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Estudos / História do Brasil / Nova República / José Sarney

Retrato oficial de José Sarney
Foto: Unknown author, c. 1985. CC BY 3.0 br. Wikimedia Commons ↗

Nova RepúblicaPFLViés: transição conservadora tutelada pelos militares

José Sarney

Governou de 15/03/1985 a 15/03/1990

Ex-presidente da Arena e do PDS, assumiu em 1985 como vice de Tancredo Neves e governou até 1990. Seu governo convocou a Constituinte, lançou o Plano Cruzado e decretou a moratória de 1987, e a inflação chegou a 1.764,86% em 1989. Para Florestan Fernandes, a Nova República prolongou os métodos da ditadura, e Armando Boito vê um governo civil tutelado pelos militares.

Partido
Frente Liberal (PFL), pela qual compôs a chapa de 1985
Como chegou
vice eleito pelo Colégio Eleitoral na chapa de Tancredo Neves; assumiu de forma interina em 15 de março de 1985 e foi efetivado com a morte de Tancredo, em 21 de abril
Como saiu
terminou o mandato em 15 de março de 1990, data fixada pela Constituição de 1988 (ADCT, art. 4º)
Nascimento
Pinheiro (MA), 1930
Antes da presidência
advogado; deputado federal pela UDN (1959-1966), governador do Maranhão (1966-1970) e senador (1971-1985) pela Arena e pelo PDS, partidos que presidiu

O governo em datas

José Sarney, 1985–1990

  1. 15/03/1985Sarney assume a presidência de forma interina.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  2. 15/05/1985Emenda nº 25 restabelece as diretas para presidente e libera a criação de partidos.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 25, de 15 de maio de 1985
  3. 27/11/1985Emenda nº 26 convoca a Assembleia Nacional Constituinte.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985
  4. 27/02/1986Decreto-Lei nº 2.283 cria o cruzado, congela os preços e institui o seguro-desemprego.Presidência da República, Decreto-Lei nº 2.283, de 27 de fevereiro de 1986
  5. 01/02/1987Instalação da Assembleia Nacional Constituinte.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  6. 05/10/1988Promulgação da Constituição.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988
  7. 15/11/1989Primeira eleição para presidente depois da Constituição.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988
  8. 15/03/1990Fim do mandato de Sarney.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988

O que o governo fez

Principais medidas

Para entender o governo

Da Arena à Aliança Democrática

José Sarney nasceu em Pinheiro (MA), em 24 de abril de 1930, e era advogado. Ele foi deputado federal pela União Democrática Nacional (UDN) e, com o bipartidarismo imposto pelo AI-2, entrou na Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido de sustentação do regime militar, pela qual governou o Maranhão de 1966 a 1970 e foi senador de 1971 a 1985. Presidente da Arena em 1979 e do Partido Democrático Social (PDS) em 1980, ele passou em 1984, com outros dissidentes do PDS, para a Frente Liberal, que o lançou como vice na chapa de Tancredo Neves. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 52)

Sarney assumiu a presidência de forma interina em 15 de março de 1985, por causa da doença de Tancredo, e foi efetivado com a morte dele, em 21 de abril. Ruy Mauro Marini lembra que o novo presidente tinha sido líder do PDS e que o primeiro ano do governo enfrentou o questionamento da sua legitimidade, por ser chefiado pelo vice de um presidente que não tomara posse. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 52; Marini, Brasil, pp. 15-16)

Diretas, partidos e Constituinte

A Emenda Constitucional nº 25, de maio de 1985, restabeleceu a eleição direta para presidente, abriu caminho para o voto dos analfabetos e tornou livre a criação de partidos políticos. A Emenda nº 26, de novembro de 1985, convocou os deputados e os senadores a se reunirem numa Assembleia Nacional Constituinte unicameral a partir de 1º de fevereiro de 1987, e a Assembleia se instalou nessa data, sob a liderança do deputado Ulysses Guimarães. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 25, de 15 de maio de 1985, arts. 74, 147 e 152; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985, art. 1º; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 52)

A Constituição foi promulgada em 5 de outubro de 1988. Ela previu o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular, tornou facultativo o voto dos analfabetos e dos jovens de 16 e 17 anos, assegurou o direito de greve e fixou a jornada em 44 horas semanais. A Carta também definiu a saúde como direito de todos e dever do Estado e manteve as Forças Armadas como garantidoras da lei e da ordem. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, arts. 7º, XIII, na redação original, 9º, 14, 142 e 196)

Marini chamou a nova Constituição de liberal, democrática e nacionalista, porque ela reservou às empresas nacionais a exploração do solo e do subsolo, mas observou que ela recuou na desapropriação de terras para a reforma agrária. O texto declarou a propriedade produtiva insuscetível de desapropriação para esse fim. Segundo Marini, as organizações patronais e as Forças Armadas pressionaram a Constituinte de fora, e um agrupamento conservador, o Centrão, respondeu pela regulamentação final das questões que mais interessavam a essas forças. (Marini, Brasil, pp. 19-20; Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 185)

O Plano Cruzado e a moratória

Em 27 de fevereiro de 1986, o Decreto-Lei nº 2.283 criou o cruzado, que valia mil cruzeiros, congelou os preços no nível daquele dia e mandou reajustar os salários toda vez que a inflação acumulada passasse de 20%, o chamado gatilho. O mesmo decreto-lei criou o seguro-desemprego para o trabalhador demitido sem justa causa. O Arquivo Nacional registra que o plano foi considerado heterodoxo, por diferir dos planos recomendados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). (Presidência da República, Decreto-Lei nº 2.283, de 27 de fevereiro de 1986, arts. 1º, 23, 26 e 36; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 52)

