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Conceitos / Estratégia e organização / Organização

Centralismo democrático

Em poucas palavras

Centralismo democrático é o princípio de organização em que o partido discute com liberdade e age com unidade. Lênin o resumiu em 1906 como liberdade plena de crítica, desde que ela não perturbe a unidade de uma ação já decidida. Gramsci distinguiu esse centralismo do centralismo burocrático, em que o partido só executa ordens.

Eixo e tema
Estratégia e organização · Organização
Obra principal
Liberdade para criticar e unidade de ação, de Vladímir Ilitch Lênin

Explicação

Liberdade de crítica e unidade de ação

Em abril de 1906, o Partido Operário Social-Democrata da Rússia realizou o seu IV Congresso, chamado de Congresso da Unidade. Pouco depois, o Comitê Central, de maioria menchevique, aprovou uma resolução que permitia criticar as decisões do congresso nas reuniões do partido e proibia a agitação contra elas nas reuniões públicas. Lênin respondeu que a crítica dentro dos princípios do programa do partido deve ser livre, inclusive nas reuniões públicas, e que a ação política do partido deve ser unida. (Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, §§ 3, 6, 7 e 10)

Lênin explicou a regra com um exemplo. Depois que o congresso decidiu participar das eleições para a Duma, o parlamento russo, nenhum militante tinha o direito de chamar o povo a se abster de votar durante a campanha, mas, antes de as eleições serem anunciadas, todos tinham o direito de criticar a decisão. Para ele, o princípio do centralismo democrático implica uma liberdade universal e plena de crítica, desde que ela não perturbe a unidade de uma ação decidida pelo partido. (Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, §§ 12 e 13)

No balanço do congresso, citado pelo tradutor, Lênin pediu que as organizações locais fossem as unidades principais do partido e que todos os órgãos superiores fossem eleitos, prestassem contas e pudessem ser destituídos. Ele defendia organizações unidas em que houvesse só a luta de ideias entre as tendências do partido. (Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, nota 1)

Da Internacional ao X Congresso

Em 1920, as condições de admissão na Internacional Comunista exigiam que os partidos se organizassem pelo princípio do centralismo democrático. O texto dizia que, naquele período de guerra civil aguda, os partidos precisavam ser muito centralizados, ter disciplina de ferro e centros dirigentes com amplos poderes e com a confiança dos militantes. (Vladímir Ilitch Lênin, Terms of Admission into Communist International, condição 13)

Em março de 1921, o X Congresso do Partido Comunista da Rússia proibiu as frações, isto é, os grupos com plataforma própria e disciplina de grupo dentro do partido. A resolução mandou dissolver esses grupos, sob pena de expulsão, e determinou que as críticas fossem levadas à discussão de todos os membros, com folhetos de discussão publicados com regularidade. (X Congresso do Partido Comunista da Rússia, On Party Unity, resolução do X Congresso do Partido Comunista da Rússia, 16 de março de 1921, pontos 2, 4 e 6)

Centralismo democrático e burocrático

Antonio Gramsci, nos Cadernos do cárcere, deu um critério para julgar um partido pelo seu funcionamento. Segundo ele, o partido progressista funciona de modo democrático, no sentido de um centralismo democrático, e o partido regressivo funciona de modo burocrático, no sentido de um centralismo burocrático. Nesse último caso, escreve Gramsci, o partido só executa ordens e não decide, e o nome de partido político vira uma metáfora. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 14, § 34, seção 8, § 1)

Gramsci também tratou da disciplina. Para ele, a disciplina partidária é a assimilação consciente e lúcida da diretriz a realizar e não anula a personalidade. O que decide se ela é democrática, segundo Gramsci, é a origem do poder que a comanda. Ele acrescenta que, numa ação já decidida, uma orientação em parte errada costuma fazer menos mal do que a desobediência. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 14, § 48, seção 9, §§ 1 e 2)

A crítica de Rosa Luxemburgo

Em 1904, Rosa Luxemburgo chamou de ultracentralismo a proposta de Lênin, que, segundo ela, daria ao Comitê Central o poder de decidir sobre os órgãos locais e faria dele o único órgão pensante do partido. Para Rosa, o centralismo socialista cresce na medida da formação política da classe trabalhadora e não pode trocar o controle aberto das massas sobre o partido pelo controle do Comitê Central sobre elas. Ela concluiu que os erros de um movimento revolucionário de verdade valem mais que a infalibilidade do comitê central mais astuto. (Luxemburgo, Problemas organizacionais da socialdemocracia russa, §§ 6, 19 e 44)

Lênin respondeu que Rosa confundia o seu projeto de estatuto com o texto alterado pela comissão do congresso e que nunca dissera que o Comitê Central era o único núcleo ativo do partido. Ele afirmou que o seu livro defendia os princípios elementares de qualquer organização partidária e que tinha defendido com firmeza só a regra de aplicar os estatutos aprovados pelo congresso até o congresso seguinte. (Lênin, Um passo em frente, dois passos atrás, § 1)

