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Estudos / História do Brasil / República Oligárquica / Campos Sales

Retrato oficial de Campos Sales
Foto: Governo do Brasil, c. 1898. Public domain. Wikimedia Commons ↗

República OligárquicaPRPViés: oligarquia cafeeira

Campos Sales

Governou de 15/11/1898 a 15/11/1902

Campos Sales montou a política dos governadores, que dava o apoio do governo federal aos grupos que mandavam em cada estado em troca de deputados fiéis. Antes da posse, ele fechou o funding loan com a Casa Rothschild e, com o ministro Joaquim Murtinho, aumentou impostos e cortou gastos. Para Nelson Werneck Sodré, esse governo deu forma acabada ao domínio das oligarquias do café.

Partido
Partido Republicano Paulista (PRP)
Como chegou
eleição direta de 1º de março de 1898, com 174.325 votos contra 16.534 de Lauro Sodré
Como saiu
fim do mandato; vaiado pela população ao deixar o Rio
Nascimento
Campinas (SP), 1841
Morte
litoral de São Paulo (Santos, segundo o Arquivo Nacional; Guarujá, segundo o CPDOC), 1913
Antes da presidência
advogado e chefe do PRP; ministro da Justiça do governo provisório (1889-1891), constituinte, senador e presidente de São Paulo

O governo em datas

Campos Sales, 1898–1902

  1. 01/03/1898Campos Sales é eleito presidente.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos
  2. 15/11/1898Posse, depois do acordo do funding loan com a Casa Rothschild.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos
  3. 03/09/1901Manifesto da dissidência do PRP contra a orientação de Campos Sales.Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de
  4. 15/11/1902Campos Sales entrega o cargo a Rodrigues Alves.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos
  5. 18/11/1902O ex-presidente é vaiado na partida do trem da Central do Brasil.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos

O que o governo fez

Principais medidas

Para entender o governo

Eleito e comprometido com a Casa Rothschild

Manuel Ferraz de Campos Sales nasceu em Campinas (SP), em 1841, numa família ligada à lavoura, foi chefe do Partido Republicano Paulista e ministro da Justiça do governo provisório. Na eleição de 1º de março de 1898, ele teve 174.325 votos, contra 16.534 do florianista Lauro Sodré. Antes da posse, Campos Sales foi à Europa negociar com a Casa Rothschild, principal credora do Brasil, o funding loan, um empréstimo de 10 milhões de libras para consolidar a dívida externa. Em troca, o governo deu como garantia as rendas da alfândega do Rio de Janeiro, prometeu não tomar novos empréstimos externos e queimar papel-moeda no valor do empréstimo, e o presidente eleito assinou de próprio punho o compromisso exigido pelos banqueiros. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15; Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República")

O arrocho de Murtinho

Com o ministro da Fazenda Joaquim Murtinho, o governo aumentou impostos, cortou investimentos, controlou os salários do funcionalismo e reduziu despesas. No manifesto de outubro de 1897, Campos Sales já prometia resgatar o papel-moeda, cortar o déficit e tirar das tarifas o que chamava de protecionismo inoportuno. Sodré afirma que essa política tentou, pela primeira vez, paralisar o desenvolvimento do país por meio de medidas financeiras, e mostra que o período de 1895 a 1899 teve o menor investimento em indústria entre 1885 e 1919, com cerca de 5% do total. Na mensagem de maio de 1899, citada por Sodré, Campos Sales defendia que o Brasil exportasse o que produzia em melhores condições e importasse o que os outros países produziam melhor. (Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República"; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 307)

A política dos governadores

Para garantir apoio no Congresso e isolar os republicanos radicais, Campos Sales criou o que chamou de política dos estados, em que o governo federal dava o seu aval aos grupos que já mandavam em cada estado. Nos meios políticos, o arranjo ganhou o nome de política dos governadores. O Arquivo Nacional registra que o apoio dependia da eleição de deputados fiéis ao governo central e que a Comissão de Verificação permitia aos grupos dominantes validar ou não o resultado de uma eleição. Em 1901, uma dissidência do Partido Republicano Paulista, que incluía o ex-presidente Prudente de Morais, rompeu com a orientação de Campos Sales. (Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República"; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15; Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de, seção "Presidente da República")

Como os marxistas leem a política dos governadores

Para Nelson Werneck Sodré, a política dos governadores entregava cada estado, como uma fazenda particular, à oligarquia regional que o dominava, que ficava livre para resolver os problemas locais, inclusive pela força. Em troca, o governo federal governava sem interferência nos estados, e as oligarquias montavam bandos armados ou polícias que funcionavam como exércitos regionais. Sodré liga essa organização interna da classe dos senhores de terras à associação com o imperialismo, que passou a financiar a política do café. Ele também cita Rui Barbosa, que chamava a política brasileira da época de sindicato dos governadores presidido pelo chefe do Executivo. (Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 306 e 315)

Edgard Carone, historiador marxista e professor de História do Brasil na USP, define o oligarca como um coronel em escala maior, porque o coronel é o chefe local e o oligarca leva o seu poder para o estado. Ele divide as oligarquias em dois grupos. Em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, o partido dominante amortecia os conflitos, enquanto nos estados mais pobres uma família ou um grupo controlava tudo, o que levava a formas violentas de política. Décio Saes chama esse regime de democracia oligárquica, com um único partido viável e eleições controladas pelos grandes proprietários de terras. (Carone, Oligarquias, p. 83; Arquivo Marxista na Internet, Edgard Carone; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 15)

A saída

Em 1900, segundo o Arquivo Nacional, o Brasil tinha 17.318.554 habitantes, e 64% deles viviam no campo. O governo criou o Instituto de Manguinhos, voltado à fabricação de vacinas contra a peste bubônica. Para a sucessão, Campos Sales escolheu Rodrigues Alves, presidente de São Paulo e antigo servidor da monarquia, comprometido com o seu programa financeiro. Quando deixou o Rio, em novembro de 1902, Campos Sales foi vaiado pela população na partida do trem, episódio que Sodré trata como um sintoma do declínio das oligarquias. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15; Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República"; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 316)

O que dizem os historiadores marxistas

Leitura de classe do governo

Regime
oligárquico
Bloco no poder
fração cafeeira paulista e oligarquias estaduais, associadas ao capital financeiro inglês da Casa Rothschild (Sodré, pp. 306-307; CPDOC)
Relação com o imperialismo
alinhamento
Relação com os trabalhadores
repressão

Para estudar este governo

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (27)

Fontes desta página

  1. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  2. Américo Freire (CPDOC/FGV). SALES, Campos (verbete do Dicionário da Primeira República). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  3. SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
  4. Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV). MORAIS, Prudente de (verbete do Dicionário da Primeira República). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  5. CARONE, Edgard. Oligarquias: definição e bibliografia. Rio de Janeiro: Revista de Administração de Empresas (FGV), v. 12, n. 1, pp. 81-92, 1972. Abrir ↗
  6. Arquivo Marxista na Internet. Edgard Carone (verbete do Dicionário Político). marxists.org. Abrir ↗
  7. SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗
  8. Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗
  9. Edgard Carone. Oligarquias: definição e bibliografia (Revista de Administração de Empresas, v. 12, n. 1, jan.-mar. 1972). periodicos.fgv.br. Abrir ↗
  10. Décio Azevedo Marques de Saes. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo (Novos Rumos, v. 52, n. 1, 2015). revistas.marilia.unesp.br. Abrir ↗