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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Trabalho abstrato

Em poucas palavras

Trabalho abstrato é o trabalho humano igual que sobra quando se deixa de lado a forma concreta de cada atividade, como costurar ou tecer. Para Marx, é ele que forma o valor das mercadorias, medido pelo tempo socialmente necessário, enquanto o trabalho concreto produz a utilidade. O economista Isaak Rubin mostrou que essa igualação dos trabalhos se faz pela troca e é própria da produção de mercadorias.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

Um trabalho com duas faces

Marx diz que foi o primeiro a apontar de forma crítica o caráter duplo do trabalho contido na mercadoria, e que esse é o ponto em torno do qual gira a compreensão da economia política. Assim como a mercadoria tem valor de uso e valor, o trabalho que a produz tem duas faces. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 1)

A primeira face é o trabalho útil ou concreto, a atividade com uma finalidade, um modo de operar e um resultado, como costurar um casaco ou tecer linho. Esse trabalho é condição de existência do ser humano em qualquer sociedade, porque é ele que transforma a natureza para atender às necessidades humanas. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, §§ 3 e 7)

A segunda face aparece quando se deixa de lado o que cada trabalho tem de particular. Costurar e tecer são atividades diferentes, mas as duas são gasto de cérebro, músculos, nervos e mãos humanos, e nesse sentido são trabalho humano igual, que Marx chama de trabalho humano abstrato. É esse trabalho abstrato que forma o valor das mercadorias, enquanto o trabalho concreto produz os valores de uso. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, §§ 10, 11 e 16)

Como se mede

A grandeza do valor se mede pela duração do trabalho abstrato, contada em tempo socialmente necessário, isto é, o tempo médio exigido nas condições normais de produção da época. Um trabalho mais qualificado, que Marx chama de complexo, conta como trabalho simples multiplicado, e essa redução acontece por um processo social que corre nas costas dos produtores. Marx observa também que, na sociedade capitalista, uma mesma porção de trabalho humano é oferecida ora como costura, ora como tecelagem, conforme muda a direção da procura. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 17; Livro I, cap. 1, seção 2, § 10)

Como a força produtiva pertence ao trabalho concreto, ela muda a quantidade de produtos feita numa hora, mas não muda o valor criado nessa hora. O mesmo trabalho abstrato gera, no mesmo tempo, a mesma grandeza de valor, que se reparte por mais ou menos produtos conforme a produtividade. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 15)

A igualação pela troca

Na troca, os produtores igualam os seus produtos como valores e, com isso, igualam os seus trabalhos como trabalho humano, sem saber que o fazem. Lênin resume o ponto dizendo que o que há de comum em todas as mercadorias é o trabalho humano abstrato, e não o trabalho concreto de um ramo, e que a produção de mercadorias é um sistema de relações sociais. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 1º parágrafo)

O economista russo Isaak Rubin, morto em 1937, publicou os seus Ensaios sobre a teoria do valor de Marx em 1923, e o livro saiu no Brasil como A teoria marxista do valor, pela Brasiliense, em 1980. Rubin insistiu que o trabalho abstrato é uma forma social própria da economia mercantil. (Rocha Junior, Transgressores da reificação, p. 549; Isaak Illich Rubin, Ensaios sobre a teoria do valor de Marx, prefácio da 3ª edição, resumo; Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 3)

Segundo Ozileia Cardoso da Silva e Henrique Wellen, Rubin criticou a leitura que reduz o trabalho abstrato a gasto de energia fisiológica, porque nesse caso ele existiria em todas as épocas da história. Para Rubin, o trabalho abstrato é a forma que a igualação dos trabalhos assume numa economia mercantil, em que essa igualação acontece por meio da troca, fora do processo de produção. (Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 4)

A leitura de Rubin precisa dar conta da frase do próprio Marx de que todo trabalho é gasto de força humana no sentido fisiológico. Silva e Wellen explicam que, para Rubin, o trabalho fisiologicamente igual é um pressuposto do trabalho abstrato, mas não se confunde com ele, porque o valor é uma função social e o trabalho que o cria é uma substância social. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 16; Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 4)

Silva e Wellen concluem, com Rubin, que o valor das mercadorias só existe a partir da igualdade social dos trabalhos gastos na sua produção. Eles lembram que a forma mercadoria já existia antes do capitalismo, mas que só nele ela ganhou as determinações que fazem surgir o trabalho abstrato. (Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 8)