Um exemplo brasileiro

Em março de 1980, Luiz Carlos Prestes publicou uma Carta aos comunistas em que denunciava a direção do Partido Comunista Brasileiro. Ele escreveu que no Comitê Central não se exercia a direção coletiva, que define como o planejamento e o controle das resoluções tomadas pela maioria, e que havia total ausência de democracia interna. Para Prestes, um partido comunista de massas só seria possível se fosse democrático em todos os aspectos do seu funcionamento. (Prestes, Carta aos comunistas, §§ 8, 12 e 20)

No Brasil

Centralismo democrático no Brasil

Em março de 1980, na Carta aos comunistas, Prestes denunciou a falta de direção coletiva e a total ausência de democracia interna na direção do PCB, e defendeu um partido de massas democrático em todo o seu funcionamento. (Luiz Carlos Prestes, Carta aos comunistas, §§ 8 e 12; Prestes, Carta aos comunistas, §§ 8, 12 e 20)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. Liberdade para criticar e unidade de ação. 1906. Onde ler: §§ 10, 12 e 13 e nota 1.

    “O princípio do centralismo democrático e da autonomia das organizações partidárias locais implica uma liberdade universal e plena de crítica, desde que isso não perturbe a unidade de uma ação definida; exclui todas as críticas que perturbem ou dificultem a unidade de uma ação decidida pelo Partido.”

    § 13

    Ler aqui: Liberdade para criticar e unidade de ação

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (21)
  • FatoOs partidos que pertencem à Internacional Comunista devem ser organizados pelo princípio do centralismo democrático; no período de guerra civil aguda, os partidos comunistas só cumprem o seu dever se forem organizados da maneira mais centralizada, com uma disciplina de ferro e centros dirigentes fortes, com amplos poderes e a confiança unânime dos membros.Vladímir Ilitch Lênin, Terms of Admission into Communist International, condição 13
  • FatoEm maio de 1906, 300 membros do POSDR do distrito Moskovsky, em São Petersburgo, discutiram os resultados do Congresso da Unidade, o IV Congresso do POSDR, de 10 a 25 de abril de 1906, e aprovaram uma emenda de Lênin pela discussão das decisões do congresso também na imprensa e nas reuniões públicas; em resposta, o Comitê Central, de maioria menchevique, adotou a resolução que Lênin critica.Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, § 3 (apresentação do tradutor)
  • Interpretação · Antonio GramsciNuma ação já decidida, uma orientação parcialmente errada pode fazer menos mal do que uma desobediência, mesmo justificada por razões gerais.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 14, § 48, seção 9, § 2
  • Interpretação · Antonio GramsciQuando o partido é progressista, funciona democraticamente, no sentido de um centralismo democrático; quando é regressivo, funciona burocraticamente, no sentido de um centralismo burocrático, e nesse caso é um simples executante, que não decide, e o seu nome de partido político é uma pura metáfora.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 14, § 34, seção 8, § 1
  • Interpretação · Antonio GramsciA disciplina é uma assimilação consciente e lúcida da diretriz a realizar; ela não anula a personalidade nem a liberdade, e a questão se põe na origem do poder que comanda a disciplina, que, se for democrática, faz da disciplina um elemento necessário da ordem democrática.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 14, § 48, seção 9, § 1
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninResta aplicar os princípios do centralismo democrático na organização do partido, transformar as organizações locais nas principais unidades organizacionais do partido e mostrar que todos os órgãos superiores são eleitos, responsáveis e sujeitos à revogação, com organizações unidas em que haja apenas uma luta puramente ideológica entre as tendências.Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, nota 1 (balanço do congresso, maio de 1906, citado pelo tradutor)
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninRosa Luxemburgo confundiu o projeto de estatutos de Lênin com o projeto alterado pela comissão e com os estatutos adotados pelo congresso; Lênin nunca defendeu que o Comitê Central fosse o único núcleo ativo do partido e defendeu intransigentemente só a tese de que os estatutos adotados pelo congresso devem ser aplicados até serem modificados pelo congresso seguinte.Lênin, Um passo em frente, dois passos atrás, § 1
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA crítica dentro dos limites dos princípios do programa do partido deve ser bastante livre, não apenas nas reuniões do partido, mas também nas reuniões públicas; a ação política do partido deve ser unida, e nenhuma convocação que viole a unidade de ações definidas pode ser tolerada.Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, § 10
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninDepois que o congresso decidiu participar nas eleições para a Duma, nenhum membro do partido tem o direito, durante as eleições, de chamar o povo a se abster de votar, e a crítica da decisão também não pode ser tolerada nesse período; antes de as eleições serem anunciadas, os membros têm o perfeito direito de criticar a decisão.Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, § 12
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO princípio do centralismo democrático e da autonomia das organizações partidárias locais implica uma liberdade universal e plena de crítica, desde que isso não perturbe a unidade de uma ação definida, e exclui todas as críticas que perturbem ou dificultem a unidade de uma ação decidida pelo partido.Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, § 13
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO livro de Lênin defende os princípios elementares de qualquer sistema de qualquer organização partidária concebível.Lênin, Um passo em frente, dois passos atrás, § 1
  • FatoA Carta aos comunistas de Luiz Carlos Prestes é de março de 1980.Prestes, Carta aos comunistas, título da fonte
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesO oportunismo, o carreirismo, a falta de princípios e a total ausência de democracia interna no funcionamento da direção obrigavam Prestes a denunciar a situação a todos os comunistas.Prestes, Carta aos comunistas, § 12
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesNo Comitê Central do PCB não se exercia o princípio da direção coletiva, caracterizado pela planificação e pelo controle das resoluções tomadas pela maioria, e nele reinavam a indisciplina e a confusão.Prestes, Carta aos comunistas, § 8
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesUm Partido Comunista de massas só poderá ser realidade se for verdadeiramente democrático, não apenas na luta pela democracia no país, mas em todos os aspectos do seu funcionamento.Prestes, Carta aos comunistas, § 20
  • FatoA resolução do Comitê Central dava liberdade total para expressar opiniões na imprensa e nas reuniões do partido, mas mandava que, nas reuniões políticas públicas, os membros se abstivessem de agitação contrária às decisões do congresso.Lênin, Liberdade para criticar e unidade de ação, §§ 6 e 7
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoOs erros cometidos por um movimento verdadeiramente revolucionário são infinitamente mais frutíferos do que a infalibilidade do Comitê Central mais astuto.Luxemburgo, Problemas organizacionais da socialdemocracia russa, § 44
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoO centralismo socialista é uma tendência que se concretiza na proporção do desenvolvimento e da formação política da classe trabalhadora, e é um erro substituir o controle aberto das massas trabalhadoras sobre os órgãos do partido pelo controle do Comitê Central sobre o proletariado revolucionário.Luxemburgo, Problemas organizacionais da socialdemocracia russa, § 19
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoO livro de Lênin expõe a tendência ultracentralista, segundo a qual o Comitê Central teria o privilégio de eleger os órgãos dirigentes locais e de decidir sobre a dissolução das organizações locais, e seria o único órgão pensante do partido.Luxemburgo, Problemas organizacionais da socialdemocracia russa, § 6
  • FatoO congresso ordenou a dissolução imediata de todos os grupos formados com base em alguma plataforma, sob pena de expulsão imediata do partido; a resolução foi aprovada em 16 de março de 1921.X Congresso do Partido Comunista da Rússia, On Party Unity, resolução do X Congresso do Partido Comunista da Rússia, 16 de março de 1921, ponto 6 e data da resolução
  • FatoO X Congresso do Partido Comunista da Rússia registrou sinais de faccionismo, isto é, de grupos com plataformas próprias e disciplina de grupo, e determinou que a crítica das falhas do partido fosse submetida à discussão de todos os membros, com folhetos de discussão publicados com regularidade.X Congresso do Partido Comunista da Rússia, On Party Unity, resolução do X Congresso do Partido Comunista da Rússia, 16 de março de 1921, pontos 2 e 4

