Pular para o conteúdo

Leitura / José Carlos Mariátegui

O fato econômico na história peruana

José Carlos Mariátegui · 14 de agosto de 1925

Os ensaios de interpretação sobre a história da República que dormem nas prateleiras de nossas bibliotecas coincidem, em geral, em seu desdém ou desconhecimento do enredo econômico de toda a política. Acusam em nosso povo, uma obstinada inclinação, não para explicar a história peruana, mas para trata-la de uma forma romântica ou fictícia. Em cada episódio, em cada ato, as visões buscam o protagonista, não se esforçam para perceber os interesses ou as paixões que o personagem representa. Medíocres caciques, os toscos administradores da política crioula são tomados como falsificadores e animadores de uma realidade da qual foram modestos e opacos instrumentos. A preguiça mental do crioulo é facilmente habituada a dispensar os argumentos da história peruana e contentam-se com o conhecimento de seus personagens dramáticos.

O estudo dos fenômenos da história peruana sofre pela falta de realismo. Balaúnde, com excesso de otimismo acredita que o pensamento nacional tem sido, por um longo período, marcadamente positivista. Chama de positivista a geração universitária que precedeu a dele, mas, vê-se obrigado a corrigir seu julgamento em grande medida, reconhecendo que essa geração universitária adotou do positivismo o que ele tinha de mais fraco e gasoso – a ideologia –; não o mais sólido – o método –. Nós nem sequer tivemos uma geração positivista, adotar uma ideologia não é administrar seus lugares comuns mais supérfluos. Em uma corrente, numa escola filosófica, é necessário distinguir o ideário do faseado.

Por tanto, mesmo um critério puramente especulativo deveria estar satisfeito com o crescente fervor de que goza o materialismo histórico e que desfruta na nova geração. Essa direção ideológica seria frutífera mesmo que servisse apenas para adaptar a mentalidade peruana à percepção e a compreensão do fato econômico.

Nada é mais evidente que a impossibilidade de compreender, sem o auxílio da Economia, os fenômenos que dominam o processo de formação da nação peruana. A economia não explica, provavelmente, a totalidade de um fenômeno e de suas consequências, mas, explica suas raízes. Isto é claro, pelo menos no tempo em que vivemos, se existe alguma lógica que o governa, sem dúvida, é a lógica da Economia.

A conquista destruiu na Pera uma forma econômica e social que surgiu espontaneamente da terra e das pessoas peruanas, pela qual, foram nutridos completamente por um sentimento de vida indígena. Começou durante o período colonial, o complexo trabalho de criação de uma nova economia e de uma nova sociedade. A Espanha, demasiadamente absolutista, rígida e medieval, não conseguiu com que este processo se realizasse sob seu controle. A monarquia espanhola pretendia ter em suas mãos, todas as chaves da nascente economia colonial. O desenvolvimento das jovens forças econômicas da colônia reivindicava a ruptura deste vinculo.

Esta foi a raiz primaria da revolução e da independência. As ideias da revolução francesa e da constituição norte-americana encontraram um clima favorável à sua difusão na América do Sul, porque na América do Sul já existia, ainda que embrionária, uma burguesia que devido às suas necessidades e interesses econômicos, podia e deveria ser contagiada pelo espirito revolucionário da burguesia europeia. A independência da América espanhola não se realizaria, certamente, se não tivesse contado com uma geração heroica, sensível a emoção de seu tempo, com capacidade e vontade para realizar nestes povos, uma verdadeira revolução. A independência, sob este aspecto, apresenta-se como uma empresa romântica. Mas isso não contradiz a tese do enredo econômico da revolução de independência. Os motoristas, os caudilhos, os ideólogos desta revolução, não eram anteriores nem superiores às premissas e razões econômicas para este acontecimento. O fato intelectual e sentimental não foi anterior ao fato econômico.(1)

O fato econômico também é a chave para todas as outras fases da história da república: nos primeiros dias da independência, a luta de facções e líderes militares aparece, por exemplo, como consequência da falta de uma burguesia orgânica. No Peru, a revolução encontrou menos definidos, mais atrasados do que em outros povos hispano-americanos, os elementos de uma ordem liberal e burguesa. Para que esta ordem funcionasse mais ou menos embrionariamente, uma classe capitalista vigorosa tinha que ser constituída. Enquanto esta classe se organizava, o poder estava a mercê dos caudilhos militares.(2) Esses caudilhos, herdeiros da retórica da revolução de independência, às vezes, apoiavam temporariamente as exigências das massas, desprovidas de qualquer ideologia, para conquistar ou preservar o poder contra o sentimento conservador e reacionário dos descendentes e sucessores dos encomenderos espanhóis. Castilla por exemplo, o mais interessante e representativo destes líderes militares, agitou com eficácia a bandeira da abolição do imposto sobre os índios e a escravidão dos negros. Embora, naturalmente, uma vez no poder, necessitou dosificar seu programa a uma situação política dominada pelos interesses da casta conservadora, a qual, indenizou com o dinheiro fiscal os danos causados pela emancipação dos escravos.

O governo de Castilla, marcou também, a etapa de solidificação de uma classe capitalista. As concessões estatais e os benefícios do guano e do salitre criaram um capitalismo e uma burguesia, e esta classe, que mais tarde se organizou no civilismo, moveu-se muito em breve para a conquista do poder.(3) A guerra com Chile interrompeu sua predominância, restaurou durante algum tempo as condições e as circunstâncias dos primeiros anos da república, mas, a evolução econômica de nosso pós-guerra gradualmente o superou, trazendo novamente a um outro caminho.

A guerra com o Chile teve também uma raiz econômica. A plutocracia chilena, que cobiçava as utilidades dos negociantes e do fisco peruano, preparava-se para uma conquista e uma desapropriação. Um incidente de ordem econômica, identicamente lhes proporcionaram o pretexto da agressão.

Não é possível compreender a realidade peruana sem buscar e sem olhar para o fato econômico. A nova geração não sabe, talvez, de um modo muito exato, mas, ela sente isso de uma maneira muito enérgica. Ela percebe que o problema fundamental do Peru, que é o do índio e da terra, é antes de tudo, um problema da economia peruana. A economia e a sociedade atual peruana, têm o pecado original da conquista. O pecado de ter nascido e ter se formado sem o índio e contra o índio.

Notas:

(*) Estes fragmentos são citados em 7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, "Esquema da Evolução Econômica", volume 2, da primeira série Popular (N. dos E.)

(2) Estes fragmentos são citados em 7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, "Esquema da Evolução Econômica", volume 2, da primeira série Popular (N. dos E.)

(3) Estes fragmentos são citados em 7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, "Esquema da Evolução Econômica", volume 2, da primeira série Popular (N. dos E.)

Sobre este texto

Primeira edição
Publicado em Mundial. Lima 14 de agosto de 1925
Fonte
Nova Cultura - https://www.novacultura.info/post/2019/02/21/o-fato-economico-na-historia-peruana
Tradução
Equipe de Traduções Nova Cultura
Licença
CC BY-SA 4.0

O autor está em domínio público no Brasil e a tradução tem licença livre. O texto vem do Arquivo Marxista sem alteração, com o crédito e a mesma licença.