Pular para o conteúdo

Do momento / Lulismo

Lulismo

Lulismo é o apoio dos mais pobres a Lula, que o cientista político André Singer lê como representação do subproletariado por um Estado que distribui sem ameaçar a ordem. Lula foi reeleito em 25 de outubro de 2026 e começa o quarto mandato em 5 de janeiro de 2027. Para o marxista Armando Boito Jr., os governos do PT priorizam a grande burguesia interna, que dirige uma frente com ganhos menores para os trabalhadores.

● Último fato

25/10/2026

Lula foi reeleito presidente no segundo turno, com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, para o quarto mandato. (Tribunal Superior Eleitoral, Relatório Resultado da Totalização da eleição presidencial de 2026, 1º e 2º turnos, 6258_BR_BRASIL_2026_T2_PRESIDENTE.pdf, p. 4 do PDF)

A pauta sai de "Do momento" quando passa 90 dias sem fato novo.

A pauta hojeatualizado em 31/10/2026

Lula foi reeleito em 25 de outubro de 2026, com 51,79% dos votos válidos, depois de vencer as eleições de 2002, 2006 e 2022. O terceiro mandato termina em 5 de janeiro de 2027, quando começa o quarto. (Tribunal Superior Eleitoral, Relatório Resultado da Totalização da eleição presidencial de 2026, 1º e 2º turnos, 6258_BR_BRASIL_2026_T2_PRESIDENTE.pdf, p. 4 do PDF)

O que é e de onde vem

O cientista político André Singer, professor da Universidade de São Paulo (USP), situa a origem do lulismo na eleição de 2006, quando os eleitores mais pobres, que ele chama de subproletariado, aderiram em bloco a Lula e a classe média se afastou. Para Singer, essa fração de classe é maioria, mas não consegue se organizar por conta própria, e espera um Estado forte o bastante para diminuir a desigualdade sem ameaçar a ordem estabelecida. Para ele, a raiz do lulismo está no discurso e na prática que unem a manutenção da estabilidade e a ação distributiva do Estado. (Singer, Raízes sociais e ideológicas do lulismo, pp. 83, 84 e 102)

Singer usa a definição de Paul Singer, para quem subproletários são os que vendem a força de trabalho sem achar quem pague um preço que garanta a sua reprodução em condições normais. Ele também recorre ao 18 Brumário de Marx, em que classes com dificuldade de se organizar projetam os seus anseios numa força constituída de cima. Por isso, Singer fala numa autonomia bonapartista de Lula, sem sentido militar, que arbitra a luta de classes de cima, conforme a correlação de forças. (Singer, Raízes sociais e ideológicas do lulismo, pp. 88, 98 e 101)

Onde a pauta está

Lula venceu as eleições presidenciais de 2002, 2006, 2022 e 2026, e a última vitória veio no segundo turno de 25 de outubro, com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos. O terceiro mandato vai até 5 de janeiro de 2027, data fixada pela Emenda Constitucional nº 111, de 2021, e nesse dia começa o quarto, ao lado do vice Geraldo Alckmin. (Tribunal Superior Eleitoral, Relatório Resultado da Totalização da eleição presidencial de 2026, 1º e 2º turnos, 6258_BR_BRASIL_2026_T2_PRESIDENTE.pdf, p. 4 do PDF; Agência Senado, Lula é reeleito para quarto mandato de presidente, reportagem de 25/10/2026, § 11; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 111, de 28 de setembro de 2021, art. 4º; Agência Brasil, Posse de Lula e de governadores será em 5 de janeiro, reportagem de 26/10/2026)

Para Felipe Brito, professor de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense, o lulismo atravessou em 2026 uma avalanche bolsonarista. Ele diz que essa travessia mostra que a gramática das políticas sociais públicas não se tornou estranha às pessoas comuns. (Felipe Brito, A “avalanche” bolsonarista na eleição de 2026 e a força do Lulismo, §§ 1 e 19 do artigo)

Quem quer o quê

Em 2026, Lula concorreu pela coligação Brasil Pronto pra Mais, formada pelo PT, pelo PCdoB, pelo PV, pelo PSOL, pela Rede, pelo PSB e pelo PDT. Valerio Arcary descreve o terceiro governo como uma frente ampla com segmentos da burguesia, e o livro dele de 2024 defende a linha do PSOL de apoiar o governo contra o que o autor chama de neofascismo, sem participar dele, segundo a resenha de Pedro Felipe Narciso. (Tribunal Superior Eleitoral, Candidatos das eleições de 2026, consulta_cand_2026_BRASIL.csv, composição da coligação; Narciso, A armadilha do bolsonarismo e os limites do lulismo, p. 3)

A leitura marxista

Armando Boito Jr., professor da Unicamp, recusa a ideia de bonapartismo. Para ele, um setor desorganizado não tem programa próprio, e a política econômica dos governos do PT atendeu em primeiro lugar à grande burguesia interna, a fração da burguesia brasileira que disputa com a fração integrada ao grande capital financeiro internacional. Para Boito, esses governos priorizam os interesses dessa fração, e por isso a ideia de arbitragem entre as classes não se sustenta. (Boito Jr., O lulismo é um tipo de bonapartismo? Uma crítica às teses de André Singer, pp. 172 a 175 e 178)

