Estudos / História do Brasil / República de 1946 / Ranieri Mazzilli

República de 1946Ditadura empresarial-militarPSDViés: interino das crises militares de 1961 e 1964
Ranieri Mazzilli
Governou de 25/08/1961 a 07/09/1961 e de 02/04/1964 a 15/04/1964
Presidente da Câmara pelo PSD, ocupou a presidência duas vezes como interino. Em 1961, depois da renúncia de Jânio, governou enquanto os ministros militares tentavam vetar a posse de Goulart; em abril de 1964, assumiu depois do golpe, mas o poder de fato ficou com o Comando Supremo da Revolução, que baixou o AI-1. Para Toledo, o golpe foi planejado e desencadeado pelas classes dominantes.
- Partido
- Partido Social Democrático (PSD)
- Como chegou
- como presidente da Câmara, substituto previsto na Constituição, em 1961 com a renúncia de Jânio e a ausência do vice e em 1964 com a deposição de Goulart pelo golpe
- Como saiu
- em 1961, passou o cargo a João Goulart em 7 de setembro; em 1964, a Castelo Branco, eleito pelo Congresso, em 15 de abril
- Nascimento
- Caconde (SP), 1910
- Morte
- São Paulo (SP), 1975
- Antes da presidência
- advogado; diretor do Tesouro Público Nacional (1942), deputado federal pelo PSD de São Paulo (1951-1966) e presidente da Câmara (1959-1965)
O governo em datas
Ranieri Mazzilli, 1961
- 25/08/1961Mazzilli assume com a renúncia de Jânio.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 30/08/1961A polícia dispersa manifestantes pela legalidade na Cinelândia.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 02/09/1961Emenda Constitucional nº 4 institui o parlamentarismo.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961
- 07/09/1961Goulart toma posse.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 02/04/1964Mazzilli assume depois do golpe que derrubou Goulart.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 09/04/1964O Comando Supremo da Revolução baixa o AI-1.Comando Supremo da Revolução, Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964
- 11/04/1964O Congresso elege Castelo Branco.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
- 15/04/1964Posse de Castelo Branco.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
O que o governo fez
Principais medidas
- 1964
Ato Institucional nº 1
Baixado pelo Comando Supremo da Revolução, com eleição indireta, cassação de mandatos e suspensão de direitos políticos.
Comando Supremo da Revolução, Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964 - 1964
Intervenção nos sindicatos
Intervenção em sindicatos e federações de trabalhadores depois do golpe.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República - 1964
Extinção do ISEB
O ISEB é extinto em 13 de abril de 1964, segundo nota do entrevistador de Gorender.
Jacob Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50
Para entender o governo
Um deputado paulista do PSD
Pascoal Ranieri Mazzilli nasceu em Caconde (SP), em 1910, e era advogado. Foi diretor do Tesouro Público Nacional em 1942 e ocupou cargos nas finanças da prefeitura do Distrito Federal e da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro. Eleito deputado federal pelo Partido Social Democrático (PSD) de São Paulo, ficou na Câmara de 1951 a 1966 e a presidiu de 1959 a 1965. Nessa condição, assumiu a presidência da República algumas vezes, sobretudo em 1961 e em 1964. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38)
A primeira interinidade, em 1961
Quando Jânio Quadros renunciou, em 25 de agosto de 1961, o vice João Goulart estava em missão na China, e Mazzilli assumiu a presidência, como previa a Constituição. Os ministros militares de Jânio, o general Odílio Denys, o brigadeiro Grün Moss e o almirante Sílvio Heck, formaram uma junta que tentou impedir a posse de Goulart e abriram uma grave crise político-militar. Em 30 de agosto, a polícia dispersou na Cinelândia, no Rio de Janeiro, manifestantes que defendiam a legalidade. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38)
A saída foi a Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961, que instituiu o parlamentarismo, sistema em que a direção do governo passa a um Conselho de Ministros que depende da confiança da Câmara. Goulart tomou posse em 7 de setembro. Para Caio Navarro de Toledo, a emenda, imposta ao Congresso pela junta militar, pode ser lida como um golpe branco, porque o parlamento reformou a Constituição sob a ameaça das armas e contra regras da própria Carta de 1946. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961, arts. 1º e 3º; Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, p. 18)
A segunda interinidade, em 1964
