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Estudos / História do Brasil / Nova República / Fernando Collor de Mello

Retrato oficial de Fernando Collor de Mello
Foto: Ubirajara Dettimar, 1992. Public domain / CC BY 3.0 br. Wikimedia Commons ↗

Nova RepúblicaPRNViés: neoliberal

Fernando Collor de Mello

Governou de 15/03/1990 a 02/10/1992

Primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da ditadura, venceu Lula em 1989 e governou de 1990 a 1992. Bloqueou a poupança, abriu a economia às importações e criou o programa de privatizações, até ser afastado pelo processo de impeachment e renunciar. Para Armando Boito, a eleição de Collor levou ao poder a plataforma neoliberal da burguesia.

Partido
Partido da Reconstrução Nacional (PRN)
Como chegou
eleito pelo voto direto em 1989, no segundo turno, contra Lula, com 53,03% dos votos dados aos dois candidatos (soma dos arquivos do TSE)
Como saiu
afastado em 2 de outubro de 1992, depois que a Câmara autorizou o processo de impeachment; renunciou em 29 de dezembro de 1992, no início do julgamento no Senado, que no dia 30 o condenou à inabilitação por oito anos
Nascimento
Rio de Janeiro (RJ), 1949
Antes da presidência
jornalista; prefeito nomeado de Maceió (1980-1982), deputado federal pelo PDS (1983-1987) e governador de Alagoas pelo PMDB (1987-1989)

O governo em datas

Fernando Collor de Mello, 1990–1992

  1. 15/11/1989Primeiro turno da eleição presidencial.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988
  2. 15/03/1990Collor toma posse e anuncia o plano econômico.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
  3. 12/04/1990Leis nº 8.024 (bloqueio dos cruzados novos) e nº 8.031 (Programa Nacional de Desestatização).Congresso Nacional, Lei nº 8.024, de 12 de abril de 1990
  4. 01/06/1992Instalação da CPMI sobre os negócios de PC Farias.Câmara dos Deputados, 20 anos do impeachment do Collor
  5. 29/09/1992A Câmara autoriza o processo de impeachment por 441 votos a 38.Câmara dos Deputados, 20 anos do impeachment do Collor
  6. 02/10/1992Collor é afastado, e Itamar Franco assume de forma provisória.Câmara dos Deputados, 20 anos do impeachment do Collor
  7. 29/12/1992Collor renuncia no início do julgamento no Senado.Câmara dos Deputados, 20 anos do impeachment do Collor
  8. 30/12/1992O Senado aprova a inabilitação de Collor por oito anos.Senado Federal, Resolução

O que o governo fez

Principais medidas

Para entender o governo

De Maceió ao PRN

Fernando Affonso Collor de Mello nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de agosto de 1949, e era jornalista. Ele foi prefeito nomeado de Maceió de 1980 a 1982, deputado federal pelo PDS de 1983 a 1987 e governador de Alagoas pelo PMDB de 1987 a 1989. Depois, fundou o Partido da Reconstrução Nacional (PRN), pelo qual disputou a presidência. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 53)

A eleição de 1989

A Constituição marcou para 15 de novembro de 1989 a primeira eleição presidencial depois da sua promulgação, e Collor se tornou o primeiro presidente civil eleito pelo voto direto desde 1960. No primeiro turno, ele teve 20.611.030 votos, contra 11.622.321 de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e 11.167.665 de Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), segundo a soma dos arquivos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No segundo turno, Collor venceu Lula por 35.090.206 votos a 31.075.803, ou 53,03% contra 46,97% dos votos dados aos dois. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, ADCT, art. 4º, § 1º; Câmara dos Deputados, 20 anos do impeachment do Collor; Tribunal Superior Eleitoral, Votação por candidato e UF, eleição presidencial de 1989)

Ruy Mauro Marini conta que as organizações patronais, os grupos econômicos e os meios de comunicação se dividiram entre cinco candidatos no primeiro turno e só se uniram em torno de Collor no segundo, quando viram a força dos candidatos de esquerda. Jacob Gorender escreveu que Collor, um candidato marginal no sentido burguês, conseguiu se impor aos empresários e os obrigou a apoiá-lo como única alternativa diante do risco de vitória de Lula. (Marini, Brasil, pp. 20-21; Gorender, Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94, introdução, 14º parágrafo)

O confisco e a abertura

No primeiro dia de governo, em março de 1990, Collor anunciou um plano econômico que bloqueou o dinheiro das contas correntes e das cadernetas de poupança acima de 50 mil cruzados novos. A Lei nº 8.024, que converteu em lei a Medida Provisória nº 168, ato do presidente com força de lei, mandou devolver o excedente a partir de 16 de setembro de 1991, em doze parcelas mensais. A Lei nº 8.031, da mesma data, criou o Programa Nacional de Desestatização, para transferir à iniciativa privada atividades que a lei dizia exploradas indevidamente pelo setor público. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 53; Congresso Nacional, Lei nº 8.024, de 12 de abril de 1990, arts. 5º e 6º; Congresso Nacional, Lei nº 8.031, de 12 de abril de 1990, art. 1º)

O Arquivo Nacional registra que o governo extinguiu órgãos públicos, demitiu e pôs em disponibilidade servidores federais e privatizou empresas públicas, e que a equipe da ministra da Economia, Zélia Cardoso de Melo, eliminou tarifas aduaneiras. A inflação caiu, mas voltou no fim de 1990, e o Plano Collor II, de janeiro de 1991, intensificou os juros altos e a abertura às importações, com queda da produção industrial e alta do desemprego. Para o Arquivo Nacional, esse projeto se ajustava à ideia de Estado mínimo, conceituada como neoliberal. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 53)

