Estudos / História do Brasil / República de 1946 / José Linhares

República de 1946sem partido (presidente do STF)Viés: transição conservadora pelo alto
José Linhares
Governou de 29/10/1945 a 31/01/1946
Presidente do Supremo Tribunal Federal, assumiu o governo quando os militares depuseram Vargas, em 29 de outubro de 1945, e o deixou em janeiro de 1946. Extinguiu o Tribunal de Segurança Nacional, revogou a lei antitruste e conduziu a eleição que deu a vitória a Dutra. Para Prestes, a deposição de Vargas foi um golpe reacionário dirigido contra o povo e as suas organizações.
- Partido
- sem partido (presidente do STF)
- Como chegou
- como presidente do STF, assumiu o governo depois da deposição de Vargas por militares
- Como saiu
- transmitiu o cargo a Eurico Gaspar Dutra, eleito em 2 de dezembro de 1945
- Nascimento
- Baturité (CE), 1886
- Morte
- Caxambu (MG), 1957
- Antes da presidência
- advogado; desembargador da Corte de Apelação do Distrito Federal, ministro do STF desde 1937 e seu presidente desde 1945, o que o fazia presidente do TSE
O governo em datas
José Linhares, 1945–1946
- 29/10/1945Vargas é deposto e Linhares assume a presidência.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 02/12/1945Eleição do presidente e da Assembleia Constituinte; Dutra vence.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 31/01/1946Linhares transmite o cargo a Dutra.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
O que o governo fez
Principais medidas
- 1945
Fim do Tribunal de Segurança Nacional
Extinção do tribunal criado depois da Lei de Segurança Nacional.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República - 1945
Fim do estado de emergência
Supressão do estado de emergência previsto na Carta de 1937.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República - 1945
Poder constituinte
O parlamento a ser eleito recebe poderes para elaborar a Constituição.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República - 1945
Revogação da lei antitruste
Fim da lei contra a concentração de empresas, apontada como um dos fatores da deposição de Vargas.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República - 1945
Interventores do Judiciário
Troca dos interventores nos estados por membros do Poder Judiciário.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
Para entender o governo
O juiz que assumiu o governo
José Linhares nasceu em Baturité (CE), em 1886, foi desembargador no Distrito Federal depois de 1930 e chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 1937, por nomeação de Getúlio Vargas. Em 1945, como presidente do STF, ele também presidia o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quando os militares depuseram Vargas, em 29 de outubro de 1945, Linhares assumiu a presidência da República, que ocupou até 31 de janeiro de 1946. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29)
A deposição veio depois de meses de queremismo, o movimento que pedia a permanência de Vargas e o adiamento da eleição presidencial e que tinha o apoio de operários, sindicatos e comunistas. O movimento provocou forte reação dos militares e da oposição liberal, e o Arquivo Nacional o aponta como um dos motivos da queda de Vargas. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 28)
A transição pelo alto
Linhares trocou os interventores, que eram os governadores nomeados pelo governo federal, por membros do Poder Judiciário e deu ao parlamento que seria eleito o poder de escrever a nova Constituição. Ele extinguiu o Tribunal de Segurança Nacional, criado depois da Lei de Segurança Nacional de 1935, e suprimiu o estado de emergência previsto na Carta de 1937. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 27, 29 e 34)
