Explicação
Os mortos que oprimem os vivos
Marx abre O 18 de brumário de Luís Bonaparte, de 1852, dizendo que os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, e sim nas circunstâncias que encontram, legadas e transmitidas pelo passado. Para ele, a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Justamente nos períodos de crise revolucionária, escreve Marx, os homens conjuram os espíritos do passado e tomam emprestados deles os nomes, os gritos de guerra e as roupas. (Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, cap. I, § 2 da página do MIA)
Marx distingue dois usos do passado. Nas revoluções burguesas da Inglaterra e da França, a ressurreição dos mortos serviu para glorificar as novas lutas, enquanto na França de 1848 a 1851 o fantasma da velha revolução andou por toda parte e terminou na caricatura do velho Napoleão. Diante dos perigos da revolução, conta Marx, os franceses ansiavam por voltar à abundância do Egito, a fartura de um tempo idealizado, e o golpe de 2 de dezembro de 1851 foi a resposta. (Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, cap. I, § 2 da página do MIA)
Para Marx, a revolução social do século XIX não pode tirar a sua poesia do passado, e sim do futuro, e precisa se livrar de toda veneração supersticiosa do passado. As revoluções anteriores, explica ele, precisaram de recordações da história antiga para se iludir quanto ao próprio conteúdo. (Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, cap. I, § 2 da página do MIA)
O fascismo e a história nacional
Georgi Dimitrov, no informe de 1935 ao VII Congresso da Internacional Comunista, mostrou que os fascistas rebuscam a história de cada povo para se apresentar como herdeiros e continuadores do que nela há de elevado e heroico. Os fascistas também usam tudo o que humilha os sentimentos nacionais do povo como arma contra os seus inimigos. Dimitrov deu exemplos, como Mussolini, que tentava tirar partido da figura de Garibaldi, os fascistas franceses, que exibiam Joana d'Arc como heroína, e os norte-americanos, que apelavam às tradições de Washington e de Lincoln. (Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “A luta ideológica contra o fascismo”, §§ 3 e 4)
Para Dimitrov, os comunistas que nada fazem para esclarecer o passado do próprio povo, com fidelidade histórica e sentido marxista-leninista, entregam aos falsificadores fascistas tudo o que há de valioso no passado da nação. Por isso, ele defendia ligar a luta atual às tradições revolucionárias de cada povo. (Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “A luta ideológica contra o fascismo”, § 5)
Senso comum e bom senso
Antonio Gramsci, nos Cadernos do cárcere, mostrou que todos os homens têm uma filosofia espontânea, contida na linguagem, no senso comum e no bom senso, e que o senso comum é um produto histórico, que muda com o tempo. Dentro do senso comum, Gramsci via um núcleo sadio, que ele chamou de bom senso e que merece ser desenvolvido e tornado coerente. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 11, § 12, seção 1, §§ 1, 7 e 11)
A ditadura lembrada e a ditadura registrada
O Arquivo Nacional registra que Jair Bolsonaro, quando deputado, se destacou por reiteradas manifestações favoráveis à ditadura militar de 1964 a 1985. Na votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, ele homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi, órgão de repressão associado à tortura pela Comissão Nacional da Verdade. (Arquivo Nacional, Jair Messias Bolsonaro, parágrafo sobre a atuação na Câmara)
A Comissão Nacional da Verdade concluiu que, na ditadura, a repressão e a eliminação de opositores se tornaram política de Estado, decidida pela Presidência da República e pelos ministérios militares. A comissão confirmou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas do regime e advertiu que esse número não corresponde ao total. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, pp. 962 e 963)
O país daquele período também era muito menos urbano. Pelos censos do IBGE, a população urbana era 45,08% do total em 1960 e 55,98% em 1970, e chegou a 84,36% em 2010. (IBGE, Tabela 1288 do SIDRA, censos de 1960, 1970 e 2010)