valor de uso formal. (Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, pp. 27, 28 e 29)
O exemplo de Carcanholo é a força de trabalho, cuja utilidade para o capitalista é a capacidade de produzir valor. Marx diz que esse valor de uso específico, ser fonte de mais valor do que a própria força de trabalho tem, é o que decide a compra, e é dele que nasce a mais-valia, o valor que o trabalhador produz além do que recebe. (Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, p. 38; Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, § 24)
No Brasil
Em fevereiro de 2025, o preço do café moído acumulava alta de 66,18% em doze meses no IPCA, o índice de preços ao consumidor do IBGE. O café continuou servindo para a mesma coisa, mas a quantidade de dinheiro pela qual ele se trocava mudou muito em um ano, como Marx descreve ao dizer que o valor de troca muda com o tempo e o lugar. (IBGE, IPCA e INPC, fevereiro de 2025, p. 11; Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 5)