Em 2 de abril de 1964, Mazzilli assumiu outra vez a presidência, depois do golpe político-militar que derrubou Goulart. O poder de fato, porém, ficou com uma junta que se chamava Comando Supremo da Revolução, formada pelo general Artur da Costa e Silva, pelo almirante Augusto Rademaker Grünewald e pelo brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo. O novo regime se apresentava como uma intervenção militar provisória para restaurar a ordem e conter o comunismo e a corrupção. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41)
Em 9 de abril, o Comando Supremo baixou o Ato Institucional nº 1 (AI-1), redigido pelo jurista Francisco Campos. O ato estabeleceu a eleição indireta do presidente, suspendeu as imunidades parlamentares e a estabilidade dos funcionários públicos, permitiu cassar mandatos e suspender direitos políticos por dez anos e deixou o presidente decretar o estado de sítio sem aprovação do Congresso. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41; Comando Supremo da Revolução, Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964)
Começaram as perseguições políticas, com o incêndio do prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE), o ataque à sede do jornal Última Hora, que apoiava Goulart, e a intervenção em sindicatos e federações de trabalhadores. Soldados invadiram a Universidade de Brasília e prenderam professores e alunos, cerca de cem pessoas tiveram os direitos políticos suspensos com base no AI-1, e o Inquérito Policial Militar passou a servir à perseguição dos adversários do regime. Segundo nota do historiador Waldir Rampinelli, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), centro de estudos do nacionalismo, foi extinto em 13 de abril de 1964, sob a presidência interina de Mazzilli. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41; Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, nota 6)
Em 11 de abril, o Congresso elegeu presidente o marechal Humberto Castelo Branco e vice José Maria Alkmin, do PSD. Com a posse de Castelo Branco, em 15 de abril de 1964, começou a longa sucessão de governos militares. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41)
Como os marxistas leram o golpe
Para Caio Navarro de Toledo, os protagonistas do golpe foram as facções duras das Forças Armadas e o empresariado nacional, com os seus partidos, entidades de classe e aparelhos ideológicos, e com o apoio decidido da embaixada e de agências dos Estados Unidos. Ele afirma que quem planejou e desencadeou o golpe contra a democracia foram as classes dominantes, e que as forças populares, desarmadas e divididas, não ofereceram resistência. (Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, pp. 22 e 24)
Carlos Marighella escreveu em 1966 que o golpe de 1º de abril venceu sem que as forças contrárias a ele, entre elas os comunistas, esboçassem resistência. Segundo ele, a única resistência de massas organizada foi a greve geral, que não teve condições de prosseguir por causa do despreparo geral. (Marighella, A crise brasileira, p. 3)
Mazzilli entrou depois no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), um dos dois partidos permitidos depois que o Ato Institucional nº 2 extinguiu os partidos, em 1965, perdeu a eleição para a Câmara em 1966 e morreu em São Paulo em 1975. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38)
Nesta leitura
O que dizem os historiadores marxistas
Caio Navarro de Toledo
A emenda parlamentarista de 1961 foi um golpe branco; o golpe de 1964 foi planejado e desencadeado pelas classes dominantes, com o apoio dos Estados Unidos.
Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, pp. 18, 22 e 24Carlos Marighella
O golpe de 1º de abril venceu sem resistência, salvo a greve geral, por causa do despreparo das forças populares e dos comunistas.
Marighella, A crise brasileira, p. 3
Leitura de classe do governo
- Regime
- ditadura
- Bloco no poder
- em 1961, os ministros militares que vetavam a posse de Goulart; em 1964, o Comando Supremo da Revolução, com o empresariado e as facções duras das Forças Armadas (Arquivo Nacional, pp. 38 e 41; Toledo, pp. 18 e 22)
- Relação com o imperialismo
- alinhamento
- Relação com os trabalhadores
- repressão
Para estudar este governo
TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia. São Paulo: Revista Brasileira de História (Associação Nacional de História), v. 24, n. 47, pp. 13-28, 2004. Onde ler: pp. 18 e 22-24.
Ler grátis: 1964: o golpe contra as reformas e a democracia ↗
MARIGHELLA, Carlos. A crise brasileira (ensaios políticos). 1966. Onde ler: p. 3.
GORENDER, Jacob. Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50. 2002.
