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República OligárquicaPRPViés: oligarquia cafeeira
Campos Sales
Governou de 15/11/1898 a 15/11/1902
Campos Sales montou a política dos governadores, que dava o apoio do governo federal aos grupos que mandavam em cada estado em troca de deputados fiéis. Antes da posse, ele fechou o funding loan com a Casa Rothschild e, com o ministro Joaquim Murtinho, aumentou impostos e cortou gastos. Para Nelson Werneck Sodré, esse governo deu forma acabada ao domínio das oligarquias do café.
- Partido
- Partido Republicano Paulista (PRP)
- Como chegou
- eleição direta de 1º de março de 1898, com 174.325 votos contra 16.534 de Lauro Sodré
- Como saiu
- fim do mandato; vaiado pela população ao deixar o Rio
- Nascimento
- Campinas (SP), 1841
- Morte
- litoral de São Paulo (Santos, segundo o Arquivo Nacional; Guarujá, segundo o CPDOC), 1913
- Antes da presidência
- advogado e chefe do PRP; ministro da Justiça do governo provisório (1889-1891), constituinte, senador e presidente de São Paulo
O governo em datas
Campos Sales, 1898–1902
- 01/03/1898Campos Sales é eleito presidente.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos
- 15/11/1898Posse, depois do acordo do funding loan com a Casa Rothschild.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos
- 03/09/1901Manifesto da dissidência do PRP contra a orientação de Campos Sales.Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de
- 15/11/1902Campos Sales entrega o cargo a Rodrigues Alves.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos
- 18/11/1902O ex-presidente é vaiado na partida do trem da Central do Brasil.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos
O que o governo fez
Principais medidas
- 1898
Funding loan
Empréstimo de 10 milhões de libras com a Casa Rothschild, garantido pelas rendas da alfândega do Rio, com a promessa de não tomar novos empréstimos e de queimar papel-moeda.
Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos Saneamento financeiro de Murtinho
Aumento de impostos, corte de investimentos, controle dos salários do funcionalismo e redução de despesas.
Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, CamposPolítica dos estados
O governo federal dava aval aos grupos dominantes de cada estado em troca da eleição de deputados fiéis ao governo central.
Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, CamposComissão de Verificação
Mecanismo pelo qual os grupos politicamente dominantes validavam ou não o resultado das eleições para o Congresso.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a RepúblicaInstituto de Manguinhos
Criado para, entre outras atribuições, fabricar vacinas contra a peste bubônica.
Arquivo Nacional, Os presidentes e a República
Para entender o governo
Eleito e comprometido com a Casa Rothschild
Manuel Ferraz de Campos Sales nasceu em Campinas (SP), em 1841, numa família ligada à lavoura, foi chefe do Partido Republicano Paulista e ministro da Justiça do governo provisório. Na eleição de 1º de março de 1898, ele teve 174.325 votos, contra 16.534 do florianista Lauro Sodré. Antes da posse, Campos Sales foi à Europa negociar com a Casa Rothschild, principal credora do Brasil, o funding loan, um empréstimo de 10 milhões de libras para consolidar a dívida externa. Em troca, o governo deu como garantia as rendas da alfândega do Rio de Janeiro, prometeu não tomar novos empréstimos externos e queimar papel-moeda no valor do empréstimo, e o presidente eleito assinou de próprio punho o compromisso exigido pelos banqueiros. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15; Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República")
O arrocho de Murtinho
Com o ministro da Fazenda Joaquim Murtinho, o governo aumentou impostos, cortou investimentos, controlou os salários do funcionalismo e reduziu despesas. No manifesto de outubro de 1897, Campos Sales já prometia resgatar o papel-moeda, cortar o déficit e tirar das tarifas o que chamava de protecionismo inoportuno. Sodré afirma que essa política tentou, pela primeira vez, paralisar o desenvolvimento do país por meio de medidas financeiras, e mostra que o período de 1895 a 1899 teve o menor investimento em indústria entre 1885 e 1919, com cerca de 5% do total. Na mensagem de maio de 1899, citada por Sodré, Campos Sales defendia que o Brasil exportasse o que produzia em melhores condições e importasse o que os outros países produziam melhor. (Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República"; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 307)
A política dos governadores
Para garantir apoio no Congresso e isolar os republicanos radicais, Campos Sales criou o que chamou de política dos estados, em que o governo federal dava o seu aval aos grupos que já mandavam em cada estado. Nos meios políticos, o arranjo ganhou o nome de política dos governadores. O Arquivo Nacional registra que o apoio dependia da eleição de deputados fiéis ao governo central e que a Comissão de Verificação permitia aos grupos dominantes validar ou não o resultado de uma eleição. Em 1901, uma dissidência do Partido Republicano Paulista, que incluía o ex-presidente Prudente de Morais, rompeu com a orientação de Campos Sales. (Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República"; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15; Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de, seção "Presidente da República")
Como os marxistas leem a política dos governadores