No Brasil

O IBGE calculou que o produto interno bruto do Brasil, a soma do que se produziu no país, chegou a R$ 12.738,6 bilhões em 2025, com R$ 775,3 bilhões de valor adicionado pela agropecuária, R$ 2.566,8 bilhões pela indústria e R$ 7.609,9 bilhões pelos serviços. Somar numa conta só, em reais, o trabalho de lavouras, fábricas e escritórios é possível porque a troca iguala os produtos como valores e, por trás deles, iguala os trabalhos como trabalho humano, como Marx explica. Os pesquisadores Pedro Sampaio, Alessandro Miebach e Henrique Morrone lembram que, na leitura marxista, setores como o financeiro, o comercial e a administração pública entram nessa soma, mas consomem valor já existente sem produzir mais-valor. (IBGE, Contas nacionais trimestrais, p. 18; Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8; Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 210)

No Brasil

Trabalho abstrato no Brasil

Em 2025, o IBGE somou num só número, R$ 12.738,6 bilhões, o produto de lavouras, fábricas e serviços. Para Marx, a troca torna comparáveis produtos tão diferentes porque iguala os trabalhos que os produziram como trabalho humano abstrato. (IBGE, Contas nacionais trimestrais, p. 18; Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 1, seção 2; Livro I, cap. 1, seção 1, § 17; Livro I, cap. 1, seção 4, § 8.

    “Todo o trabalho é, por um lado, dispêndio de força de trabalho humana no sentido fisiológico, e nesta qualidade de trabalho humano igual ou trabalho humano em abstracto ele forma o valor das mercadorias. Todo o trabalho é, por outro lado, dispêndio de força de trabalho humana de uma forma particular e com um fim determinado, e nesta qualidade de trabalho útil concreto produz valores de uso.”

    Livro I, cap. 1, seção 2, § 16

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (21)
  • Interpretação · Karl MarxO trabalho mais complexo conta como trabalho simples potenciado ou multiplicado, e as proporções dessa redução são fixadas por um processo social nas costas dos produtores.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 10
  • Interpretação · Karl MarxTodo trabalho é dispêndio de força de trabalho humana no sentido fisiológico, e nessa qualidade de trabalho humano igual ou abstrato forma o valor das mercadorias; como trabalho útil concreto, produz valores de uso.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 16
  • Interpretação · Karl MarxAbstraindo do caráter útil do trabalho, resta o fato de ser dispêndio de força de trabalho humana; costura e tecelagem, embora diferentes, são ambas dispêndio produtivo de cérebro, músculos, nervos e mãos humanos.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 10
  • Interpretação · Karl MarxComo formador de valores de uso, o trabalho útil é condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociedade, uma eterna necessidade natural para mediar a troca material entre o homem e a natureza.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 7
  • Interpretação · Karl MarxA natureza dupla do trabalho contido na mercadoria foi apontada criticamente por Marx em primeiro lugar, e esse ponto é o fulcro em volta do qual gira a compreensão da economia política.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 1
  • Interpretação · Vladímir LêninO que é comum em todas as mercadorias é o trabalho humano abstrato, e não o trabalho concreto de um ramo determinado; a produção de mercadorias é um sistema de relações sociais em que os produtores tornam equivalentes os seus produtos no momento da troca.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 1º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxNa troca, ao igualarem entre si os seus produtos como valores, os homens igualam os seus diversos trabalhos como trabalho humano; eles não o sabem, mas o fazem.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8
  • FatoEm 2025, o produto interno bruto do Brasil totalizou R$ 12.738,6 bilhões em valores correntes; o valor adicionado foi de R$ 775,3 bilhões na agropecuária, R$ 2.566,8 bilhões na indústria e R$ 7.609,9 bilhões nos serviços.IBGE, Contas nacionais trimestrais, p. 18
  • Interpretação · Karl MarxNa sociedade capitalista, conforme muda a direção da procura de trabalho, uma dada porção de trabalho humano é fornecida alternadamente sob a forma de costura ou de tecelagem.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 10
  • Interpretação · Karl MarxA força produtiva pertence à forma útil concreta do trabalho; o mesmo trabalho produz nos mesmos espaços de tempo sempre a mesma magnitude de valor, mude como mudar a força produtiva, mas fornece quantidades diferentes de valores de uso.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 15
  • FatoOs Ensaios sobre a teoria marxista do valor, de Isaak Rubin, foram publicados pela primeira vez em 1923, o mesmo ano de História e consciência de classe, de Lukács.Rocha Junior, Transgressores da reificação, p. 549 (resumo)
  • FatoIsaak Illich Rubin viveu de 1886 a 1937; a 3ª edição dos seus Ensaios saiu em 1928 na União Soviética, e as traduções brasileiras, com o título A teoria marxista do valor, saíram pela Brasiliense em 1980 e pela Polis em 1987.Isaak Illich Rubin, Ensaios sobre a teoria do valor de Marx, prefácio da 3ª edição, resumo
  • Interpretação · Isaak Rubin, segundo Ozileia Cardoso da Silva e Henrique WellenDefinido como dispêndio de energia fisiológica, o trabalho abstrato vira um conceito desprovido de elementos sociais e históricos, que existiria em todas as épocas, independentemente da forma social de produção; Rubin rejeita essa definição.Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 4
  • Interpretação · Isaak Rubin, segundo Ozileia Cardoso da Silva e Henrique WellenO trabalho abstrato está vinculado a uma forma social definida e expressa relações entre os homens no processo de produção; o trabalho concreto é o trabalho definido pelas propriedades técnico-materiais, e o conceito de trabalho abstrato expressa a organização social do trabalho numa sociedade mercantil-capitalista.Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 3
  • Interpretação · Isaak Rubin, segundo Ozileia Cardoso da Silva e Henrique WellenO trabalho fisiologicamente igual é pressuposto do trabalho abstrato, mas não se confunde com ele; como o valor do produto do trabalho é uma função social, o trabalho que o cria é uma substância social.Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 4
  • Interpretação · Isaak Rubin, segundo Ozileia Cardoso da Silva e Henrique WellenO trabalho abstrato expressa a forma particular que a igualação do trabalho adquire numa economia mercantil, na qual a igualação não é feita diretamente no processo de produção, mas através da troca.Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 4
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneApesar de resultarem em lucro contábil, setores como o financeiro, o imobiliário, o comercial, o jurídico e a administração pública consomem valores preexistentes sem produzir mais-valor como contrapartida.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 210
  • Interpretação · Karl MarxCostura e tecelagem só são substância do valor na medida em que se abstrai da sua qualidade particular e elas possuem a qualidade igual de trabalho humano.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 11
  • Interpretação · Ozileia Cardoso da Silva e Henrique WellenUma das conclusões da análise de Rubin é que, na sociedade capitalista, o valor das mercadorias só existe a partir da igualdade social dos trabalhos gastos na sua produção; a forma mercadoria já existia em sociedades pré-capitalistas, mas no capitalismo surgiram novas determinações que se refletem no surgimento do trabalho abstrato.Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 8
  • Interpretação · Karl MarxÉ o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso que determina a grandeza do seu valor.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 17
  • Interpretação · Karl MarxO trabalho útil é a atividade produtiva determinada pela sua finalidade, modo de operação, objeto, meios e resultado, cuja utilidade se manifesta no valor de uso do seu produto.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 3