Fontes desta página

  1. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Liberdade para criticar e unidade de ação. 1906. Abrir ↗
  2. Vladímir Ilitch Lênin. Terms of Admission into Communist International (julho de 1920; Collected Works, v. 31, pp. 206-211, tradução de Julius Katzer), no MIA em inglês. marxists.org. Abrir ↗
  3. X Congresso do Partido Comunista da Rússia. On Party Unity, resolução do X Congresso do Partido Comunista da Rússia, 16 de março de 1921 (KPSS v rezoliutsiiakh, v. 2), no MIA em inglês. marxists.org, 16/03/1921. Abrir ↗
  4. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Trad. Jean Bramon e Gilbert Moget e Armand Monjo e François Ricci e André Tosel. Paris: Éditions sociales (Textes, edição e seleção de André Tosel; trechos dos Cadernos em francês, na edição eletrônica de Les Classiques des sciences sociales transcrita no MIA, com a referência de cada trecho à edição crítica de Gerratana), 1983. Abrir ↗
  5. LUXEMBURGO, Rosa. Problemas organizacionais da socialdemocracia russa. 1904. Abrir ↗
  6. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Um passo em frente, dois passos atrás. Resposta de N. Lênin a Rosa Luxemburgo. 1904. Abrir ↗
  7. PRESTES, Luiz Carlos. Carta aos comunistas. 1980. Abrir ↗
  8. Luiz Carlos Prestes. Carta aos comunistas (março de 1980). marxists.org. Abrir ↗
  9. Vladímir Ilitch Lênin. Centralismo democrático. Liberdade para criticar e unidade de ação (Volna, 20 de maio de 1906), tradução do LavraPalavra, no MIA. marxists.org, 20/05/1906. Abrir ↗
  10. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 9, Centralisme organique, centralisme démocratique, discipline (Q 14, § 48), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 8, Fonction progressive ou régressive d'un parti (Q 14, § 34), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Vladímir Ilitch Lênin. Um passo em frente, dois passos atrás. Resposta de N. Lénine a Rosa Luxemburg (setembro de 1904), com a ficha da edição da Avante!, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Rosa Luxemburgo. Problemas organizacionais da socialdemocracia russa (Die Neue Zeit, 1904), no MIA. marxists.org. Abrir ↗