Explicação
Uma potência imperialista
Em 1916, Lênin contava os Estados Unidos entre os três Estados que dominavam o mundo, ao lado da Alemanha e da Inglaterra. Ele descreveu como, em 1907, o truste elétrico americano e o alemão fizeram um acordo para dividir o mundo, e como a Standard Oil, de Rockefeller, disputava com outros grupos financeiros a partilha do mercado mundial do petróleo. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. V, §§ 9, 12 e 13; cap. VII, § 23)
Na Carta aos operários americanos, de 1918, Lênin escreveu que a América ocupava o primeiro lugar no desenvolvimento das forças produtivas e um dos primeiros no abismo entre um punhado de multimilionários e milhões de trabalhadores à beira da miséria. Para ele, o povo americano, que tinha feito uma guerra revolucionária contra a escravidão feudal, foi posto no papel de carrasco que em 1898 estrangulou as Filipinas com o pretexto de libertá-las. A nota dos editores explica que os Estados Unidos entraram em guerra com a Espanha em abril de 1898, receberam as Filipinas pelo tratado de Paris, em dezembro, e atacaram a república filipina em fevereiro de 1899. (Lênin, Carta aos operários americanos, § 3 e nota N334)
Lênin escreveu também que os multimilionários americanos foram os que mais ganharam com a guerra de 1914 a 1918 e transformaram todos os países, mesmo os mais ricos, em tributários. Em 1920, ele observou que os Estados Unidos tinham passado de devedores a credores de todos e eram a única potência que ficara absolutamente independente do ponto de vista financeiro. (Lênin, Carta aos operários americanos, § 7; Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 19 de julho, §§ 6 e 11)
A América e a doutrina Monroe
Em 2 de dezembro de 1823, o presidente James Monroe declarou ao Congresso que os continentes americanos não deviam mais ser objeto de colonização por potências europeias e que qualquer tentativa europeia de estender o seu sistema a este hemisfério seria tratada como perigosa para a paz e a segurança dos Estados Unidos. A página dos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos registra que, em 1904, Theodore Roosevelt reivindicou para o país um poder de polícia internacional, usado para justificar intervenções em outros países do hemisfério, e que fuzileiros americanos foram enviados a São Domingos em 1904, à Nicarágua em 1911 e ao Haiti em 1915. (National Archives dos EUA, Monroe Doctrine, mensagem de 1823 e nota histórica)
Em 1927, diante de uma nova invasão da Nicarágua por tropas americanas, José Carlos Mariátegui escreveu que os Estados Unidos punham os olhos naquele país havia muitos anos e, com pretextos parecidos, metiam a mão na sua autonomia formal. Para ele, os Estados Unidos tinham interesse em manter a América Central dividida e em conflito, porque o seu desenvolvimento industrial e financeiro os empurrava a dominar mercados, rotas de comércio e centros de matérias-primas. (Mariátegui, O imperialismo ianque na Nicarágua, §§ 1, 2, 6 e 7)
A nova liderança depois de 1945
Virgínia Fontes escreve que, depois da Segunda Guerra Mundial, os países imperialistas procuraram voltar à situação econômica anterior, agora sob a liderança dos Estados Unidos. Para ela, a nova partilha do mundo envolvia assegurar a convivência entre as potências imperialistas e afirmar o poder militar e econômico dos Estados Unidos diante da União Soviética. (Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 156)
Os Estados Unidos e o Brasil
Jacob Gorender escreveu em 1950 que a entrada do Brasil na guerra, em 1942, abriu um período novo, com a criação de uma Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos, a ocupação de bases aéreas e navais do Norte e do Nordeste por tropas americanas e cursos de oficiais brasileiros nos Estados Unidos. Para ele, as forças armadas brasileiras passaram a trocar o modelo francês pelo americano, e a comissão continuou funcionando depois da guerra. Para Gorender, tratava-se da absorção do aparelho militar do país por uma potência estrangeira, que ele chamou de penetração militar do imperialismo ianque, isto é, estadunidense. (Gorender, A penetração militar do imperialismo ianque no Brasil, §§ 18, 23 e 59)
O relatório da Comissão Nacional da Verdade registra que o anteprojeto da Escola Superior de Guerra foi escrito em 1948 por militares brasileiros liderados pelo general Cordeiro de Farias e por três militares americanos. O mesmo relatório diz que, a partir do fim de 1961, o governo Kennedy, contrariado com a recusa de Goulart em romper com Cuba, começou a agir para derrubá-lo, orientação que produziu resultados no governo Johnson, com o golpe de abril de 1964. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, pp. 88 e 227)
Em telegrama de 28 de março de 1964, o embaixador Lincoln Gordon recomendou preparar uma entrega clandestina de armas de origem não americana aos apoiadores do general Castelo Branco em São Paulo, junto com combustível, e o envio de uma força-tarefa naval. Em 31 de março, o Departamento de Estado comunicou a decisão de mandar navios-tanque com combustível e uma força-tarefa com um porta-aviões e de reunir cerca de 110 toneladas de munição para um transporte aéreo a São Paulo, para poder ajudar as forças contrárias a Goulart se isso fosse decidido, numa operação que recebeu o nome de Brother Sam. (Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA, Foreign Relations of the United States, 1964-1968, v, §§ 13 e 14; Office of the Historian, Departamento de Estado dos EUA, Foreign Relations of the United States, 1964-1968, v, itens 1 a 3 e nota 1)
Caio Navarro de Toledo escreve que, a rigor, o golpe não começou em Washington, porque os protagonistas foram as facções duras das forças armadas e o empresariado nacional. Para ele, porém, os documentos publicados comprovam a participação ativa e o apoio dos Estados Unidos, e o trabalho ostensivo do embaixador Gordon não deixa dúvida sobre o papel do país na queda do governo constitucional de Goulart. (Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, p. 22 e p. 27, nota 17)