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Estudos / História do Brasil / Nova República / Luiz Inácio Lula da Silva

Retrato oficial de Luiz Inácio Lula da Silva
Foto: Ricardo Stuckert / Presidência da República., 2007. CC BY 3.0 br. Wikimedia Commons ↗

Nova RepúblicaPTViés: neodesenvolvimentista

Luiz Inácio Lula da Silva

Governou de 01/01/2003 a 01/01/2007 e de 01/01/2007 a 01/01/2011

Metalúrgico e fundador do PT, governou de 2003 a 2010 com juros altos e superávit primário, ao lado do Bolsa Família, do ProUni, do PAC e do aumento real do salário mínimo. Para Armando Boito, o governo abriu espaço para a grande burguesia interna, numa frente que ele chama de neodesenvolvimentista. Leda Paulani e Francisco de Oliveira viram continuidade com Fernando Henrique e com o poder do capital financeiro.

Partido
Partido dos Trabalhadores (PT)
Como chegou
eleito em 2002 com cerca de 53 milhões de votos, contra José Serra; reeleito em 2006, no segundo turno, com 58.295.042 votos
Como saiu
terminou o segundo mandato em 1º de janeiro de 2011 e passou o cargo a Dilma Rousseff, que apoiou na eleição de 2010
Nascimento
Garanhuns (PE), 1945
Antes da presidência
metalúrgico e torneiro mecânico; presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema a partir de 1975; fundador do PT (1980) e da CUT (1983); deputado federal constituinte, eleito em 1986; candidato derrotado à Presidência em 1989, 1994 e 1998

O governo em datas

Luiz Inácio Lula da Silva, 2003–2011

  1. 01/01/2003Lula toma posse e anuncia o Fome Zero.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  2. 19/12/2003Emenda nº 41 muda a previdência dos servidores.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 41, de 19 de dezembro de 2003
  3. 09/01/2004Lei nº 10.836 cria o Bolsa Família.Congresso Nacional, Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004
  4. 13/01/2005Lei nº 11.096 institui o ProUni.Congresso Nacional, Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2005
  5. 22/01/2007Lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  6. 07/07/2009Lei nº 11.977 cria o Minha Casa, Minha Vida.Congresso Nacional, Lei nº 11.977, de 7 de julho de 2009
  7. 22/12/2010Lei nº 12.351 cria o regime de partilha no pré-sal.Congresso Nacional, Lei nº 12.351, de 22 de dezembro de 2010

O que o governo fez

Principais medidas

Para entender o governo

Do ABC à Presidência

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em Garanhuns, em Pernambuco, em 27 de outubro de 1945, e migrou criança com a família para São Paulo, onde virou torneiro mecânico. Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema a partir de 1975, ele liderou em 1979 uma paralisação de cerca de 150 mil metalúrgicos e foi preso e processado pela Lei de Segurança Nacional. Ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, e foi o deputado federal constituinte mais votado do país, em 1986. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 59)

Derrotado por Fernando Collor em 1989 e por Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, Lula foi eleito em 2002 com cerca de 53 milhões de votos, contra o candidato governista José Serra. Em 2006, ele se reelegeu com 58.295.042 votos. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 59-60)

Juros altos e reforma da previdência

O Arquivo Nacional descreve como austera a política econômica do início do governo, com juros altos e prioridade ao controle da inflação e ao superávit primário, que é a sobra das receitas sobre as despesas do governo sem contar os juros da dívida. Em dezembro de 2003, a Emenda Constitucional nº 41 mudou a previdência dos servidores e passou a cobrar contribuição dos aposentados e pensionistas do serviço público. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 59; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 41, de 19 de dezembro de 2003, art. 4º)

Leda Paulani escreveu, em maio de 2004, que o governo usou o diagnóstico de um país à beira do precipício como álibi para continuar e aprofundar a política econômica de Fernando Henrique. Segundo ela, a taxa básica de juros chegou a 26,5% ao ano e a meta de superávit primário subiu para 4,25% do PIB, acima dos 3,75% exigidos pelo FMI. Para Paulani, o governo escolheu deliberadamente manter o país na mesma armadilha externa, desde que isso não pusesse em risco o projeto de poder do PT. (Paulani, Quando o medo vence a esperança, pp. 11-12)

Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT, disse em 2003 que a reforma da previdência tinha caráter fiscal e servia ao capital financeiro, porque abria um mercado de fundos privados de previdência. Para ele, uma nova classe tinha se formado dentro do partido, com sindicalistas que passaram a administrar fundos de pensão e a conviver com órgãos como o BNDES. Octavio Ianni viu no governo a continuação do desmonte do projeto nacional segundo o Consenso de Washington e criticou o discurso que tratava os aposentados como peso morto. (Oliveira, Esta reforma é um ornitorrinco, §§ 7, 13 e 31-33; Ianni, “O Presidente está simplesmente servindo ou recitando uma diretriz do consenso de Washington”, §§ 13 e 19)

Bolsa Família, ProUni e PAC

Em janeiro de 2004, a Lei nº 10.836 criou o Bolsa Família, que juntou numa só gestão as transferências de renda do governo federal, como o Bolsa Escola. Em janeiro de 2005, a Lei nº 11.096 instituiu o ProUni, que dá bolsas em faculdades privadas em troca da isenção de alguns tributos. Nesse mandato vieram também as CPIs dos Correios e do Mensalão, sobre compra de votos e financiamento de campanhas. (Congresso Nacional, Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004, art. 1º; Congresso Nacional, Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2005, art. 1º; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 60)

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), criado em 22 de janeiro de 2007, previa ampliar o investimento público em infraestrutura, e a taxa de investimento do país subiu de 16,9% para 18,2% do PIB entre os dois mandatos. Em 2009 veio o Minha Casa, Minha Vida, e em dezembro de 2010 a Lei nº 12.351 fez da Petrobras a operadora de todos os blocos do pré-sal contratados no regime de partilha. O Arquivo Nacional registra que o salário mínimo teve aumento real de 67% e que foram criados 14 milhões de empregos com carteira assinada entre 2003 e 2010. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 61-62; Congresso Nacional, Lei nº 11.977, de 7 de julho de 2009, ementa; Congresso Nacional, Lei nº 12.351, de 22 de dezembro de 2010, art. 4º)

Na política externa, tropas brasileiras foram ao Haiti em 2004, na missão de paz da ONU que o Brasil liderou, e em 2005 o país se opôs, com os parceiros do Mercosul, ao cronograma da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Para Armando Boito e Tatiana Berringer, o arquivamento da Alca e a aproximação com os países do Sul protegeram a grande burguesia interna na disputa com o capital estrangeiro. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 60 e 63; Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 37)

Como os marxistas leram o governo

Em 2003, Boito via um governo que mantinha e aprofundava o modelo neoliberal dependente herdado de Fernando Henrique, a serviço dos grandes bancos e do capital financeiro internacional. Em 2005, ele passou a sustentar que o governo promoveu a ascensão da grande burguesia interna industrial e agrária, a fração que fica entre a burguesia compradora, mera extensão do imperialismo, e uma burguesia nacional anti-imperialista, sem quebrar a hegemonia das finanças. A grande burguesia interna seguia, para ele, como força secundária no bloco no poder, que é a unidade contraditória das frações da classe dominante. (Boito Jr., A hegemonia neoliberal no governo Lula, pp. 10 e 12; Boito Jr., A burguesia no governo Lula, pp. 53-54, 62 e 65)

Em 2013, Boito e Berringer chamaram de neodesenvolvimentismo o programa da frente que unia essa burguesia ao operariado, à baixa classe média e aos pobres atendidos pelas transferências de renda. O neodesenvolvimentismo era o desenvolvimento possível dentro do capitalismo neoliberal, com menos crescimento e menos distribuição de renda que o velho desenvolvimentismo, e o orçamento do BNDES para juros subsidiados às grandes empresas era cerca de sete vezes o do Bolsa Família. Décio Saes também vê, a partir de 2003, o poder presidencial a serviço de um projeto da burguesia interna. (Boito Jr. e Berringer, Brasil, pp. 31-34; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 17)

Boito criticou a tese do cientista político André Singer, para quem o lulismo seria um bonapartismo, um governo que arbitra entre as classes, apoiado no subproletariado, isto é, nos trabalhadores que não conseguem vender a força de trabalho por um preço que garanta a sua reprodução normal. Para Boito, o primeiro mandato fez concessões ao capital financeiro internacional, e o perfil neodesenvolvimentista só ficou claro no segundo. (Boito Jr., O lulismo é um tipo de bonapartismo? Uma crítica às teses de André Singer, pp. 172-174)