Armando Boito registra, com dados do departamento de estudos econômicos da CUT, que a economia encolheu 4,4% em 1990, cresceu 1,1% em 1991 e caiu 0,9% em 1992. O salário mínimo, em dólares de dezembro de 1993, passou de 90,93 em 1989 para 64,22 em 1990 e 62,41 em 1991, e o número de grevistas caiu de 12,4 milhões em 1990 para 2,9 milhões em 1992. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, pp. 89-90)

O impeachment

Em 1992, a imprensa denunciou um esquema de corrupção no governo comandado por Paulo César Farias, ex-tesoureiro da campanha de Collor. Uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI), instalada em 1º de junho, aprovou em 26 de agosto, por 16 votos a 5, um relatório que incriminava o presidente. Com apoio popular maciço, segundo o Arquivo Nacional, os presidentes da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediram o impeachment, o processo que julga o presidente por crime de responsabilidade. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 53; Câmara dos Deputados, 20 anos do impeachment do Collor)

Em 29 de setembro de 1992, a Câmara autorizou o processo por 441 votos a 38, e Collor foi afastado em 2 de outubro, quando o vice Itamar Franco assumiu de forma provisória. Em 29 de dezembro, no início do julgamento no Senado, Collor renunciou por meio de uma carta. No dia seguinte, o Senado o condenou, por 76 votos a 2, à inabilitação por oito anos para o exercício de função pública. (Câmara dos Deputados, 20 anos do impeachment do Collor; Senado Federal, Resolução)

Como os marxistas leram o governo

Marini via no governo Collor uma aposta no neoliberalismo, com estabilização monetária, renegociação da dívida externa, redução da presença do Estado na economia e abertura comercial. Para ele, essa estratégia rompeu a unidade do bloco dominante, ao opor a grande burguesia industrial protecionista, das indústrias automobilística, siderúrgica e metal-mecânica, aos setores mais novos, como a informática e as telecomunicações, e levou o governo a colidir com a CUT e com os trabalhadores das estatais. Marini descreveu ainda um estilo personalista, que apelava às massas desorganizadas e se apoiava nas Forças Armadas. (Marini, Brasil, pp. 21-22)

Boito afirma que a eleição de Collor levou ao poder a plataforma neoliberal, apoiada na abertura da economia ao capital estrangeiro, que ele chama de imperialista, na privatização e na desregulamentação das relações de trabalho. Segundo ele, a Força Sindical, central criada em 1991, defendeu essa plataforma com apoio político e financeiro do governo e de empresários, e a campanha do impeachment foi uma oportunidade que o sindicalismo combativo deixou passar. Em 2003, Boito apontou Collor como o pioneiro do discurso que jogava os pobres contra o funcionalismo público, com a caça aos marajás em nome dos descamisados. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, pp. 81 e 89-91; Boito Jr., A hegemonia neoliberal no governo Lula, pp. 25 e 33)

Gorender afirmou, em julho de 1990, que a hiperinflação, a recessão, a queda dos salários e o desemprego em massa ameaçavam direitos que os trabalhadores tinham conquistado em décadas de luta. Em 1995, ele lembrou que a corrupção escandalosa de Collor terminou num impeachment inédito, feito por um procedimento legal. Para Décio Saes, de 1990 a 2002 o reforço do Poder Executivo, que governa por medidas provisórias, serviu para impor à sociedade e até a setores da classe dominante uma política neoliberal favorável ao capital estrangeiro e à burguesia associada. (Gorender, Entrevista à Teoria e Debate, § 93; Gorender, Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94, introdução, 12º parágrafo; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 16-17)

O que dizem os historiadores marxistas

Leitura de classe do governo

Regime
democracia liberal restrita
Bloco no poder
frente burguesa unida em torno de Collor no segundo turno de 1989, com conflito entre a grande burguesia industrial protecionista e os setores integrados à economia mundial (Marini, 1991, pp. 20-21); capital estrangeiro e burguesia associada (Saes, 2015, pp. 16-17)
Relação com o imperialismo
alinhamento
Relação com os trabalhadores
tutela, conciliação

Para estudar este governo

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (41)

Fontes desta página

  1. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  2. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  3. Câmara dos Deputados. 20 anos do impeachment do Collor (Escrevendo a História, Departamento de Taquigrafia da Câmara dos Deputados). www2.camara.leg.br. Abrir ↗
  4. Tribunal Superior Eleitoral. Votação por candidato e UF, eleição presidencial de 1989 (Portal de Dados Abertos do TSE). cdn.tse.jus.br. Abrir ↗
  5. MARINI, Ruy Mauro. Brasil: da ditadura à democracia, 1964-1990. 1991. Abrir ↗
  6. GORENDER, Jacob. Hegemonia burguesa reforçada pela prova eleitoral de 94. 1995. Abrir ↗
  7. Congresso Nacional. Lei nº 8.024, de 12 de abril de 1990 (conversão da Medida Provisória nº 168, de 1990). planalto.gov.br, 12/04/1990. Abrir ↗
  8. Congresso Nacional. Lei nº 8.031, de 12 de abril de 1990 (cria o Programa Nacional de Desestatização). planalto.gov.br, 12/04/1990. Abrir ↗
  9. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗
  10. Senado Federal. Resolução (SF) nº 101, de 1992: sanções no processo de impeachment contra o presidente Fernando Affonso Collor de Mello (ficha da matéria). www25.senado.leg.br, 30/12/1992. Abrir ↗
  11. BOITO JR., Armando. A hegemonia neoliberal no governo Lula. Crítica Marxista, n. 17, pp. 10-36, 2003. Abrir ↗
  12. GORENDER, Jacob. Entrevista à Teoria e Debate (julho de 1990). 1990. Abrir ↗
  13. SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