Para Nelson Werneck Sodré, a política dos governadores entregava cada estado, como uma fazenda particular, à oligarquia regional que o dominava, que ficava livre para resolver os problemas locais, inclusive pela força. Em troca, o governo federal governava sem interferência nos estados, e as oligarquias montavam bandos armados ou polícias que funcionavam como exércitos regionais. Sodré liga essa organização interna da classe dos senhores de terras à associação com o imperialismo, que passou a financiar a política do café. Ele também cita Rui Barbosa, que chamava a política brasileira da época de sindicato dos governadores presidido pelo chefe do Executivo. (Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 306 e 315)
Edgard Carone, historiador marxista e professor de História do Brasil na USP, define o oligarca como um coronel em escala maior, porque o coronel é o chefe local e o oligarca leva o seu poder para o estado. Ele divide as oligarquias em dois grupos. Em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, o partido dominante amortecia os conflitos, enquanto nos estados mais pobres uma família ou um grupo controlava tudo, o que levava a formas violentas de política. Décio Saes chama esse regime de democracia oligárquica, com um único partido viável e eleições controladas pelos grandes proprietários de terras. (Carone, Oligarquias, p. 83; Arquivo Marxista na Internet, Edgard Carone; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 15)
A saída
Em 1900, segundo o Arquivo Nacional, o Brasil tinha 17.318.554 habitantes, e 64% deles viviam no campo. O governo criou o Instituto de Manguinhos, voltado à fabricação de vacinas contra a peste bubônica. Para a sucessão, Campos Sales escolheu Rodrigues Alves, presidente de São Paulo e antigo servidor da monarquia, comprometido com o seu programa financeiro. Quando deixou o Rio, em novembro de 1902, Campos Sales foi vaiado pela população na partida do trem, episódio que Sodré trata como um sintoma do declínio das oligarquias. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15; Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção "Presidente da República"; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 316)
O que dizem os historiadores marxistas
Nelson Werneck Sodré
A política dos governadores entregou cada estado à oligarquia regional como fazenda particular e organizou a classe senhorial para a associação com o imperialismo; a política de Murtinho paralisou o surto industrial.
Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 306-307Edgard Carone
O oligarca é o coronel em escala estadual; nos estados mais ricos o partido dominante amortece conflitos, nos demais o controle familiar leva à política violenta.
Carone, Oligarquias, p. 83Décio Saes
A democracia oligárquica era a forma política adequada à hegemonia da burguesia comercial-exportadora.
Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 15-16
Leitura de classe do governo
- Regime
- oligárquico
- Bloco no poder
- fração cafeeira paulista e oligarquias estaduais, associadas ao capital financeiro inglês da Casa Rothschild (Sodré, pp. 306-307; CPDOC)
- Relação com o imperialismo
- alinhamento
- Relação com os trabalhadores
- repressão
Para estudar este governo
SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Onde ler: pp. 305-308.
SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Onde ler: pp. 15-16.
CARONE, Edgard. Oligarquias: definição e bibliografia. Rio de Janeiro: Revista de Administração de Empresas (FGV), v. 12, n. 1, pp. 81-92, 1972. Onde ler: p. 83.
De onde vem cada afirmação desta página (27)
- FatoCampos Sales nasceu em Campinas (SP), em fevereiro de 1841, filho de famílias tradicionais da região ligadas à lavoura; o CPDOC dá o dia 13 e o Arquivo Nacional, o dia 15.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, primeiro parágrafo; Arquivo Nacional, p. 15
- FatoNa mensagem de maio de 1899, Campos Sales defendeu exportar tudo o que o país pudesse produzir em melhores condições que outros e importar o que outros produzissem em melhores condições.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 307
- FatoCampos Sales chamou de política dos estados o mecanismo de dar o aval do governo federal ao situacionismo estadual, que nos meios políticos foi chamado de política dos governadores.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- FatoO apoio aos grupos dominantes nos estados estava condicionado à eleição de deputados que defendessem o governo central, e a Comissão de Verificação permitia aos grupos dominantes validar ou não o resultado de uma eleição.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15
- FatoEm 3 de setembro de 1901, uma dissidência do PRP, com Prudente de Morais entre os signatários, lançou manifesto contra a orientação de Campos Sales.Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de, parte final do verbete
- Interpretação · Nelson Werneck SodréPara Sodré, a política dos governadores entregava cada estado, como fazenda particular, à oligarquia regional que o dominasse, que podia dominar com a força qualquer resistência, e o centro se comprometia a não se imiscuir nos assuntos estaduais.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 306
- Interpretação · Nelson Werneck SodréPara Sodré, as oligarquias estaduais organizavam forças irregulares próprias ou polícias semelhantes a exércitos regionais.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 306
- Interpretação · Nelson Werneck SodréPara Sodré, a política dos governadores foi a forma de organização interna da classe senhorial para estabelecer a associação com o imperialismo.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 306