Outras leituras marxistas divergem dessas. Francisco de Oliveira viu continuidade com Fernando Henrique sob o predomínio do capital financeiro e chamou os programas assistenciais de políticas de funcionalização da pobreza, contraparte da decomposição da classe trabalhadora. Angelita Matos Souza, na resenha de Caio Bugiato, sustenta que a hegemonia continuou com o grande capital bancário e financeiro, e Valerio Arcary chamou o lulismo de reformismo quase sem reformas. (Oliveira, O momento Lênin, pp. 23 e 37-38; Bugiato, Dependência e governos do PT, p. 152; Arcary, Junho de 2013 a 2015, p. 147)

Nesta leitura

O que dizem os historiadores marxistas

Leitura de classe do governo

Regime
democracia liberal restrita
Bloco no poder
grande capital financeiro, com a ascensão da grande burguesia interna industrial e agrária (Boito, 2005, pp. 62 e 65); para Boito e Berringer (2013, p. 31), a grande burguesia interna ascendeu em prejuízo do capital financeiro internacional
Relação com o imperialismo
barganha
Relação com os trabalhadores
conciliação, concessão

Para estudar este governo

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (48)

Fontes desta página

  1. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  2. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 41, de 19 de dezembro de 2003 (previdência dos servidores). planalto.gov.br, 19/12/2003. Abrir ↗
  3. PAULANI, Leda Maria. Quando o medo vence a esperança (um balanço da política econômica do primeiro ano do governo Lula). Crítica Marxista, n. 19, pp. 11-26, 2004. Abrir ↗
  4. OLIVEIRA, Francisco de. Esta reforma é um ornitorrinco (entrevista ao Jornal da Unicamp, agosto de 2003). 2003. Abrir ↗
  5. IANNI, Octavio. “O Presidente está simplesmente servindo ou recitando uma diretriz do consenso de Washington” (entrevista ao Jornal da Unicamp, julho de 2003). 2003. Abrir ↗
  6. Congresso Nacional. Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004 (cria o Programa Bolsa Família). planalto.gov.br, 09/01/2004. Abrir ↗
  7. Congresso Nacional. Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2005 (institui o ProUni). planalto.gov.br, 13/01/2005. Abrir ↗
  8. Congresso Nacional. Lei nº 11.977, de 7 de julho de 2009 (Programa Minha Casa, Minha Vida). planalto.gov.br, 07/07/2009. Abrir ↗
  9. Congresso Nacional. Lei nº 12.351, de 22 de dezembro de 2010 (partilha de produção no pré-sal). planalto.gov.br, 22/12/2010. Abrir ↗
  10. BOITO JR., Armando; BERRINGER, Tatiana. Brasil: classes sociais, neodesenvolvimentismo e política externa nos governos Lula e Dilma. Curitiba: Revista de Sociologia e Política (UFPR), v. 21, n. 47, pp. 31-38, 2013. Abrir ↗
  11. BOITO JR., Armando. A hegemonia neoliberal no governo Lula. Crítica Marxista, n. 17, pp. 10-36, 2003. Abrir ↗
  12. BOITO JR., Armando. A burguesia no governo Lula. Crítica Marxista, n. 21, pp. 52-76, 2005. Abrir ↗
  13. SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗
  14. BOITO JR., Armando. O lulismo é um tipo de bonapartismo? Uma crítica às teses de André Singer. Crítica Marxista, n. 37, pp. 171-181, 2013. Abrir ↗
  15. OLIVEIRA, Francisco de. O momento Lênin. São Paulo: Novos Estudos CEBRAP, n. 75, pp. 23-47 (separata reproduzida no MIA), 2006. Abrir ↗
  16. BUGIATO, Caio. Dependência e governos do PT (resenha do livro de Angelita Matos Souza). Crítica Marxista, n. 58, pp. 151-154, 2025. Abrir ↗
  17. ARCARY, Valerio. Junho de 2013 a 2015: as “placas tectônicas” começaram a se mover? Crítica Marxista, n. 42, pp. 147-153, 2016. Abrir ↗
  18. SAAD FILHO, Alfredo. Avanços, contradições e limites dos governos petistas. Crítica Marxista, n. 42, pp. 171-177, 2016. Abrir ↗