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  3. ROCHA JUNIOR, Fernando Leitão. Transgressores da reificação: as contribuições de Lukács e Rubin. Rio de Janeiro: Praia Vermelha (UFRJ), v. 23, n. 2, pp. 549-581, 2013. Abrir ↗
  4. Isaak Illich Rubin. Ensaios sobre a teoria do valor de Marx, prefácio da 3ª edição (1928), tradução de Virgínio Martins Gouveia (Eleutheria, UFMS, v. 8, n. 15). periodicos.ufms.br, 06/08/2024. Abrir ↗
  5. SILVA, Ozileia Cardoso da; WELLEN, Henrique André Ramos. Trabalho abstrato e teoria marxista do valor. Florianópolis: Revista Katálysis (UFSC), v. 28, e107329, 2025. Abrir ↗
  6. IBGE. Contas nacionais trimestrais: indicadores de volume e valores correntes, out.-dez. 2025. ftp.ibge.gov.br, 03/03/2026. Abrir ↗
  7. SAMPAIO, Pedro Henrique Feliciano Dias; MIEBACH, Alessandro Donadio; MORRONE, Henrique. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 209-231, 2022. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 1, seção 2. Carácter duplo do trabalho exposto nas mercadorias (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 1, seção 4. O carácter de feitiço da mercadoria e o seu segredo (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Fernando Leitão Rocha Junior. Transgressores da reificação: as contribuições de Lukács e Rubin (Praia Vermelha, 2013). revistas.ufrj.br. Abrir ↗
  12. Ozileia Cardoso da Silva e Henrique André Ramos Wellen. Trabalho abstrato e teoria marxista do valor (Revista Katálysis, 2025). periodicos.ufsc.br. Abrir ↗
  13. Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique Morrone. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015 (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗
  14. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 1, seção 1. Os dois factores da mercadoria: valor de uso e valor (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