Para Marini, o Cruzado foi concebido pelo ministro da Fazenda Dílson Funaro, industrial paulista ligado ao PMDB, para legitimar Sarney, recuperar o controle burguês sobre o movimento de massas e devolver a iniciativa à burguesia industrial. Como a fração financeira barrou as reformas, em especial a bancária, o plano não foi muito além do congelamento e acabou beneficiando essa fração e o setor agrário exportador. O PMDB venceu as eleições de 1986, e o governo pôs fim ao congelamento de preços depois delas. (Marini, Brasil, pp. 17-18)

Em fevereiro de 1987, com as reservas em queda, o país suspendeu o pagamento dos juros da dívida externa aos bancos privados, uma moratória que terminou em novembro, quando o Brasil pagou 500 milhões de dólares ao FMI. Novos planos vieram em janeiro de 1988 e em janeiro de 1989, e a inflação ficou em torno de 1.000% em 1988 e chegou a 1.764,86% em 1989. Marini atribui a moratória à perda das reservas, provocada pela queda das exportações e pela alta das importações sob a política cambial do Cruzado. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 52; Marini, Brasil, p. 18)

A integração com a Argentina

Em julho de 1986, Sarney e o presidente argentino Raúl Alfonsín assinaram a Ata para a Integração Brasil-Argentina, com doze protocolos, e a aproximação, que atraiu depois o Uruguai e o Paraguai, levou ao projeto de um mercado comum dos quatro países. Marini interpreta essa política como um contrapeso à retomada da influência norte-americana na região. O governo também reatou as relações diplomáticas com Cuba. (Marini, Brasil, p. 17; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 52)

Como os marxistas leram o governo

Florestan Fernandes via o governo Sarney como sucessor da ditadura e seu equivalente político, e chamou o presidente de grão-vizir civil do regime militar. Em 1987, ele escreveu que Sarney agiu como o equivalente civil dos generais-presidentes para sabotar a Constituinte, e em 1988 defendeu a renúncia ou a destituição do presidente. Na promulgação, Florestan afirmou que a Constituição nasceu sufocada pelo poder do dinheiro e por uma Nova República que prolongava os métodos da ditadura, mas que ela abria caminhos para dar peso e voz ao trabalhador. (Fernandes, Congresso Constituinte; Fernandes, Adeus à transição; Fernandes, Renúncia ou destituição; Fernandes, A Constituição de 1988)

Luiz Carlos Prestes disse, em 1986, que não havia nenhuma Nova República, porque nenhum torturador tinha sido punido, o DOI-CODI continuava intacto e a legislação da ditadura, como a Lei de Segurança Nacional e a lei contra as greves, seguia de pé. Para ele, a política de Sarney era reacionária, jogava a crise nas costas dos trabalhadores e reduzia o salário real, e o PMDB tinha virado o partido do governo. (Prestes, Entrevista ao programa Roda Viva, §§ 4, 6, 83 e 103)

Armando Boito descreve o governo Sarney como civil, não eleito e tutelado pelos militares. Para ele, o bloco no poder, o conjunto das frações de classe que controlam a política do Estado, não mudou de forma significativa com a troca da ditadura pelo governo civil e continuou dirigido pelas grandes empresas monopolistas, nacionais e estrangeiras, com os proprietários de terra e a média burguesia como frações subordinadas. Boito registra greves gerais contra a política econômica em dezembro de 1986 e em agosto de 1987, com cerca de dez milhões de participantes cada uma, e em março de 1989, com vinte milhões e dois dias de duração, segundo cálculos de Salvador Sandoval. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, pp. 85-87)

O que dizem os historiadores marxistas

Leitura de classe do governo

Regime
democracia liberal restrita
Bloco no poder
grandes empresas monopolistas, nacionais e estrangeiras, com proprietários de terra e média burguesia como frações subordinadas (Boito, 1996, p. 85); disputa entre a burguesia industrial e a fração financeira no Plano Cruzado (Marini, 1991, pp. 17-18)
Relação com o imperialismo
barganha
Relação com os trabalhadores
conciliação, concessão

Para estudar este governo

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (40)

Fontes desta página

  1. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  2. MARINI, Ruy Mauro. Brasil: da ditadura à democracia, 1964-1990. 1991. Abrir ↗
  3. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 25, de 15 de maio de 1985. planalto.gov.br, 15/05/1985. Abrir ↗
  4. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985 (convoca a Assembleia Nacional Constituinte). planalto.gov.br, 27/11/1985. Abrir ↗
  5. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  6. Presidência da República. Decreto-Lei nº 2.283, de 27 de fevereiro de 1986 (cruzado e seguro-desemprego; revogado pelo Decreto-Lei nº 2.284, de 1986). planalto.gov.br, 27/02/1986. Abrir ↗
  7. FERNANDES, Florestan. Congresso Constituinte. 1985. Abrir ↗
  8. FERNANDES, Florestan. Adeus à transição. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 19 de outubro de 1987, 1987. Abrir ↗
  9. FERNANDES, Florestan. Renúncia ou destituição. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 12 de janeiro de 1988, 1988. Abrir ↗
  10. FERNANDES, Florestan. A Constituição de 1988. São Paulo: Folha de S.Paulo, 4 de outubro de 1988, p. A-3, 1988. Abrir ↗
  11. PRESTES, Luiz Carlos. Entrevista ao programa Roda Viva (1986). 1986. Abrir ↗
  12. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