- FatoSodré cita Rui Barbosa, para quem a política brasileira era o sindicato dos governadores presidido pelo chefe do Poder Executivo.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 315
- FatoEdgard Carone foi um historiador marxista, professor titular de História do Brasil na USP, dedicado ao período republicano e ao movimento operário.Arquivo Marxista na Internet, Edgard Carone, verbete
- Interpretação · Edgard CaronePara Carone, o oligarca é igual a um coronel, com diferença de escala política: o coronel é o chefe local e o oligarca transpõe o seu poder para o estado.Carone, Oligarquias, p. 83
- FatoCampos Sales presidiu a comissão central do PRP (1889) e foi ministro da Justiça do governo provisório (1889-1891).Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15
- Interpretação · Edgard CaroneCarone divide as oligarquias em duas categorias: nos estados mais adiantados (São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul), os conflitos são amortecidos pelo partido dominante; nos estados menos ricos, o controle do grupo ou da família é quase absoluto e leva a formas políticas violentas.Carone, Oligarquias, p. 83, citando A República Velha: instituições e classes sociais, p. 271
- Interpretação · Décio SaesPara Saes, a Primeira República foi uma democracia oligárquica, com um único partido eleitoralmente viável e eleições manipuladas pelos grandes proprietários de terras.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 15
- FatoEm 1900, o Brasil tinha 17.318.554 habitantes, dos quais 64% viviam no campo.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15
- FatoCampos Sales criou o Instituto de Manguinhos, voltado, entre outras atribuições, à fabricação de vacinas contra a peste bubônica.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15
- FatoCampos Sales escolheu como sucessor Rodrigues Alves, presidente de São Paulo e ex-servidor da monarquia, comprometido com o seu programa de estabilização.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- FatoAo deixar o Rio, em 18 de novembro de 1902, Campos Sales foi alvo de vaias e manifestações hostis na partida do trem da Central do Brasil.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- Interpretação · Nelson Werneck SodréPara Sodré, a impopularidade dos presidentes, inaugurada com a vaia a Campos Sales, era um sintoma do declínio das oligarquias.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 316
- FatoCampos Sales morreu em 28 de junho de 1913, em Santos, segundo o Arquivo Nacional, ou em Guarujá, segundo o CPDOC.Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 15; CPDOC, seção Presidente da República
- FatoNas eleições de 1º de março de 1898, Campos Sales obteve 174.325 votos, contra 16.534 do florianista Lauro Sodré.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- FatoDepois da eleição, Campos Sales negociou na Europa com a Casa Rothschild, principal credora da dívida brasileira, um empréstimo de consolidação de dez milhões de libras.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- FatoEm troca do funding loan, o governo deu como garantia as rendas da alfândega do Rio de Janeiro, comprometeu-se a não recorrer a novos empréstimos externos e a incinerar papel-moeda equivalente ao empréstimo, e Campos Sales assinou de próprio punho o compromisso exigido pela Casa Rothschild.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- FatoPor intermédio do ministro da Fazenda Joaquim Murtinho, o governo aumentou impostos, cortou investimentos, controlou os salários do funcionalismo e reduziu despesas.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- FatoNo manifesto de outubro de 1897, Campos Sales anunciou o resgate gradual do papel-moeda, a eliminação do déficit e a proscrição das tarifas do princípio do inoportuno protecionismo.Américo Freire (CPDOC/FGV), SALES, Campos, seção Presidente da República
- Interpretação · Nelson Werneck SodréPara Sodré, a política financeira de Murtinho foi a primeira tentativa de paralisar na prática o desenvolvimento do país por meio de medidas financeiras.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 307
- FatoO período de 1895 a 1899 teve o menor investimento em indústrias entre 1885 e 1919, mal atingindo 5% do total investido.Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 307
Fontes desta página
- Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
- Américo Freire (CPDOC/FGV). SALES, Campos (verbete do Dicionário da Primeira República). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
- SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
- Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV). MORAIS, Prudente de (verbete do Dicionário da Primeira República). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
- CARONE, Edgard. Oligarquias: definição e bibliografia. Rio de Janeiro: Revista de Administração de Empresas (FGV), v. 12, n. 1, pp. 81-92, 1972. Abrir ↗
- Arquivo Marxista na Internet. Edgard Carone (verbete do Dicionário Político). marxists.org. Abrir ↗
- SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗
- Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗
- Edgard Carone. Oligarquias: definição e bibliografia (Revista de Administração de Empresas, v. 12, n. 1, jan.-mar. 1972). periodicos.fgv.br. Abrir ↗
- Décio Azevedo Marques de Saes. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo (Novos Rumos, v. 52, n. 1, 2015). revistas.marilia.unesp.br. Abrir ↗