Ler grátis: Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50 ↗
De onde vem cada afirmação desta página (23)
- FatoComo presidente da Câmara, conforme a Constituição, Mazzilli assumiu a presidência em 25 de agosto de 1961, por causa da renúncia de Jânio Quadros e da ausência do vice João Goulart, em missão na China.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38
- FatoEm 2 de abril de 1964, Mazzilli assumiu mais uma vez a presidência, por ocasião do golpe político-militar que depôs João Goulart.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41
- FatoEm 9 de abril de 1964, o Comando Supremo baixou o AI-1, redigido por Francisco Campos, que estabeleceu eleições indiretas para presidente, suspendeu a estabilidade dos funcionários e a imunidade parlamentar, permitiu cassar mandatos e suspender direitos políticos por dez anos, fortaleceu o presidente e previu o estado de sítio sem aprovação parlamentar.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41
- FatoO Ato Institucional nº 1 é de 9 de abril de 1964.Comando Supremo da Revolução, Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964, ementa
- FatoO regime instaurado com o golpe apresentava-se como uma intervenção militar provisória, que pretendia restaurar a ordem, retomar o crescimento e conter o comunismo e a corrupção.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41
- FatoMazzilli foi deputado federal pelo PSD de São Paulo (1951-1966) e presidente da Câmara (1959-1965) e, nessa condição, assumiu por diversas vezes a presidência da República, em especial em 1961 e 1964.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38
- FatoMazzilli foi diretor do Tesouro Público Nacional (1942), secretário-geral de Finanças da Prefeitura do Distrito Federal (1946), diretor da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro (1947) e do banco da Prefeitura do Distrito Federal (1948).Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38
- FatoEm 11 de abril de 1964, o Congresso elegeu o marechal Castelo Branco presidente e José Maria Alkmin, do PSD, vice; com a posse de Castelo, em 15 de abril, iniciou-se uma longa sucessão de governos militares.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41
- FatoEm 30 de agosto de 1961, a polícia dispersou manifestantes pró-legalidade na Cinelândia, no Rio de Janeiro.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38, legenda
- FatoO poder de fato passou a ser exercido pelo Comando Supremo da Revolução, junta composta pelo general Artur da Costa e Silva, pelo almirante Augusto Rademaker Grünewald e pelo brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41
- FatoPela emenda, o Poder Executivo passou a ser exercido pelo presidente e pelo Conselho de Ministros, a quem cabia a direção da política do governo; os ministros deviam ser exonerados quando a Câmara lhes retirasse a confiança.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961, arts. 1º e 3º
- FatoA Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961, instituiu o sistema parlamentar de governo.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961, ementa
- FatoO ISEB, criado em 14 de julho de 1955, foi extinto em 13 de abril de 1964 pelo presidente interino Ranieri Mazzilli.Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, nota 6, do entrevistador
- FatoJoão Goulart assumiu a presidência em 7 de setembro de 1961.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38
- FatoOs ministros militares de Jânio, general Odílio Denys, brigadeiro Grün Moss e almirante Sílvio Heck, formaram uma junta que tentou impedir, sem sucesso, a posse de Goulart, abrindo uma grave crise político-militar.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38
- Interpretação · Carlos MarighellaO golpe de 1º de abril tornou-se vitorioso sem que as forças antigolpistas, entre elas os comunistas, esboçassem resistência; a única resistência de massas organizada foi a greve geral, sem condições de prosseguir por causa do despreparo geral.Marighella, A crise brasileira, p. 3
- FatoCom a extinção dos partidos e o bipartidarismo instalado pelo AI-2 (1965), Mazzilli ingressou no MDB, candidatou-se sem sucesso à Câmara em 1966 e morreu em São Paulo em 21 de abril de 1975.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38
- FatoPascoal Ranieri Mazzilli, advogado, nasceu em Caconde (SP), em 27 de abril de 1910.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 38
- FatoDepois do golpe, houve a queima do prédio da UNE, o empastelamento da sede do jornal Última Hora, que apoiava Goulart, e a intervenção em sindicatos e federações de trabalhadores.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41
- Interpretação · Caio Navarro de ToledoQuem planejou e desencadeou o golpe contra a democracia foram as classes dominantes; as forças progressistas e de esquerda, desarmadas, desorganizadas e fragmentadas, não ofereceram resistência.Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, p. 24
- Interpretação · Caio Navarro de ToledoA emenda parlamentarista, imposta ao Congresso pela junta militar, pode ser interpretada como um golpe branco: o Congresso, ameaçado, reformou a Constituição sob clima pré-insurrecional, contrariando dispositivos da Carta de 1946.Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, p. 18
- Interpretação · Caio Navarro de ToledoO golpe de 1964 teve como protagonistas principais as facções duras das Forças Armadas e o empresariado nacional, por meio de seus partidos, entidades de classe e aparelhos ideológicos, com o apoio decidido da embaixada e de agências norte-americanas.Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, p. 22
- FatoEm abril de 1964, soldados invadiram a Universidade de Brasília e prenderam professores e alunos; cerca de cem pessoas tiveram os direitos políticos suspensos com base no AI-1, e o Inquérito Policial Militar passou a permitir a perseguição aos adversários do regime.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 41
Fontes desta página
- Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
- Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961 (institui o sistema parlamentar). planalto.gov.br, 02/09/1961. Abrir ↗
- TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia. São Paulo: Revista Brasileira de História (Associação Nacional de História), v. 24, n. 47, pp. 13-28, 2004. Abrir ↗
- Comando Supremo da Revolução. Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964. planalto.gov.br, 09/04/1964. Abrir ↗
- GORENDER, Jacob. Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50. 2002. Abrir ↗
- MARIGHELLA, Carlos. A crise brasileira (ensaios políticos). 1966. Abrir ↗
- Jacob Gorender. Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50 (a Waldir José Rampinelli, 2002). marxists.org. Abrir ↗