Na economia, o governo agiu contra a inflação e extinguiu o Conselho de Economia Popular. Linhares revogou também a lei antitruste, que combatia a concentração de empresas e que o Arquivo Nacional aponta como um dos fatores da deposição de Vargas. Ele deu ainda autonomia à Universidade do Brasil. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29)
A eleição de dezembro
Em 2 de dezembro de 1945, o país elegeu o presidente e a Assembleia Constituinte. O general Eurico Gaspar Dutra, do PSD, teve 3.251.377 votos, cerca de 55% dos votos dados aos candidatos, contra 2.039.337 de Eduardo Gomes, da UDN. O engenheiro Yeddo Fiúza, candidato do PCB, recebeu 569.818 votos, quase 10% do total. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30; Tribunal Superior Eleitoral, Votação nominal por UF, eleições de 1945)
Dutra tinha sido ministro da Guerra de Vargas de 1936 a 1945, ficou ao lado dos oficiais que o depuseram e foi eleito com o apoio do próprio Vargas. Linhares ficou no cargo até a posse de Dutra e depois voltou ao STF, que presidiu de 1951 a 1956. Ele morreu em Caxambu (MG), em 1957. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 29-30)
Como os comunistas leram o golpe
Em 26 de novembro de 1945, Luiz Carlos Prestes chamou a deposição de Vargas de golpe reacionário, dirigido sobretudo contra o povo, contra as suas organizações e contra o partido do proletariado. Segundo ele, o golpe não conseguiu impor uma ditadura, porque o proletariado não deu pretexto para o derramamento de sangue, e o governo civil que surgiu teve de se voltar para o povo e manter a convocação da Constituinte. No mesmo discurso, ele anunciou o apoio do PCB à candidatura de Yeddo Fiúza. (Prestes, Problemas atuais da democracia, pp. 167-182)
Prestes lembrou ainda que os mesmos políticos que derrubaram Vargas tinham dado a ele a Lei de Segurança Nacional, não protestaram contra o fechamento da Aliança Nacional Libertadora e aceitaram como verdadeiro o chamado papel Cohen, que ajudou a dissolver o Parlamento e facilitou o golpe de 10 de novembro de 1937. Para ele, esses políticos apoiavam Vargas quando ele marchava para a reação, de mãos dadas com o integralismo, porque temiam o povo, e só se voltaram contra ele quando o governo passou a ceder ao povo. (Prestes, Problemas atuais da democracia, pp. 167-182)
Para Nelson Werneck Sodré, os opositores de Vargas em 1945 queriam voltar ao passado, e o golpe foi uma tentativa de deter pela força um processo que não podia ser detido. Por isso, segundo ele, o governo que abriu a nova fase constitucional teria de promover um retrocesso, que correspondia à Guerra Fria no plano externo. (Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 333)
Nesta leitura
O que dizem os historiadores marxistas
Luiz Carlos Prestes
O golpe de 29 de outubro foi reacionário e dirigido contra o povo e o partido do proletariado; o governo civil que surgiu teve de se voltar para o povo e manter a Constituinte.
Prestes, Problemas atuais da democracia, pp. 167-182Nelson Werneck Sodré
O golpe de 1945 tentou deter pela força um processo inexorável; o governo que abriu a fase constitucional promoveria um retrocesso, ligado à Guerra Fria.
Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 333
Leitura de classe do governo
- Regime
- ditadura
- Bloco no poder
- cúpula militar que depôs Vargas e oposição liberal, com o Judiciário à frente de um governo de transição sem Congresso (Arquivo Nacional, pp. 28-29; Prestes, 1945)
Para estudar este governo
PRESTES, Luiz Carlos. Problemas atuais da democracia. 1947. Onde ler: pp. 167-182.
SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Onde ler: p. 333.