Boito chama de frente neodesenvolvimentista a aliança ampla e heterogênea que essa burguesia dirigiu, da qual também ganham a classe operária, a baixa classe média, parte do campesinato e os trabalhadores da massa marginal. Massa marginal é o nome que ele dá ao subproletariado de Singer, e esses trabalhadores, diz Boito, ficam fora das classes que o Estado prioriza e recebem um quinhão bem menor, feito dos programas sociais e da recuperação do salário mínimo, e o apoio que dão ao governo vem sobretudo de uma relação ideológica. (Boito Jr., O lulismo é um tipo de bonapartismo? Uma crítica às teses de André Singer, pp. 176 e 178)

Ruy Braga, segundo a resenha de Ellen Gallerani Corrêa na Crítica Marxista, chama de hegemonia lulista a soma de dois consentimentos. O das massas é passivo e vem das políticas redistributivas e dos modestos ganhos de salário, e o das direções sindicais é ativo e vem de cargos no Estado e do controle dos fundos de pensão. (Ellen Gallerani Corrêa, A política do precariado, p. 197)

Divergências

Francisco de Oliveira, segundo Singer, viu no lulismo uma liderança que despolitiza a pobreza e a desigualdade e propôs que a nova hegemonia agia às avessas, reforçando a exploração em vez de combatê-la. Em 2006, Oliveira chamou as políticas assistenciais de funcionalização da pobreza e falou num novo populismo, o lulismo-petismo, que passa por cima das instituições e até do próprio partido. Singer respondeu que o fenômeno talvez seja uma representação efetiva do subproletariado. (Singer, Raízes sociais e ideológicas do lulismo, pp. 94 e 101; Oliveira, O momento Lênin, pp. 37 e 38)

Valerio Arcary, da tradição trotskista, julgou em 2016 que a obra do lulismo, um reformismo quase sem reformas, foi consolidar o regime democrático-eleitoral. Boito, ao contrário de Singer, põe a grande burguesia interna no centro e trata o voto dos mais pobres como apoio ideológico a uma frente dirigida por ela. (Arcary, Junho de 2013 a 2015, p. 147; Boito Jr., O lulismo é um tipo de bonapartismo? Uma crítica às teses de André Singer, pp. 176 e 178)

Os conceitos que explicam a pauta

ProgressismoHegemoniaClasses sociaisDisputa de baseReforma e revoluçãoAusteridade

Nesta página

Para ler

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (24)

Fontes desta página

  1. SINGER, André. Raízes sociais e ideológicas do lulismo. São Paulo: Novos Estudos CEBRAP, n. 85, pp. 83-102, nov. 2009, 2009. Abrir ↗
  2. Tribunal Superior Eleitoral. Relatório Resultado da Totalização da eleição presidencial de 2026, 1º e 2º turnos (Portal de Dados Abertos do TSE). cdn.tse.jus.br. Abrir ↗
  3. Agência Senado. Lula é reeleito para quarto mandato de presidente (Senado Notícias, 25/10/2026). www12.senado.leg.br, 25/10/2026. Abrir ↗
  4. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 111, de 28 de setembro de 2021 (data da posse do presidente, entre outros temas). planalto.gov.br, 28/09/2021. Abrir ↗
  5. Agência Brasil. Posse de Lula e de governadores será em 5 de janeiro (Agência Brasil, 26/10/2026). agenciabrasil.ebc.com.br, 26/10/2026. Abrir ↗
  6. Felipe Brito. A “avalanche” bolsonarista na eleição de 2026 e a força do Lulismo (Blog da Boitempo, 30/10/2026). blogdaboitempo.com.br, 30/10/2026. Abrir ↗
  7. Tribunal Superior Eleitoral. Candidatos das eleições de 2026 (consulta_cand_2026.zip, arquivo consulta_cand_2026_BRASIL.csv, Portal de Dados Abertos do TSE). cdn.tse.jus.br. Abrir ↗
  8. NARCISO, Pedro Felipe. A armadilha do bolsonarismo e os limites do lulismo (resenha do livro de Valerio Arcary). Crítica Marxista, v. 33, e026007, pp. 1-4, 2026. Abrir ↗
  9. BOITO JR., Armando. O lulismo é um tipo de bonapartismo? Uma crítica às teses de André Singer. Crítica Marxista, n. 37, pp. 171-181, 2013. Abrir ↗
  10. Ellen Gallerani Corrêa. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, resenha (Crítica Marxista, n. 37, 2013). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  11. OLIVEIRA, Francisco de. O momento Lênin. São Paulo: Novos Estudos CEBRAP, n. 75, pp. 23-47 (separata reproduzida no MIA), 2006. Abrir ↗
  12. ARCARY, Valerio. Junho de 2013 a 2015: as “placas tectônicas” começaram a se mover? Crítica Marxista, n. 42, pp. 147-153, 2016. Abrir ↗
  13. Valerio Arcary. Junho de 2013 a 2015: as placas tectônicas começaram a se mover? (Crítica Marxista, n. 42, 2016). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  14. Pedro Felipe Narciso. A armadilha do bolsonarismo e os limites do lulismo, resenha (Crítica Marxista, v. 33, 2026). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  15. Armando Boito Jr.. O lulismo é um tipo de bonapartismo? (Crítica Marxista, n. 37, 2013). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  16. André Singer. Raízes sociais e ideológicas do lulismo (Novos Estudos CEBRAP, n. 85, 2009). scielo.br. Abrir ↗
  17. Francisco de Oliveira. O momento Lênin (Novos Estudos CEBRAP, n. 75, 2006; PDF no MIA). marxists.org. Abrir ↗