Explicação
Um trabalho com duas faces
Marx diz que foi o primeiro a apontar de forma crítica o caráter duplo do trabalho contido na mercadoria, e que esse é o ponto em torno do qual gira a compreensão da economia política. Assim como a mercadoria tem valor de uso e valor, o trabalho que a produz tem duas faces. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 1)
A primeira face é o trabalho útil ou concreto, a atividade com uma finalidade, um modo de operar e um resultado, como costurar um casaco ou tecer linho. Esse trabalho é condição de existência do ser humano em qualquer sociedade, porque é ele que transforma a natureza para atender às necessidades humanas. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, §§ 3 e 7)
A segunda face aparece quando se deixa de lado o que cada trabalho tem de particular. Costurar e tecer são atividades diferentes, mas as duas são gasto de cérebro, músculos, nervos e mãos humanos, e nesse sentido são trabalho humano igual, que Marx chama de trabalho humano abstrato. É esse trabalho abstrato que forma o valor das mercadorias, enquanto o trabalho concreto produz os valores de uso. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, §§ 10, 11 e 16)
Como se mede
A grandeza do valor se mede pela duração do trabalho abstrato, contada em tempo socialmente necessário, isto é, o tempo médio exigido nas condições normais de produção da época. Um trabalho mais qualificado, que Marx chama de complexo, conta como trabalho simples multiplicado, e essa redução acontece por um processo social que corre nas costas dos produtores. Marx observa também que, na sociedade capitalista, uma mesma porção de trabalho humano é oferecida ora como costura, ora como tecelagem, conforme muda a direção da procura. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 17; Livro I, cap. 1, seção 2, § 10)
Como a força produtiva pertence ao trabalho concreto, ela muda a quantidade de produtos feita numa hora, mas não muda o valor criado nessa hora. O mesmo trabalho abstrato gera, no mesmo tempo, a mesma grandeza de valor, que se reparte por mais ou menos produtos conforme a produtividade. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 15)
A igualação pela troca
Na troca, os produtores igualam os seus produtos como valores e, com isso, igualam os seus trabalhos como trabalho humano, sem saber que o fazem. Lênin resume o ponto dizendo que o que há de comum em todas as mercadorias é o trabalho humano abstrato, e não o trabalho concreto de um ramo, e que a produção de mercadorias é um sistema de relações sociais. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 1º parágrafo)
O economista russo Isaak Rubin, morto em 1937, publicou os seus Ensaios sobre a teoria do valor de Marx em 1923, e o livro saiu no Brasil como A teoria marxista do valor, pela Brasiliense, em 1980. Rubin insistiu que o trabalho abstrato é uma forma social própria da economia mercantil. (Rocha Junior, Transgressores da reificação, p. 549; Isaak Illich Rubin, Ensaios sobre a teoria do valor de Marx, prefácio da 3ª edição, resumo; Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 3)
Segundo Ozileia Cardoso da Silva e Henrique Wellen, Rubin criticou a leitura que reduz o trabalho abstrato a gasto de energia fisiológica, porque nesse caso ele existiria em todas as épocas da história. Para Rubin, o trabalho abstrato é a forma que a igualação dos trabalhos assume numa economia mercantil, em que essa igualação acontece por meio da troca, fora do processo de produção. (Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 4)
A leitura de Rubin precisa dar conta da frase do próprio Marx de que todo trabalho é gasto de força humana no sentido fisiológico. Silva e Wellen explicam que, para Rubin, o trabalho fisiologicamente igual é um pressuposto do trabalho abstrato, mas não se confunde com ele, porque o valor é uma função social e o trabalho que o cria é uma substância social. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 16; Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 4)
Silva e Wellen concluem, com Rubin, que o valor das mercadorias só existe a partir da igualdade social dos trabalhos gastos na sua produção. Eles lembram que a forma mercadoria já existia antes do capitalismo, mas que só nele ela ganhou as determinações que fazem surgir o trabalho abstrato. (Silva e Wellen, Trabalho abstrato e teoria marxista do valor, p. 8)
No Brasil
O IBGE calculou que o produto interno bruto do Brasil, a soma do que se produziu no país, chegou a R$ 12.738,6 bilhões em 2025, com R$ 775,3 bilhões de valor adicionado pela agropecuária, R$ 2.566,8 bilhões pela indústria e R$ 7.609,9 bilhões pelos serviços. Somar numa conta só, em reais, o trabalho de lavouras, fábricas e escritórios é possível porque a troca iguala os produtos como valores e, por trás deles, iguala os trabalhos como trabalho humano, como Marx explica. Os pesquisadores Pedro Sampaio, Alessandro Miebach e Henrique Morrone lembram que, na leitura marxista, setores como o financeiro, o comercial e a administração pública entram nessa soma, mas consomem valor já existente sem produzir mais-valor. (IBGE, Contas nacionais trimestrais, p. 18; Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 4, § 8; Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 210)