De onde vem cada afirmação desta página (25)
- FatoLinhares foi desembargador da Corte de Apelação do Distrito Federal depois da Revolução de 1930, foi nomeado por Vargas ministro do STF em 1937 e foi vice-presidente da corte em 1940.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoLinhares concedeu ao novo parlamento poderes de elaboração constitucional.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoDepois de deixar a presidência, Linhares voltou ao STF e o presidiu entre 1951 e 1956.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoDutra foi eleito presidente em 2 de dezembro de 1945 pelo PSD, com o apoio de Vargas.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30
- FatoDutra foi ministro da Guerra de 1936 a 1945 e, embora fiel colaborador de Vargas, ficou ao lado dos oficiais que o destituíram em outubro de 1945.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 30
- FatoNo campo econômico, o governo Linhares atuou contra a inflação, revogou a lei antitruste, um dos fatores que levaram à deposição de Vargas, e extinguiu o Conselho de Economia Popular.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoEm dezembro de 1945, foram realizadas eleições para a presidência da República e para a Assembleia Nacional Constituinte.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoCom o golpe de 1937, Nereu Ramos foi nomeado interventor federal em Santa Catarina, o que mostra que os interventores eram nomeados pelo governo federal.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 34
- FatoLinhares substituiu os interventores nos estados por membros do Poder Judiciário.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoLinhares morreu em Caxambu (MG), em 26 de janeiro de 1957.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoJosé Linhares nasceu em Baturité (CE), em 28 de janeiro de 1886.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoLinhares assumiu a presidência da República com a deposição de Vargas, em 29 de outubro de 1945, e ficou no cargo até 31 de janeiro de 1946.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoEm 26 de novembro de 1945, Prestes anunciou o apoio do PCB à candidatura civil de Yeddo Fiúza à presidência.Prestes, Problemas atuais da democracia, pp. 167-182
- Interpretação · Luiz Carlos PrestesO golpe de 29 de outubro de 1945 foi um golpe reacionário, dirigido principalmente contra o povo, contra as organizações do povo e contra o partido do proletariado.Prestes, Problemas atuais da democracia, pp. 167-182
- Interpretação · Luiz Carlos PrestesO golpe não conseguiu impor a ditadura, porque o proletariado não deu pretexto para o derramamento de sangue, e o governo civil que surgiu teve de se voltar para o povo e convocar a Assembleia Constituinte.Prestes, Problemas atuais da democracia, pp. 167-182
- Interpretação · Luiz Carlos PrestesOs velhos políticos que atacavam Vargas em 1945 tinham cedido a ele a lei de segurança, não protestaram contra o fechamento da ANL e aceitaram como verdadeiro o papel Cohen, o que ajudou a dissolver o Parlamento e facilitou o golpe de 10 de novembro de 1937; apoiavam Vargas quando ele marchava para a reação, de mãos dadas com o integralismo, porque temiam o povo, e o atacaram quando passou a ceder ao povo.Prestes, Problemas atuais da democracia, pp. 167-182
- FatoO queremismo, apoiado pela classe operária, pelos sindicatos e pelos comunistas, gerou forte reação nos meios militares e na oposição liberal e foi considerado um dos motivos da deposição de Vargas.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 28
- Interpretação · Nelson Werneck SodréOs opositores de Vargas em 1945 pretendiam o retorno ao passado, e o golpe foi uma tentativa de deter pela força um processo inexorável; o governo que iniciou a normalidade constitucional devia empreender um retrocesso, ao qual correspondia a Guerra Fria no exterior.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 333
- FatoComo presidente do STF (1945-1949), Linhares presidia também o TSE.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoLinhares extinguiu o Tribunal de Segurança Nacional e suprimiu o estado de emergência previsto na Constituição de 1937.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoO Tribunal de Segurança Nacional foi criado no contexto da Lei de Segurança Nacional, depois do movimento comunista de 1935.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 27
- FatoLinhares concedeu autonomia à Universidade do Brasil.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 29
- FatoNa eleição presidencial de 1945, Eurico Gaspar Dutra (PSD) teve 3.251.377 votos, 55,4% dos votos dados aos candidatos.Tribunal Superior Eleitoral, Votação nominal por UF, eleições de 1945, soma das UFs; cálculo nosso
- FatoYeddo Fiúza, do PCB, teve 569.818 votos, 9,7% dos votos dados aos candidatos.Tribunal Superior Eleitoral, Votação nominal por UF, eleições de 1945, soma das UFs; cálculo nosso
- FatoEduardo Gomes (UDN) teve 2.039.337 votos, 34,7% dos votos dados aos candidatos.Tribunal Superior Eleitoral, Votação nominal por UF, eleições de 1945, soma das UFs; cálculo nosso
Fontes desta página
- Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
- Tribunal Superior Eleitoral. Votação nominal por UF, eleições de 1945 (Portal de Dados Abertos do TSE; somas nossas). cdn.tse.jus.br. Abrir ↗
- PRESTES, Luiz Carlos. Problemas atuais da democracia. 1947. Abrir ↗
- SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